No passado mês de outubro, o autor monchiquense e colaborador do JORNAL DE MONCHIQUE Eduardo Jorge Duarte recebeu por parte da Câmara Municipal de Monchique um voto de congratulação e louvor pelo reconhecimento do seu mérito literário.
A distinção citou também “o excecional contributo dado à valorização cultural do concelho de Monchique”, bem como manifesta “o orgulho do Município pela inclusão do poema ‘Gralhas’ no Plano Nacional de Leitura, um feito que eleva o nome da nossa terra no panorama educativo e literário português”.
A deliberação fundamentou-se na convicção de que a cultura, a criação literária e a salvaguarda da memória histórica e identitária constituem pilares fundamentais e estratégicos para o desenvolvimento integrado do território, assumindo o Município de Monchique, por isso, “o compromisso contínuo de valorizar, apoiar e projetar os criadores locais e os agentes culturais que enriquecem o património imaterial” do território, conforme referiu a câmara.
Sobre o autor, a deliberação assinalou o percurso literário “consolidado e umbilicalmente ligado” à serra, traduzido na publicação de uma “vasta obra” que inclui os livros de contos “Montanário” (2017), “Uma Coruja nas Ruínas” (2018) e Três Setes (2023) e as obras de poesia “O Intervalo entre o Raio e o Trovão” (2019) e “Gralhas” (2021).
Esta última é de onde provém a composição agora premiada, cujo título dá nome ao livro. “Eduardo Jorge Duarte mantém, de forma regular, uma publicação permanente na imprensa da sua terra, através do JORNAL DE MONCHIQUE, onde partilha crónicas e contos que enriquecem o quotidiano e preservam a memória afetiva e cultural da nossa comunidade”, lembrou o município.
O Plano Nacional de Leitura (PNL) selecionou e integrou o poema “Gralhas” no “Guia de Leitura de Poesia”, uma listagem “restrita e altamente selecionada”, segundo a câmara, de 20 poemas nacionais e internacionais, “partilhando espaço com vultos maiores da literatura como Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral, Manuel António Pina e Vinícius de Moraes”.
O guia constitui uma ferramenta pedagógica e didática oficial distribuída e consultada em todas as escolas portuguesas – no caso do poema “Gralhas”, destinada aos alunos do segundo ciclo do ensino básico, “facto que a referida distinção nacional constitui um motivo de profundo orgulho coletivo para Monchique, comprovando que a nossa serra continua a ser terra fértil em talento e sensibilidade artística, ao mesmo tempo que serve de farol pedagógico e estímulo inspirador à leitura e à criação literária junto das nossas crianças e jovens”, concluiu o município. Leia o poema:
Gralhas
Aconteceu assim, numa escola
Do campo,
A professora mandou os alunos
Escreverem uma redacção.
«O tema é livre», disse.
No dia seguinte,
Um menino apresentou
Um texto original,
Era sobre pássaros.
As palavras estavam
Desenhadas a preto,
Reunidas em bando,
Tinham sombras nos bicos,
Asas nas sílabas,
Faziam muito barulho,
Num canto rouco
Que quase não se deixava perceber.
A professora chamou o menino,
Perguntou-lhe o que era aquilo.
«Este texto está cheio de gralhas», disse,
Assinalando-as a vermelho.
O menino voltou para casa,
Comprometendo-se a apresentar
O mesmo texto, mas sem gralhas.
No dia seguinte, a professora
Abriu o caderno.
As folhas estavam em branco.
À semelhança do dia anterior.
A professora perguntou
O que era aquilo.
«O texto já não tem gralhas.
A professora matou-as todas ontem
Com tiros vermelhos», disse o menino.
Eduardo Jorge Duarte, in Gralhas, On y va
Foto – Eduardo Duarte – Direitos reservados-Philosophy Spring Festival
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