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JM514: Tradição oral em Monchique: um exemplo prático de salvaguarda da memória

A tradição oral é, antes de tudo, uma forma de transmitir conhecimento que vive na voz e na memória das comunidades. Antes de ser escrita, a história circula em relatos, cantigas, provérbios, lendas e modos de fazer que passam de geração em geração. Nesse conjunto mais amplo de saberes transmitidos pela voz, destaca‑se a literatura oral, que reúne as formas narrativas e poéticas moldadas pela criatividade coletiva. É através desta transmissão direta, no convívio, no trabalho, nas festas e nos encontros do quotidiano, que se preservam práticas, narrativas e expressões que dão continuidade à identidade coletiva.

Na perspetiva de vários autores, a literatura oral tradicional reúne um conjunto muito diversificado de textos que, de um modo geral, foram sendo passados entre gerações e que se caracteriza por estar integrado no património cultural de uma comunidade, que o reconhece e conserva como tal. A vertente oral e tradicional manifesta-se «quando o texto é sentido como patrimonial, memorizado a partir de recitações ouvidas de pais e avós, perdida a noção de quem foi o autor», refletindo-se no emissor do texto que, assim, «participa ativamente numa espécie de criação coletiva pelas modificações que faz no texto que reproduz, sem que, no entanto, esse texto deixe de ser fundamentalmente o texto».

O interesse no estudo das tradições populares orais em Portugal remonta ao século XIX, quando vários investigadores como Teófilo Braga, Almeida Garret, Adolfo Coelho, Consiglieri Pedroso e Leite de Vasconcelos se debruçaram sobre o tema e publicaram os primeiros trabalhos relacionados com este tema. Em 1917, na sequência da visita que o arqueólogo Leite de Vasconcelos fez ao concelho de Monchique, foram recolhidas, além de artefactos arqueológicos, várias tradições orais, com destaque para dois contos populares, intitulados «O príncipe e a Jardineira» e «Madre Leocádia», atualmente desaparecidos da memória local, não havendo registo de versões recentes nem testemunhos de quem os tenha ouvido.

O algarvio Estácio da Veiga foi pioneiro no estudo e registo da tradição oral da região, tendo publicado «O Romanceiro do Algarve», em 1870. Este trabalho viria a ser continuado por Ataíde Oliveira que, a par da sua atividade como funcionário do Registo Predial de Loulé, ainda se dedicava à investigação e recolha de texto de tradição oral, particularmente no concelho de Loulé. Da sua autoria, registam-se os livros «Contos tradicionais do Algarve», «Romanceiro e Cancioneiro do Algarve» e «As Mouras encantadas e os encantamentos do Algarve», onde surge a lenda registada em Monchique intitulada «Zorra de Odelouca».

Ainda no século XX, são conhecidos outros investigadores que continuaram os estudos relacionados com a tradição oral e levaram a efeito diversos trabalhos em contexto académico que deram a conhecer novas narrativas e, em alguns casos, do concelho de Monchique. É o caso da tese de Paulina Ribeiro (1958), dedicada exclusivamente à freguesia de Marmelete, cuja temporada ali passada permitiu a autora recolher vários contos populares, rezas e benzeduras, assim como inúmeras crenças e superstições locais.

Mais recentemente, pode referir-se os trabalhos de Fernanda Frazão e de Gentil Marques em cuja obra são mencionadas duas lendas monchiquenses. Iguais referências merecem ainda as investigadoras já falecidas Cláudia Diogo – monchiquense e autora do livro «Lendas e outras memórias de Monchique» – e Maria Aliete Galhoz – cofundadora do Centro de Estudos Ataíde Oliveira na Universidade do Algarve (UAlg), estando também associada à recolha e investigação de textos tradicionais.

Efetivamente, existem muitos géneros de textos de tradição oral. Vários autores têm procurado sistematizar a sua categorização, apresentando propostas de classificação variadas. Entre esses investigadores, refere-se João David Pinto-Correia que propõe uma divisão da literatura tradicional em três grandes grupos: textos práticos-utilitários, ligados ao quotidiano e à transmissão de ensinamentos (provérbios e orações), textos lúdicos, associados ao entretenimento e ao jogo verbal (adivinhas, lengalengas e trava-línguas) e, finalmente, os textos compósitos, que combinam diversão com funções identitárias, místicas ou moralizadoras (contos, lendas, romances tradicionais).
Em Monchique ainda se preservam algumas destas memórias que continuam a ser transmitidas de geração em geração. Contudo, face à globalização e consequente transformação dos modos de vida, muitas destas formas orais foram-se perdendo e remetidas ao esquecimento. Mas este é um património que merece igualmente ser preservado e valorizado, pois, para além do sentido semântico, pode também revelar modos de vida, valores, crenças e práticas sociais, associadas a contextos específicos, como celebrações religiosas, bailes, brincadeiras infantis ou práticas comunitárias.

Face a este cenário de perda progressiva, surgem iniciativas que procuram contrariar o esquecimento. Foi com este sentimento de preservação do património imaterial que o projeto «Fábrica de Memórias» – uma parceria do Município de Monchique e a Associação Vicentina – saiu à rua para ouvir, recolher e gravar as memórias que ainda subsistem, um pouco por todo o concelho. Um dos exemplos que a seguir se transcreve foi recolhido na freguesia de Alferce, em abril de 2026, e enquadra-se no género de «anfiguri», por representar um texto literário de lógica lúdica, imaginativa e próxima do absurdo.

«Era uma vez aquilo que não era
Andava lavrando na serra
Foi saber que o pai era morto
E a mãe tava por nascer.
Pôs-se com os bois às costas
E os arados a comer.
Veio de lá para baixo
Pulou pra cima de uma macieira
O dono das abóboras
Mandou apanhar favas
Num faval que não era seu
Apanhou melão
Jugou um torrão
Bateu num joelho
Fez sangue no artelho»
(Ana Maria Santos, Alferce)

A par deste texto, foram recolhidos outros que integram a segunda edição da revista «Fábrica de Memórias»; os vídeos associados podem ser vistos no canal de Youtube designado «Monchique Fábrica de Memórias».r

Bibliografia:
CORREIA, João David Pinto (1986). «O essencial sobre o romanceiro tradicional», Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Lisboa;
DIOGO, Cláudia (2015). «Lendas e Outras Memórias de Monchique: História, Tradição e Oralidades no Algarve», 1.ª edição, Direção Regional de Cultura do Algarve, Faro;
Revista «Fábrica de Memórias», 2.ª edição (junho de 2026), projeto de colaboração entre o Município de Monchique e a Associação Vicentina, Monchique.

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