Por altura do Natal, já me sentia perfeitamente integrado. A língua não foi um problema. Ao fim da tarde, depois da escola, tinha aulas de português. A minha mãe era a professora. Dez anos antes, tinh...
Conto publicado na edição 480, de 30 de novembro de 2023 Normalmente, tipos como eu iam à baliza. Eu era um desses miúdos que fazia a diferença, não no sentido artístico, mas no sentido literal, matem...
Crónica publicada na edição 477, de 31 de agosto de 2023 Eu e o Rui vamos à frente. Ele segue por um trilho que só existe graças às cabras que na sua passagem comem as ervas que se lhe metem à frente....
Tudo se passou como se passou. Agora, não vale a pena tentar contrariar. Não adianta fingir que é mentira. É escusado, porque não é restituindo à estátua a pedra que lhe foi retirada que se consegue c...
Quando o castigo que haveria de transformar para sempre o adolescente irreverente, cheio de pulsões por domesticar num jovem educado e sensível, o senhor Narciso não tinha ainda a cara de polvo com qu...
O senhor Narciso está sentado num banco do jardim, refletido pelo lago de água verde, suja de patos. Está rodeado de frio, rodeado de silêncio, rodeado do excesso de vazio de si mesmo que o transforma...
Amanhã é o dia! Esta é uma certeza de pedra: amanhã é o dia! Em breve chegará a hora de dizer: – É agora! Ainda trago entranhados nos ouvidos os gritos com que o Noureddine exultou após o reenco...
Antes de avançar um pouco mais na minha história, há um pormenor que não pode ser ignorado. O cheiro a trampa ouve-se. O cheiro a trampa fala alto, de boca aberta, entra pelos ouvidos como uma longa r...
Foi graças à Lieva que comecei a reentrar no mundo pela porta da frente. Era bom: corríamos pelos passeios, ao nascer do sol, dissolvidos no primeiro pulsar do dia. Éramos dois traços de luz a riscar ...
O solitário não tinha nome. Ou tinha, mas era como se não tivesse, porque ninguém o dizia, porque ninguém o ouvia, e porque sem ouvir nada se diz. É como a solidão em si mesma, nós a chamarmos por alg...







