Um sul às costas

Crónica publicada na edição 479, de 30 de outubro de 2023

A gorda carteira dos meus pais tão depressa me levou à desconsideração do futuro como me colocou em múltiplos lugares sem destino antecipado. Filho de boas famílias, se boas famílias for só uma ideia de contas bancárias, de propriedades, de património, nem sempre obtidos por intermédio das melhores ações, beneficiei sempre de ventos favoráveis, de marés amigas, de portos seguros, de um conjunto de circunstâncias que sem grandes esforços, cuidados ou preocupações fariam de mim um homem de sucesso, um caso exemplar daquilo a que hoje chamam meritocracia ilustrada em capa de jornal e de revista, presença assídua nos palcos das grandes decisões, não nos palanques da política, mas naqueles que os condicionam, onde a voz do dinheiro se impõe e manda calar os ideais mais puros e mais honestos.

Na verdade, nunca me senti tão pobre por saber que o dinheiro era a única coisa que tinha e a que podia aspirar ter na vida. Olhando para trás, vejo que de puramente valioso dentro dos bolsos só existiu a minha curiosidade quase eterna. Apenas essa vontade de partir de peito feito rumo ao desconhecido seria digna de cotação em bolsa. Tudo o resto foram fracassos, desinteresse e alheamento que, a bem de uma paz podre familiar que desde então reina no seio da minha família, não foram nem nunca serão sequer credores de uma fugaz lembrança, quanto mais motivo de orgulho.

Os meus pais tinham outros projetos para mim. Desses árduos desejos não lhes dei senão desgostos. Fiz o meu destino, fui senhor e refém das minhas escolhas, da minha incúria e dos meus erros, mas também o maestro a viver dentro da sua própria música. Talvez por idealizar demasiado o amor, nunca vivi um relacionamento intenso e duradouro. Por falta de jeito, de beleza ou de capacidade, nunca fui capaz de olhar para as mulheres com quem me envolvi sem desconfiar de que estavam comigo apenas por dinheiro. O modo como olhavam para mim, todo nu, ou quando fazíamos amor, levava-me a pensar que para elas apenas o tamanho da minha conta bancária interessa. Não posso chamar amor àquilo que vivi. Até hoje, nunca fui amante nem tampouco fui amado. Todos os casos em que me deixei envolver foram apartes na monotonia do coração.

Vistos de fora, somos obrigados a reparar em partes de nós que não conhecemos ou, de outro modo, teríamos dificuldade em entender. Os instintos que nos fazem crer na nossa própria realidade são sempre descongelados quando ela é vista por olhos distantes dos espelhos que temos em casa.

Dizia eu que, à nascença, nem o mais delirante exercício de especulação poderia colocar como hipótese outra coisa que não aquilo que os meus pais queriam que eu fizesse ou fosse. Sem querer entrar em grandes pormenores sobre o que aconteceu, declinei tudo. Tive mais trabalho a deitar para o lixo todas as oportunidades que me deram do que eles a criarem-nas. Médico, advogado, gestor… Nada disso fui. Apenas um cavaleiro andante que, para mudar de vida, saiu de casa em busca de aventuras, renegando o ouro do próprio berço. O que para os meus pais foram loucuras e desfeitas, para mim fui apenas eu a fazer uso da liberdade e a seguir o meu caminho, a cumprir-me naquilo em que acredito: cada pessoa, nas latitudes e longitudes do destino, é o seu próprio par de coordenadas.

Hoje, eles e eu, embora mais velhos e tolerantes, continuamos como dantes: evitamos falar de mim. Comemos juntos, mas sem espinhas na garganta. Converti-me no lixo alegre que todos varremos para debaixo do tapete. Vivo com uma pequena importância que varia em função dos rendimentos que tiramos do vinho, da cortiça, do mel e das aromáticas e pouco mais. Se não for ano de incêndios, permito-me ainda uma ou outra extravagância fútil como as idas a certas cidades europeias para assistir aos jogos da minha equipa na Liga dos Campeões, combino de quando em vez umas mariscadas com algum dos amigos que o dinheiro não estragou, mando vir da Internet uns pares de sapatilhas de marca, que não chego a usar para oferecer aos filhos dos caseiros, meto-me num comboio para assistir a festivais de música no verão, compro garrafas de vinho de adegas rivais da nossa. A paisagem dentro de mim é um espelho da que me chega de fora. Dependo dela: se arder, enegreço, se chover, inundo, se o céu andar limpo, polinizo os olhos e sorrio.

Mesmo assim, permaneço imprevisível como qualquer pessoa o é à nascença. Em bom rigor, da mesma maneira que nenhuma vidente cartografou a linha do tempo urdida nas minhas mãos, também nenhum mapa previu as inúmeras viagens que uma vida despreocupada de responsabilidades me autorizou. Pelo menos, enquanto a torneira dos meus pais não parou de jorrar o dinheiro necessário às minhas loucuras. Admito-o, sim, reconheço, sim, está claro, o meu norte perdeu-se das bússolas. Para mim, os relógios nunca foram mais do que artefactos de aprovisionamento de horas. De modo que pude entregar-me muitas vezes ao despautério hedonista de acelerar o movimento de rotação da Terra no candeeiro em forma de globo suspenso na minha mesa de cabeceira e, de olhos fechados como duas persianas de uma casa fechada, colocar aleatoriamente o indicador sobre o território da minha próxima viagem. Viajar até às cidades mais populosas e cosmopolitas ou aos lugares mais inóspitos do planeta e assim conhecer o mundo foi uma maneira de conhecer-me a mim mesmo, não porque obtive respostas, mas porque aprendi a aproximar-me de quem sou seguindo em direção às melhores perguntas.

Sendo difícil definir-nos com exatidão, quem seríamos nós sem a ajuda de quantos nos mostram o que somos?

Vistos de fora, somos obrigados a reparar em partes de nós que não conhecemos ou, de outro modo, teríamos dificuldade em entender. Os instintos que nos fazem crer na nossa própria realidade são sempre descongelados quando ela é vista por olhos distantes dos espelhos que temos em casa. Certa ocasião, caminhava no bairro judeu, em Paris, quando um grupo de crianças me atrasou o passo, interpelando-me em hebraico. Mostrando-se surpreendidas com a perplexidade do meu silêncio, as crianças acabaram por perguntar-me:

– Êtes-vous juif?

Aconteceu-me em Roma ser abordado por turistas italianos que procuravam o Panteão ou em Espanha, por concidadãos portugueses, perguntando, em castelhano, como podiam tirar o bilhete do parquímetro. No outro dia, no parque da cidade, um pequeno marroquino dirigiu-se a mim, de bola de futebol estendida nas mãos. Sem entender o que eram, percebi facilmente que as palavras que me dirigiu eram um convite entregue em berbere para jogar com ele.
Se lhe juntarmos o acaso do local de nascimento, foi a diversidade sem fronteiras que, em síntese, resultou nesta misturada de judeu, de latino e de árabe que fazem de mim português. Sendo difícil definir-nos com exatidão, quem seríamos nós sem a ajuda de quantos nos mostram o que somos?

A consequência de um desses inúmeros devaneios de aventureiro incauto, talvez a última, antes de o murro que o meu pai desferiu na mesa se ter convertido no epicentro de um sismo algures na Terra, foi ter ido parar a uma aldeia piscatória num dos cardumes de rocha esquecida nos arquipélagos do Mar de Timor, onde conheci a história de Tristão, um velho feiticeiro que trazia na cara os danos das intempéries, nos gestos a limpidez das vagas de calmaria e na alma a placidez do pôr-do-sol. Era um homem com as costas largas, tatuadas com mapas estelares. Dava a impressão de que se o céu desabasse em cima de nós, conseguiria suster os astros, as estrelas, todos os corpos celestes com os ombros. Se este pormenor acerca dele não estivesse tão claro na minha memória, era capaz de jurar que se trata de uma invenção minha. Tinha uma voz cavernosa, falava como se hospedasse na garganta as alegorias de Platão. Nunca saíra da sua cadeira feita das mandíbulas de uma baleia que ali encalhara a sua velhice, a não ser para ir ao mar trocar lágrimas de felicidade pelo peixe que serviu de alimento à descendência que perdurará muito para além dos dias de hoje.

– Por cada peixe que te tiro, dou-te as sementes de outros – afirmava ao aconchegar as redes aos saltos na piroga.

O exemplo de Adónis ensinou-me os mais simples rituais pagãos cuja prática amolece os caminhos das provações e pelos quais se prepara o salto para o coração remoto do Universo, por detrás do horizonte visível das estrelas. E no entanto, conhecendo a minha própria história, não consigo deixar de lembrá-lo como se olhasse um céu negro carregado de maus presságios.

– Por cada dia de sol, há um dia de chuva, para cada noite, há um amanhecer, cada norte tem um sul escrito nas costas. Cada entidade da terra tem um correspondente simétrico no mar e no ar. O sopro do cachalote vive na tromba do elefante que brinca no rio, a estrela que brilha no céu tem o reflexo afundado no firmamento oceânico, os oito olhos da aranha, quando se vê ampliada na água de uma poça, fazem-na acreditar que as suas muitas pernas são os tentáculos de um polvo, renegando assim o seu irmão caranguejo. Por isso, mergulha e afoga-se naquela ansiedade líquida. É preciso saber ver o nosso tamanho interno como quem conhece o lado de dentro do vento – terminava, antes de bocejar e espraiar o cansaço na cadeira esquelética.

É nisto que penso, agora que vejo o meu rosto espelhado entre os favos de luz que rutilam neste lago alentejano, ao lado de uma aranha morta na corrente.
Por cada pessoa que a morte adormece, há outra que a vida acorda. Serei eu as costas, o sul, a chuva, a noite de Tristão?

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