Cachamorra II

Por altura do Natal, já me sentia perfeitamente integrado. A língua não foi um problema. Ao fim da tarde, depois da escola, tinha aulas de português. A minha mãe era a professora. Dez anos antes, tinha passado um ano em Portugal para escrever a tese de Mestrado sobre Fernando Pessoa. Quando o meu pai lhe falou da possibilidade de virmos morar para Portugal, ficou entusiasmadíssima. Tal como eu e a minha irmã, também ela gostava de estar no país. Também ela parecia querer ficar para sempre, apesar de o meu pai já falar em sair para outro lugar, o que os levava a discutir como se houvesse uma tempestade provocada por uma depressão muito cavada no meio deles.

Na escola, as coisas iam lindamente. O meu pai, ou os sócios, quando ele não podia, deixavam-me a mim e à minha irmã na escola e voltavam à tarde para nos buscar. Sentia-me como se tivesse vivido sempre naquela vila do Algarve. Os meus colegas vinham ter comigo nos intervalos das aulas, convidavam-me para jogar futebol, para as festas de aniversário, trocávamos cromos, livros, falávamos sobre tudo. Lembro-me que havia uma série sobre a máfia italiana a passar na televisão e que os meus colegas se metiam comigo porque dois dos membros da família protagonista, o pai e o filho, eram assustadoramente parecidos comigo e com o meu pai. Perguntavam-me coisas sobre a série, quem morreria, quem sobreviveria, como se fosse mesmo eu o miúdo da série e o enredo incidisse sobre a minha própria vida. Na verdade, embora nunca o tenha confessado, eu já conhecia todos os episódios. Tinha-a a visto na Itália, um ano antes de embarcar para Portugal. Gostava da sensação de me sentir desejado e valorizado por ter sempre qualquer coisa de novo para lhes dizer todos os dias.

Nalguns casos, conversar sobre a série era apenas um motivo para tentarem chegar à minha irmã, cuja cabeleira, de um preto esvoaçante, os olhos, de um mediterrânico resplandecente, e o leve caminhar, como quem flutua sobre as águas, não paravam de fazer vítimas entre as jovens hormonas masculinas.

– Então, puto, viste a Cosa Nostra, ontem? – perguntavam, entre abraços fingidos – Parecia mesmo tu e o teu pai, naquela cena na casa de banho da pizzaria onde partiram os dentes ao drogado que não pagou a dívida ao T.!

– É verdade…

Nem deixavam o assunto avançar. Atalhavam logo para o que lhes interessava.

– E a tua irmã?

– Está boa! – respondia, perplexo.

– Isso sei eu que está! Já lhe viste a coisa?

Nesses momentos, perdia a compostura. Passava-me. Barafustava, insultava-os em italiano, ameaçava-os com os mesmos impropérios que ouvia o meu pai dizer ao telefone quando saíamos de carro para tratar de negócios. Se a minha irmã estivesse por perto, ou viesse a saber por outros, ela própria acertava o passo a esses chicos-espertos. Eu nunca lhe contava nada disto. Não queria arranjar problemas. Houve um ou outro artista que ainda lhe fez frente. Para esses, o tratamento era outro. Um dia, à saída da escola, encontrámos um desses atrevidos a caminhar até casa. A minha irmã apontou e disse aos sócios do meu pai:

– Foi este.

Um dos sócios do meu pai acelerou o carro, obrigando o rapaz a correr à nossa frente até à exaustão. Quando parecia que o ia passar a ferro, o sócio do meu pai parou o carro à frente dele, abriu o vidro e gritou:

– Tens de falar menos e exercitar-te mais, campeão! Alma sã em corpo são.

– A vida é demasiado curta. Experimenta coisas novas, coisas que mudem a tua vida – disse o outro sócio.

Quando o meu pai soube disto, perdeu a cabeça. Foi numa das nossas visitas ao amigo da Agência de Viagens. Eu estava no carro com eles.

– Careca dum raio! Queres deitar tudo a perder, seu estúpido? – gritou.

– Eu não sou careca! Tenho é o pelo mal distribuído pelo corpo – retorquiu ele – Além disso, se o cabelo fosse uma coisa boa não nascia no traseiro! – completou. O outro sócio deixou fugir uma gargalhada que o meu pai interrompeu severamente.

– Vocês são uns inúteis, é o que é!

– Não há pessoas inúteis! Toda a gente tem consigo qualquer coisa de importante para ensinar aos outros, nem que seja apenas como um exemplo a não seguir – disse o que se riu.

O meu pai olhou para mim. Depois para eles. Fez um sinal com a mão em lâmina, como quem corta o pescoço, e disse que o assunto morria ali.

O tempo foi passando e, não sei se pela verosimilhança da minha aparência e do meu pai para com as personagens da série italiana ou das nossas vidas para com o enredo, começou a enraizar-se a ideia de que o meu pai pertencia à máfia. Coincidentemente, ou talvez não, o meu pai deixou de passar tanto tempo connosco. Levava dias sem vir dormir a casa, as nossas visitas de negócios terminaram. Um dia, à entrada da escola, fui abordado por um tipo com óculos de aviador e vestido com um casaco de cabedal preto. Abriu-o, tirou de lá de dentro um distintivo que o apresentou como polícia e a seguir mostrou-me uma folha A4 com a fotografia do amigo do meu pai, aquele que tinha a Agência de Viagens. Disse-me:

– Este homem está desaparecido. Viste-o por aí?

– Não! – respondi e saí dali a correr em direção ao autocarro.

Naquele dia, tinha sido a minha mãe a levar-me à escola. Estava atrasado. Tínhamos uma visita de estudo ao Centro de Ciência Viva na cidade onde o meu pai tinha a gelataria.

Tentei abstrair-me daquele momento. Durante a hora de almoço, no parque da cidade, procurei divertir-me com o pessoal. Pedi a um amigo que me empurrasse com toda a força no baloiço, como se fosse voar dali. Saltei do baloiço em andamento e, quando caí no chão, fiquei de cócoras, a pensar na abordagem do polícia, antes de sairmos. O meu amigo continuou a empurrar o baloiço, mesmo que eu já lá não estivesse sentado. Ao mesmo tempo que me levantei, senti uma martelada forte na cabeça. Fiquei tonto. De limites esmorecidos, as coisas começaram a envolver-se em neblina. Levei a mão à cabeça. Senti um jorro quente a envolvê-la: sangue. Desmaiei.

Acordei minutos mais tarde, com as sirenes do carro-patrulha que me transportava. A minha professora comprimia uma toalha na zona da ferida. Senti vontade de vomitar. Abri os olhos e vi, estampada no tablier do carro, a mesma fotografia que o polícia à paisana me tinha mostrado de manhã. Dizia: “Desaparecido”, seguida de um contacto telefónico.

Procurei as palavras que me faltavam, até que as consegui dizer, meio grogue:

– Eu só estava a passear com o meu pai! Eram negócios! Não fomos nós!

– Coitado! Está a delirar – disse a minha professora, compadecida.

– O hospital é já ali! – sossegou-a um dos agentes, antes de o pânico me ter tirado de novo a consciência.

Ainda senti, em silêncio, o meu telefone a vibrar, num som de arrotos compassados. Era o meu pai. Foi a última vez que deu sinal de vida.

(Fim)

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