Seminário discute artesanato face ao turismo na região do Algarve

Com a presença da Diretora Regional da Cultura do Algarve, Alexandra Gonçalves, a N’Artecicus-Associação Profissional de Artesãos e Artistas Plásticos de Monchique comemorou, no dia 16 de fevereiro, o seu III aniversário na Infraestrutura Turística da Foia, local onde esta associação promove uma exposição de artesanato.

«Artesanato, artesãos e as suas potencialidades na economia local face ao Turismo da Região», foi o tema de um seminário organizado a propósito, a que se seguiu a entrega aos Bombeiros Voluntários de Monchique de donativos recolhidos, no valor de 686,80 euros. Registou-se a participação de 55 artesãos e o apoio do CEARTE-Centro Protocolar para a Formação em Artesanato e Património, da Câmara Municipal e da Junta de Freguesia de Monchique.

De acordo com a associação «o seminário teve como objetivo principal prestar uma homenagem a todos os artesãos que, anteriormente à instalação do Radar da Força Aérea, desenvolveram a sua atividade de vendas no antigo espaço que veio a ser ocupado por aquela arma das Forças Armadas Portuguesas; bem como a todos aqueles que, posteriormente, vieram a instalar-se no atual espaço disponibilizado pela mesma Força Aérea e Município de Monchique, garantindo assim a continuidade do respeito e consideração pelos artesãos e artesanato da região.»

Esta foi uma oportunidade «para se analisarem e discutirem problemáticas setoriais importantes como sejam a inovação em artesanato, o papel da formação, os novos artesãos, o associativismo e a promoção de parcerias com outras entidades, nomeadamente com o CEARTE.» Foi ainda apreciado o trabalho desenvolvido, em prol da valorização do artesanato, por parte da Junta de Freguesia de Monchique através da realização dos certames anuais Artechique-Feira de Artesanato e Sabores de Monchique e do Centro de Artes e Ofícios, promovido por esta autarquia. O projeto TASA-Técnicas Ancestrais, Soluções Atuais, com sede em Loulé, a formação e a acreditação dos artesãos através da atribuição do Cartão e do estatuto de Unidade Produtiva Artesanal foram também objeto de apreciação e discussão entre os presentes.

Conclusões principais do seminário

Numa «Reflexão sobre o estado da arte e caminhos a percorrer na região» a Diretora Regional de Cultura do Algarve defendeu que «a emergência de uma nova geração de artesãos tem colocado em evidência valores associados ao artesanato como os da identidade, apoiada no sistema de crenças, valores e culturas que consubstanciam criações originais concebidas a partir de novos conceitos e materiais, sendo assim possível introduzir inovação e criatividade sem desvirtuar o processo artesanal assente em ciclos produtivos associados a matérias-primas.» Neste domínio apontou os exemplos de Castro Verde, os projetos TASA, Loulé Criativo e CREATOUR, com consulta on-line. Papel fundamental em todos estes processos tem sido o da Formação na procura de uma maior dignificação da profissão de artesão e a inventariação e salvaguarda dos saberes e técnicas tradicionais, de acordo com Alexandra Gonçalves.

Aquelas foram temáticas abordadas também pelos restantes oradores, que fizeram questão de evidenciar o papel do artesanato face ao turismo como fator identitário, considerando João Ministro, do projeto TASA, que se trata de «uma profissão de futuro em que a disciplina do design eleva o artesanato do Algarve, através de soluções que lhe dão uma marca contemporânea e utilitária, sem perder a sua matriz cultural e ecológica.» Na rede de artesãos do TASA integram-se já 40 artesãos e 60 produtos, em que cada peça procura contar uma história das mãos que a trabalharam e conceberam. Inspira-se nos usos e costumes do passado, repensada para os dias atuais e integrada na cultura mediterrânica.

Foi também defendido que, no seu contributo para o desenvolvimento local, «o papel do artesanato não pode, atualmente, ser descurado, sem que percam referências fundamentais como a fidelidade aos processos tradicionais, em que a intervenção pessoal constitui um fator predominante, uma vez que o artesanato tem vindo a emergir como fonte de rendimento e de emprego, além de ser uma mais valia turística e fator de

envolvimento das populações com os seus territórios.»
Carlos Rosa, no tema «Manifesto do Artesão», aproveitou a oportunidade para defender que «as atuais estruturas representativas dos artesãos necessitam de se renovarem, de acordo com as novas tendências evolutivas, por forma a se obter um maior reconhecimento, estando em curso a elaboração de um manifesto do setor, que coloca em causa a equidade no acesso ao mercado face a outras manifestações que também se reivindicam como artesanais mas que se confundem com práticas industriais com as quais os artesãos não conseguem concorrer.» Neste domínio, concluiu que há ainda percursos a percorrer para os quais os artesãos necessitam de ser mais envolvidos e participativos.

Luís Rocha, diretor do CEARTE, considerou que o grande desafio que se coloca aos artesãos «é a qualificação e capacitação dos seus profissionais, detentores de saberes de elevada qualidade e complexidade técnica, sendo assim profissionais muito qualificados, pese embora estes se defrontarem com constrangimentos como sejam a falta de apoios financeiros adequados à atividade e o seu exercício, por parte de alguns artesãos e outros produtores, sem estarem legalizados.» As regras dos programas de financiamento dificultam também a organização formativa, com o CEARTE procurando respostas em parceria com as associações regionais, autarquias, IPSS e outros grupos locais.

Quanto à certificação, a Carta de Artesão e Unidade Produtiva Artesanal abrange agora 180 atividades artesanais agrupadas em 13 domínios, sendo objeto de atualização periódica. Os benefícios decorrentes consistem no acesso aos apoios que o Estado atribua ao artesanato (exemplo: Programa de Promoção das Artes e Ofícios), a participação nas feiras de artesanato do país, em condições vantajosas e de forma simplificada de acesso ao selo “Portugal Sou Eu”, o enquadramento no Registo Nacional do Artesanato e a possibilidade de utilizar menções específicas como “produto artesanal”, “fabrico artesanal” ou equivalentes, vedadas por Lei aos produtores não reconhecidos bem como ainda a possibilidade de sinalizar e diferenciar os seus produtos, através da utilização do símbolo aprovado pela Portaria 1085/2004, de 31/08.

A encerrar o programa do seminário, José Gonçalo, presidente da Junta de Freguesia de Monchique, fez uma retrospetiva do apoio ao artesanato prosseguida por esta autarquia com os certames anuais Artechique e a criação de um Centro de Artes e Ofícios, podendo concluir-se que as autarquias podem ter, pela sua proximidade e conhecimento direto das realidades locais, um papel importante quer na promoção das várias áreas da atividade artesanal quer no seu reconhecimento e validação e no estabelecimento de parcerias com outras entidades que valorizem o setor.

Por último, a associação aniversariante, promotora deste seminário, evidenciou que «esta foi também uma oportunidade, de relevo, para se fazer sentir a falta de artesãos mais ativos em Monchique para participarem nas atividades da associação N’Artecicus, sobretudo os das áreas mais tradicionais.» Ao mesmo tempo, considera «que ficou patente que se trata de um setor fundamental para o desenvolvimento e promoção do turismo local pelo que, da parte das autarquias, este terá de ser colocado em contextos de maior prioridade.»