Um ensaio notável sobre a paisagem rural portuguesa

Notável, mais do que pertinente, um olhar instituído na pluralidade dos elementos que convergem para a paisagem rural e que dela emanam: “Portugal: Paisagem Rural”, por Henrique Pereira dos Santos, ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2017.

Logo no texto introdutório:

“O caráter de uma paisagem é sempre profundamente marcado pela sua capacidade de produzir vida; mais tecnicamente, pela sua produtividade primária.

É a combinação de clima e geologia, e consequentemente a disponibilidade de solo, de nutrientes e de água, que definem a maior ou menor riqueza de uma paisagem, medida pela quantidade de energia solar que consegue captar através dos organismos vivos. É o génio do homem, acicatado por uma fome ancestral, que lhe permite gerir a fertilidade e a água no sentido de alimentar o maior número de bocas possível”.

E discorre sobre a evolução das paisagens portuguesas, desde as ricas do Noroeste de Portugal, passando pelas paisagens infinitamente pobres dos cistos do centro de Portugal, depois as paisagens dos plainos alentejanos até chegarmos ao barrocal algarvio.

E conta uma história que a nossa sociedade de consumo, por pura displicência, ignora ou desdenha aprofundar. Como era o tipo de economia dominante em todo o mundo até aos inícios do século XIX, o que aconteceu com a chegada da máquina a vapor e etapas subsequentes, o que distingue uma paisagem dirigida a partir de uma economia de base orgânica de uma paisagem que assenta numa economia aberta. É um relato rigoroso, entrechocam-se florestas e cereais, campos, várzeas e vales, regadio e sequeiro, e como se foi moldando a ruralidade com a produção do milho, as paisagens trigueiras, as extensões de centeio, aqui e além intervêm estudiosos históricos como Filipe Folque e, imagine-se, Oliveira Salazar, a propósito da situação criada pela proteção à produção de cereais, estávamos em 1916: “De modo que este país de vinha e da oliveira, das frutas magníficas e das flores preciosas, podendo oferecer nos grandes mercados, com antecedência de bastantes dias, os produtos mais raros e caros, de maior procura e consumo, vive agarrado à miséria da sua cultura de cereais. Porque não a abandonará?”.

A viagem prossegue pelas economias fechadas e de subsistência, o regime alimentar dos ricos e dos pobres, a importância do porco, as culturas de autossubsistência, mas também se fala em leitões, cabritos e vitelas, engenhos de elevação de água, o permanente estudo da fertilidade dos campos, a importância dos animais de trabalho.

Segue-se a lógica do Estado-Novo que evita a opção pela exportação como forma de resolver o défice externo, entra-se numa economia em que as paisagens rurais portuguesas se vão alterar, basta lembrar a campanha do trigo, intensifica-se o uso da terra, cultiva-se mais trigo e milho em detrimento do centeio. Henrique Pereira dos Santos é uma autoridade, e o que assombra neste ensaio é a singeleza com que comunica, leva-nos a olhar num estado de plena curiosidade tudo quanto ele estudou seja na zona dos cistos centrais seja nas áreas de seara e na expansão suave dos montados á custa da compressão da charneca, vemos a lógica da mudança das culturas. E entramos na economia orgânica, acompanhamos as transformações. E assim chegamos à debandada dos campos, uns emigram outros migram para as grandes cidades, à cata de trabalho na indústria e serviços. Na febre da industrialização, entre Salazar e Marcello Caetano, com a adesão à EFTA, o setor agrícola já não responde a essa nova procura que marca os primórdios da nossa sociedade de consumo, é um mundo em alteração, desde as alimentares, às preocupações com os transportes, lazeres, comunicação, conforto doméstico. O autor rememora, porque todos nós temos que medir as nossas consequências: “Entre 1980 e 2006 a área de cereais para grão diminuiu para menos de metade, a produção de tomate para a indústria quase duplicou, a produção de laranja aumentou 94%, a produção de vinho diminuiu 22%, a produção de carne de suíno mais do que duplicou. A produção de carne de frango aumentou 71%, a de leite de vaca mais do que duplicou e a de queijo aumentou 77%”. O Portugal rural, por ironia, acompanhou na transversal o que Salazar observara em 1916. Mas com muitíssimas diferenças, como é óbvio: a desvalorização das pastagens pobres, por exemplo. E há outros números a ter em conta: o emprego da terra, na década de 1950, andava perto dos 50%, a indústria pelos 25%, a soma dos serviços estaria pelos 15%, excluindo a administração pública e o comércio. No dobrar do século, dera-se mais uma descida percentual no trabalho na terra, descera também a importância da indústria, empolaram-se os serviços, a administração pública e comércio. O que dá para concluir: “Esta evolução ajuda a compreender a dinâmicas da paisagem do Portugal rural do século XX, mesmo mascarando duas tendências opostas: a) intensificação da pressão na primeira metade do século XX; b) diminuição da intensidade do uso do território na segunda metade do século XX”.

E o autor despede-se sugerindo que seria bom podermos olhar para as paisagens no que elas transportam do passado para o futuro, para lá do retrato instantâneo que fazemos instintivamente a cada olhar em volta, melhorando a nossa capacidade de conversar sobre o que vemos.

Se a estrutura do ensaio é uma narrativa onde não se pode perder a compreensão fulcral da organização dos temas, e onde a comunicação realça com vigor os aspetos esquemáticos e sintéticos, “Portugal: Paisagem Rural” é um caso de mestria de alguém que sem fazer uso direto das suas experiências profissionais revela uma deslumbrante capacidade de análise para onde convergem a conservação da natureza, o ornamento e o conhecimento ainda mais profundo da paisagem rural associada à dinâmica da biodiversidade.

De leitura obrigatória.

 

11 - livro