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JM514: O espanhol III

Há qualquer coisa de homérico na história de José da Silva. Não se sabe, ou não sei, quase nada sobre ele, tal como pouco se sabe daquele a quem é atribuída a autoria da Ilíada e da Odisseia. Tal como sucede com os poemas épicos da antiga Grécia, existe a possibilidade de que as poucas composições líricas deste poeta popular monchiquense tenham sido engendradas do nada, surgindo, como que por magia, do vazio.

Assim como muitos filólogos, académicos e estudiosos passam uma vida inteira à procura de um rosto, de um rasto ou de um documento que lhes permita reconstruir a biografia daquele homem da Antiguidade clássica que cantou a cólera de Aquiles e o regresso de Ulisses a Ítaca, também eu continuo na pista de testemunhos e provas de que José da Silva Conceição existiu como homem para além do artista que se deixa entrever nos próprios versos. Faço-o movido pelo mesmo fundo de razão que leva tanta gente, há tanto tempo, a procurar provas da existência de Homero.

Não deixa de ser aterrador pensar que a Ilíada e a Odisseia possam não pertencer a mais nada senão ao vento, aos humores do mar Egeu ou aos rugidos da Serra de Monchique e que, antes de conhecerem a força definitiva do papel, os versos devam a vida a um conjunto de fantasmas que os foram passando de boca em boca, em tabernas e destilarias obscuras, entre copos de vinho, aguardente translúcida e cheiro a chouriça assada. No caso do poeta monchiquense, é uma lástima que ainda não tenha sido reunido um número suficiente de poemas, de modo a compilá-los em livro.

eu continuo na pista de testemunhos e provas de que José da Silva Conceição existiu como homem para além do artista

Apesar da sua dimensão exígua e ressalvadas as inevitáveis reservas do ponto de vista estético, os poucos poemas que se conhecem de José da Silva Conceição, o Espanhol, o Chinelo ou o Schnell, revestem-se de uma outra particularidade intrinsecamente homérica: tendo sido ditados por um analfabeto a alguém que dominava a escrita, apresentam um conjunto de termos e de formulações orais que os aproximam, à sua escala, dos épicos de Homero. É o caso da repetição do vocativo «Ó coveiro, diz-me já», no início do poema «Quadras dedicadas à Campa», que encontra um paralelo no Canto I da Ilíada, iniciado com «Canta, ó deusa…».

Parece-me, ainda assim, que o lastro clássico em José da Silva se faz sentir sobretudo no que diz respeito ao pouco que se sabe da sua vida. Durante a minha estadia em Monchique, nas férias, não deixei o assunto morrer nas conversas que fui mantendo com familiares e amigos, apesar de um conjunto de peripécias me ter impedido de contactar algumas pessoas que se disponibilizaram para falar comigo. Temo, no entanto, que, pelo denso silêncio que se acumulou desde que este homem cumpriu o seu percurso neste mundo, morrendo na mais pesada solidão e na pobreza, tudo aquilo que sobre ele se diga pertença já ao domínio da fantasia especulativa e a nada mais do que essa fértil dimensão.

À semelhança do que aconteceu com centenas de portugueses que tomaram parte no conflito armado, é possível que José da Silva já se encontrasse em território espanhol quando eclodiu a guerra no país vizinho. Não foram, pois, motivações de ordem política, aliadas à romantização da guerra, da glória e do heroísmo, que o levaram para terras espanholas. Não foram os ventos do kalos thanatos, isto é, da morte bela ou honrosa em batalha, que de Espanha sopravam com a intensidade sedutora com que sopram na Ilíada a atrair José da Silva. É bem provável que, tal como Aquiles e até Ulisses, que se fez passar por destituído de razão para evitar as armas, José da Silva tenha sido impermeável à ilusão da glória e do heroísmo.

Foi, de acordo com as informações que me foram dadas, um motivo meramente pessoal e do foro íntimo que levou o poeta popular monchiquense a Espanha: o amor. Ao que se conta, José da Silva ter-se-á apaixonado por uma mulher espanhola, esposa de um homem, também ele espanhol, que vivia em Monchique. Os contornos do caso são igualmente homéricos e estabelecem um paralelo com a fuga de Helena, a mulher mais bela do mundo na tradição homérica, para Troia, seduzida por Páris.

Depois de descoberto o relacionamento extraconjugal, José da Silva, diz-se, ter-se-á envolvido numa violenta escaramuça com o marido atraiçoado (ou com alguém da confiança deste), tendo a reação ao desforço resvalado acidentalmente para uma tragédia. Cometido um crime, não terá restado outra alternativa a José da Silva senão fugir com a mulher amada em direção a Espanha. Era aí que viveria, clandestino e indocumentado, quando, a 17 de julho de 1936, rebentou a insurreição militar nacionalista liderada por Franco contra o Governo democraticamente eleito da República Espanhola.

Portanto, não há que romantizar. José da Silva, o Espanhol, o Chinelo, o Schnell, não foi atraído pela guerra. Foi apanhado, engolido e cuspido por ela. Este homem não foi, pois, um dos valentes e corajosos que se insinuam na linha da frente dos combates. Foi apenas mais um entre os portugueses residentes em Espanha durante o conflito, muitos deles envolvidos na guerra como mercenários cujos feitos e dramas pessoais a história teima em ignorar.

«Há um bafo homérico na história de José da Silva.» Repito-o agora, porque o disse à minha mulher ao expor-lhe as razões do meu interesse por este poeta.

«Não estarás a ir pelos mesmos caminhos que o teu adorado Javier Cercas? Isso não me parece muito original…», respondeu ela, aludindo às obras Soldados de Salamina e O Monarca das Sombras, do escritor espanhol, cujo tema central se relaciona, justamente, com a Guerra Civil Espanhola.

Ao contrário de Cercas, o meu propósito não é contribuir para reconstituir e contextualizar, a partir de casos reais, a memória histórica do conflito, romanceando-a. Não me atreveria a fazê-lo, dada a falta de talento e a quase ausência de fontes de informação. Fujo a esse desígnio. O papel dos portugueses na Guerra Civil Espanhola também foi estudado num trabalho recentemente publicado no Público e em livro pela jornalista Maria José Oliveira.

«Ao contrário do Cercas, eu não estou à procura de um homem. Estou à procura de um poeta e dos seus poemas», respondi à minha mulher.

Como qualquer outra circunstância traumática da vida, a participação de José da Silva na Guerra Civil Espanhola é um elemento incontornável da biografia deste homem. E, como acontece com qualquer outro autor, a biografia não é mais importante do que a obra. No limite, contextualiza-a e explica-a. No entanto, aproveito este espaço no Jornal de Monchique para reiterar o apelo a quem tiver informações sobre este homem, para que mas faça chegar, de modo a poder reunir o maior número possível de poemas da sua autoria.

Escrever sobre aqueles a quem o esquecimento insiste em enterrar é apenas um ato da mais elementar justiça. Escrever sobre José da Silva, o Espanhol, o Chinelo, é encontrar a chave camoniana para entrar na obra «valerosa» que o libertará da lei da morte.

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