Spirulina: “A principal intenção é ensinar a outros, dado que o segredo do negócio não existe”

Um horizonte em tons de cinza emoldura o ciano da alga que fomos visitar, organismo da origem dos tempos que se tornou, nos dias de hoje, num superalimento. Com propriedades únicas e um cheiro e cor característicos, a spirulina confere proteína e elevada capacidade de nutrição. Pode ser utilizada de diversas maneiras, mas nunca aquecida e deve ser ingerida durante a manhã, não mais que cinco miligramas, ou seja, segundo Georges Porta, produtor em Monchique, no máximo uma colher de chá cheia ou rasa, “com um sumo que tenha vitamina C, como limão ou laranja, pois ajuda na fixação do ferro”.

“A spirulina não é um planta. Costuma-se dizer que é uma microalga, mas, na realidade, é uma cianobactéria. Ciano significa azul, porque embora pareça ser verde, ela tem um pigmento azul muito interessante que se chama ficocianina, que é um antioxidante muito forte e que é o único corante alimentar azul. No fim, este tipo de bactéria é o início da vida sobre a terra, pois transforma o dióxido de carbono em oxigénio”, explica.

Numa estufa que poderia ser de outro produto agrícola qualquer, esta alga que se desenvolve durante cerca de seis meses, de abril de a setembro ou outubro, dependendo da temperatura, está presente num tanque com movimentos compassados e automáticos. Para o comum mortal vê-se apenas água numa tonalidade verde, para os spirulinistas está a ser criado ali um microrganismo capaz de colmatar as grandes carências da alimentação mundial.

Num ambiente abafado e quente, com características tropicais, Georges fala da sua paixão por esta cultura e a origem deste organismo. É catalão e foi emigrante desde criança em França, país pioneiro no cultivo e comercialização da spirulina. Georges foi a primeira pessoa a trazer esta microalga para o território português. “Neste momento existem três explorações do género, em Portugal. A primeira em Monchique, depois uma na Graciosa, nos Açores, da responsabilidade de uma francesa e, por último, uma exploração em Tomar que teve como base as indicações e os meus ensinamentos, já que a ideia é também ensinar os outros”. Em comparação, a relação dos dois países com o produto é bastante diferente. Na “França existe uma federação de produtores, com partilha de ideias e há cada vez mais quintas de spirulina”, enquanto que “aqui em Portugal é mais a cultura do secretismo, então a divulgação não é tão fácil por essa razão”, acrescenta.

Foi na Índia que o produtor e a sua companheira, Cristina, aprenderam a arte de trabalhar a spirulina. Explicam que escolheram Monchique para implementar este cultivo, porque amam esta terra e porque Cristina é monchiquense e retornou para estar próxima de sua mãe.

Num gesto de demonstração da sua spirulina, afirma que “esta não é igual à produzia em industria na China ou na Mongólia, que é em pó e é secada de 80ºc a 100ºc, ficando quase queimada, pelo que tem menos propriedades, embora seja um produto mais barato que o nosso”, acrescenta enquanto coloca na sua mão pedacinhos de spirulina que resultam de uma secagem da alga, “a 40ºc, a baixa temperatura, para guardar o máximo de nutrientes, por cerca de cinco a seis horas”, então, por isso, fica em “fios de esparguete, que são partidos”.

No processo de produção utilizado por Georges, “a spirulina vem do tanque com uma bomba e tem um tamanho de 250 micron, um quarto de milímetro, depois passa por uma tela de filtragem que tem buracos de 30 micron, mas a água volta para o tanque, então é muito ecológico, porque se usa sempre a mesma água para produzir uma quantidade grande de spirulina”. O produtor sublinha que “só se compensa a evaporação, uma vez que a ideia é de ter 20 centímetros de água. Se for menos, pode ficar muito quente e se chegar acima de 40ºC a spirulina pode morrer. A água tem de estar a 32ºC, 33ºC para ter maior produtividade. Depois, esta massa é escorrida e prensada”.

“Os spirulinistas reconhecem um gosto diferente ao produto e que a sua qualidade é única, porque o método utilizado é muito artesanal”, acrescenta Cristina que nos confessa que “o feedback que temos nas feiras das pessoas é extraordinário. Quando provam exclamam “Uau, mas isto é diferente”.

“O princípio ecológico é vender onde se produz, para evitar os transportes. O que acontece aqui no Algarve é que as pessoas, os turistas provam a nossa spirulina, chegam a casa com o pacote, que tem um prazo de validade de dois anos e, quando acaba, encomendam e nós enviamos. Para além disso, distribuímos em lojas locais”.

O trabalho é executado na totalidade por Georges, que não quer empregados. “A ideia não é produzir muito”. No final de cada ano, a produção varia entre 80 e 100 quilos.

“O que é interessante é que a spirulina não precisa de uma terra de boa qualidade, a ideia é ter uma lona para fazer o tanque, então pode ser produzida em qualquer sítio. Por exemplo, este lugar estava abandonado há 20, 25 anos”. Cristina lembra ainda que “a spirulina ocupa espaços abandonados e pode ser aliciante para jovens investidores”.

“A história de ser o alimento do futuro, é importante frisar, porque se precisa de pouca água e de pouco espaço para criar muita comida, produzir proteínas”, acentua. Entretanto, Georges completa a ideia, realçando que a spirulina “é o alimento que tem mais proteína, entre 60% e 65%, enquanto que a soja tem 20%, a carne tem 10% e estes dois são alimentos que precisam de muita água para serem produzidos, enquanto que um tanque como este tem 20 mil litros”.

Apesar de não estarem provadas as propriedades medicinais da spirulina, “há estudos feitos por cientistas belgas no Lago Chade, onde repararam que a população era muito saudável. Viram que eles recolhiam, secavam e comiam aquela alga. Na verdade, como isto é uma coisa que não se pode patentear, não foram feitos estudos por grandes laboratórios ou farmacêuticas com fins lucrativos, mas sim por humanitários, associações que fizeram experiências como na Índia. Nesse caso, crianças subnutridas tomaram aquilo e, após três semanas, já se via a diferença. Agora, produz-se porque está na moda”, observa Cristina.
No entanto, “deve-se começar a tomar devagarinho, porque uma pessoa que tenha um fígado muito sobrecarregado e que tome muita spirulina poderá ficar maldisposta”, adverte.

Cristina e George partilham connosco, orgulhosamente, que construíram a sua produção com algumas ajudas e com voluntários, desde 2015 e levaram cerca de três anos para se constituírem. Revelam ainda que “algumas das pessoas que nos auxiliaram ficaram surpreendidos por nós querermos apenas ensinar a outros e não querermos expandir, porque estão acostumadas à ideia comum de fazer dinheiro”.

Em relação à procura, também a pandemia afetou as vendas de spirulina já que “vieram muito menos turistas para experimentar o conceito de turismo verde e agora, com o medo da inflação, as pessoas têm menos dinheiro, então nota-se na dificuldade financeira”, realça o produtor.

Contudo, este tipo de produção também tem um cariz humanitário, até porque Georges admite que está “disposto a encontros entre quem quiser fazer projetos humanitários. Até poderia ser fora de Portugal. Também poderia servir como forma de falar da eficácia da spirulina na resolução da má nutrição. No fundo, a principal intenção é ensinar a outros, dado que o segredo do negócio não existe. Como não se produz no inverno, muitos spirulinistas vão em missões humanitárias para África ou América do Sul transmitir o seu conhecimento na área”.

Por fim, Cristina e Georges, com os olhos no horizonte admitem que “há um sonho de que a spirulina será a solução para a fome no mundo”.

Por Diogo Petreques e Lúcia Costa

Cristina e George
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