Tocar piano a seis mãos “é uma loucura” coordenada ao detalhe

Reportagem publicada na edição 475, de 30 de junho de 2023

Svetlana Bakushina, Doris Gameiro e José Antonio Cubela são um trio de piano praticamente inédito em Portugal que tem promovido concertos a seis mãos no Algarve, todos os verões, há três anos. Os concertos deste ano decorreram nos dias 11 e 12 de junho, no Museu do Traje de São Brás de Alportel e na Casa Manuel Teixeira Gomes, em Portimão.

São trinta dedos num piano só, mas apesar de o espaço de manobra ser pouco, Svetlana Bakushina, Doris Gameiro e José Antonio Cubela partilham as teclas sem cotoveladas nem atropelos. Tendo em conta a coordenação e perícia com que o fazem, parece que tocam todos os dias juntos, mas tal só acontece, presencialmente, poucos dias antes dos concertos que têm vindo a organizar, todos os verões, há três anos. Doris e José Antonio vivem ambos no Texas, nos EUA, enquanto Svetlana está sediada em Monchique, o que impede de se encontrarem mais vezes, quer para ensaiar como para realizar concertos. Todavia, embora a reduzida frequência, continuam a ser um grupo praticamente inédito a tocar a seis mãos em Portugal.

“Estou bem”, diz Svetlana a Doris, depois de esta lhe perguntar se não estava a cair do banco. É logo este o primeiro desafio: colocar os assentos de forma a estarem os três bem aninhados. Doris e Svetlana partilham um e José Antonio está num outro que foi virado 90 graus para não ocupar espaço desnecessário. “1, 2, 3, 4”, conta Doris, dando o sinal da entrada. O que se ouve a seguir é uma peça do compositor luso-americano John Philip Sousa, durante o ensaio geral antes do concerto que iria acontecer nessa noite, na Casa Manuel Teixeira Gomes, em Portimão. No dia anterior já tinham tocado no Museu do Traje de São Brás de Alportel.

Svetlana, que ocupa a posição do meio, diz que tem a vida mais dificultada por ter de adaptar a posição dos seus braços aos dos outros dois. Toca praticamente com as mãos sobrepostas e chega a ter de baixar um dos braços para Doris passar por cima, ao mesmo tempo que eleva o outro criando uma passagem para Jose Antonio enfiar, por sua vez, o seu braço por baixo. Nada disto se ensina em aulas, observam os artistas, resultando só mesmo da experiência em trio e do à-vontade que possuem enquanto pianistas a solo.

“É uma loucura”, ri José Antonio, notando que, por vezes, os braços até estão à frente dos olhos, tapando as teclas. Quem fica encarregue do pedal é a pessoa que toca nos graves e o virar das páginas das partituras vai sendo alternado entre os outros dois, conforme haja uma pausa que permita ter uma mão livre. “É muito divertido trabalharmos juntos, por isso é que fazemos isto”, refere o pianista de origem cubana.

Três amigos ensaiam por videochamada

Tudo partiu de uma conversa entre Doris e José Antonio num supermercado, em Texas, há quatro anos. A pianista, que também é artesã de joalharia, recorda que José Antonio estava de regresso do Taiwan, onde tinha sido júri de um festival de piano, e que lhe perguntou o que iria fazer nesse verão. Doris disse que tinha uma ida a Portugal planeada com o seu marido, que é lisboeta, e isto deu aso a uma primeira viagem em trabalho a tocar a quatro mãos. Entretanto, ela e Svetlana já tinham começado a conversar através do Facebook, num grupo de professores de piano. Os três conheceram-se depois no Algarve, onde definiram um plano de ação para atuarem no ano seguinte a seis mãos.

Desde então, todos os verões têm vindo tocar a Portugal. Os ensaios decorrem à distância, através de uma videochamada, durante, pelo menos, os seis meses que antecedem os concertos. Primeiro, cada um aprende a sua parte, depois ensaiam em duplas – Doris e José Antonio podem juntar-se no Texas, já com Svetlana é sempre online – e enviam vídeos uns aos outros para tocarem por cima. Por fim, reúnem-se os três para pôr os pontos nos is. Isto acontece, geralmente, uma vez por semana e implica uma certa logística para colmatar as falhas tecnológicas, contam os artistas. Devido aos problemas de rede, uma pessoa tem de pôr auscultadores e “tocar às cegas”, enquanto os outros dois vão tentando acompanhar a tempo real.

Além do desempenho musical, também precisam de discutir a “decisão artística” quanto aos arranjos das peças, uma vez que não há muitas composições para seis mãos. Numas das peças que o trio toca, vê-se uma parte da partitura feita de colagens, sendo, por isso mesmo, preciosa por só haver uma única cópia, brinca José Antonio.

Este ano foi a primeira vez que marcaram dois concertos de seguida, restringindo-se ainda ao Algarve pelo facto de Svetlana conhecer bem o meio. Mas se a divulgação continuar a correr bem, “talvez para o ano… façamos também um em Lisboa, outro nos EUA…”, sonha a pianista. No concerto do dia anterior, em São Brás – onde resolveram projetar numa parede, pela primeira vez, uma perspetiva de cima das suas mãos para todas as pessoas conseguirem ver – repararam que já têm um público habitual que acompanha o seu trabalho. Entre estes espectadores, há quem pergunte por que não tocam em três pianos para evitar as trocas e baldrocas das mãos. Por um lado, porque “não há” tantos pianos disponíveis, brinca Svetlana. Por outro, porque se perderia a essência do grupo que pressupõe este lado desafiante e uma grande intimidade. No fundo, são três amigos que se juntam para criar e rir da embrulhada em que se meteram.

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