Cachamorra

Conto publicado na edição 480, de 30 de novembro de 2023

Normalmente, tipos como eu iam à baliza. Eu era um desses miúdos que fazia a diferença, não no sentido artístico, mas no sentido literal, matemático, quantitativo: equipa onde eu estivesse, estava condenada a jogar com um a menos. Parecia destinado a ser um dos fracos com quem a História não perde tempo a tecer loas, no instante em que um dos jogadores da outra equipa teve mais olhos que baliza e atirou a bola para o céu, que, naquele dia surgia pintado de um azul contemplativo, para, depois, cair no quintal da vivenda separada por uma rede ovelheira ao lado da escola.

– Zé Itálias, vai buscar a bola! – gritou sem piedade o da pontaria desafinada.

Eu era novo ali. Tinha chegado com a minha mãe e a minha irmã da Itália há pouco tempo. O meu pai viera antes, para tratar de tudo. Como estávamos sempre a mudar casa e de país, fiz como o rapaz me mandou. Queria ser aceite, fazer amigos o quanto antes, criar raízes. Trepei a rede do lado da escola e saltei para o outro lado quando cheguei lá acima. Foram cinco metros no ar, em voo refrescante, com o cabelo agarrado ao vazio. Só me apercebi de que havia um cão quando aterrei com os pés num poio. Ouvi o resto da malta a rir do outro lado. Esfreguei o pé na relva molhada enquanto uma espécie de motosserra começou a trabalhar para logo a seguir perceber que não era motosserra nenhuma mas sim um cão. Só tive tempo de pegar na bola mandar um banano para o outro lado, encher os pulmões de todo o ar existente à minha volta, correr, saltar para a rede e começar a trepar como o Homem-Aranha, enquanto sentia as mandíbulas do cão atracarem o vazio como duas castanholas raivosas, à procura de um bocado de mim que fosse útil àqueles caninos lubrificados de baba morna.
Quando desci para o outro lado, são e salvo, com o coração num trampolim, já a minha irmã estava junto aos outros rapazes.

– Dani, o que é que aconteceu?

Ao tomarem conhecimento que eu era irmão da minha irmã, os rapazes mudaram a postura comigo. Pediram-me desculpa por não me terem avisado da existência do cão, convidaram-me a jogar a avançado sempre que quisesse. Na escola, chamavam-me para junto deles, davam-me o lugar na fila para tirar a senha do almoço, ofereciam-me cromos, pagavam-me partidas de matraquilhos. Faziam tudo o que podiam para impressionar não propriamente a mim, mas à minha irmã, que cedo ganhou a fama de ser a miúda mais gira da escola. É para isto que servem os irmãos mais velhos, para derrubarem portas por onde nós temos de passar sem fazer grandes esforços. Graças à minha irmã, mais velha e muito mais desinibida, comecei a gostar de estar naquele lugar e a rezar todas as noites ao Santo António de Pádua para que um dia pudesse casar e ter filhos ali, ao contrário dos meus pais, que estavam sempre a mudar de lugar e tinham dois filhos que não eram de lugar nenhum.

– São os negócios. É a Globalização! Já falta pouco para que me dês uma ajuda. Então, perceberás! – dizia-me o meu pai, imune à minha tristeza, sempre que tínhamos de nos mudar para outro lugar, muito preocupado em não deixar rasto, como o dinheiro vivo ao passar de mão em mão.

Quando nos mudámos do tacão da bota na Itália para um palacete remodelado e com piscina no ponto mais alto do Algarve, o meu pai tinha acabado de investir numa gelataria, bem mais a Sul, para onde se deslocava todos os dias muito cedo. Gelados italianos, claro.

Quando nos mudámos do tacão da bota na Itália para um palacete remodelado e com piscina no ponto mais alto do Algarve, o meu pai tinha acabado de investir numa gelataria, bem mais a Sul, para onde se deslocava todos os dias muito cedo. Gelados italianos, claro. Nessa altura, à tarde, depois da escola, ou ao fim-de-semana, o meu pai começou a levar-me com ele para todo o lado, apesar dos protestos preocupados da minha mãe.

– Ele vai só conhecer os meus amigos! – desculpava-se, enquanto eu entrava no carro, com o peito amarrotado de entusiasmo e de perplexidade. Lá dentro, estavam o Gianluca e o Alessandro, dois brutamontes cuja transpiração cheirava a cebola. Eram simpáticos e zelosos. O meu chamava-os de sócios. Um dia, o meu pai levou-me com ele e com os dois sócios a visitar um amigo a quem tinha ajudado a montar uma “agência de viagens” (o termo era do meu pai). Entrámos no carro dele sem ele saber e esperámo-lo até à noite. Estava-me a passar com a espera. O meu pai disse que era uma virtude dos negócios. Aguentei. Mal acendeu as luzes, o amigo do meu pai deu conta de que não estava só. Ao olhar pelo retrovisor, viu-me, a mim e ao meu pai, sentados no banco de trás. Os sócios apareceram depois, de mãos nos bolsos dos casacos, cada um de ambos os lados do carro. O homem pareceu surpreendido. Pude ver a cara a perder a cor, como se a tivesse acabado de mergulhar em lixívia, os olhos a minguarem nas órbitas. O meu pai sorriu, sem dizer nada. Esperou que o amigo falasse:

– Desculpa! – sussurrou, num inglês defeituoso.

O meu pai deu-lhe uma chapada carinhosa, mas forte, entre a bochecha e o cachaço e disse-lhe:

– Eu sei. (O inglês do meu pai era ainda mais indecifrável).

O meu pai fez-me sinal, saiu do carro e eu acompanhei-o. Os sócios juntaram-se a nós, mais tarde, no restaurante onde jantámos. Falámos sobre futebol. Mais tarde, a caminho de casa perguntei o que é que o amigo da agência de viagens tinha feito para pedir desculpa. Antes de falar, o meu pai limpou a garganta tossindo três ou quatro vezes e disse-me que o amigo andava a trazer turistas do Oriente, do Paquistão, do Bangladesh, da Índia, estava a fazer muito dinheiro e, talvez por isso, talvez pela azáfama, pelo ritmo de trabalho, pelas preocupações, se tivesse esquecido de dar notícias ao meu pai.

– Como é que te sentes, quando fazes o favor de ir buscar uma bola que um amigo teu atirou para longe e ele se esquece de celebrar contigo o golo que marca a seguir?

Olhei para ele. As luzes da estrada pareciam uma alucinação a arrastar-se de ambos os lados. Não respondi.

– Pois – disse o meu pai. É assim que me sinto com este amigo.

Estava cheio de sono. Encostei a cabeça ao banco e adormeci.

(Continua)

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