Se Deus quiser

Hoje está um dia particularmente frio. Nós, algarvios, na nossa maioria, veneramos o sol. Somos um povo que se aquece por fora e é quente por dentro. Somos calorosos. E há palavras que nos confortam e enganam o vento e o gelo. Há uma senhora, no meu local de trabalho, que me aquece a alma todas as noites, só pela forma sincera como se despede de mim. À primeira vista não há nada de especial na sua frase, mas procuro encontrá-la de todas as vezes que vou para casa só para levar no caminho as palavras mais bonitas que alguém que não conhecemos nos pode dizer: “até amanhã, se Deus quiser”.
Não sei o seu nome, não sei a sua história. É pequenina, de cabelo grisalho, e faz limpezas. Não me parece que tenha idade para trabalhar tanto e sinto que carrega no corpo dores crónicas nas costas e pés. Nos olhos mantém um brilho que a maior parte das pessoas não tem. Na cara marcam-se as rugas de quem viu muito. Nas mãos, os calos de uma vida a labutar. E na boca, as palavras mágicas: “até amanhã, se Deus quiser”.
A minha avó, que outro mundo tem, despedia-se das netas da mesma forma. “Tchau avó”; “Até um dia destes, se Deus quiser”. E a resposta: “Deus quer” – Oh! A inocência juvenil de falar por quem não se conhece! E há tantos crescidos e “sábios” que opinam sobre os desejos de Deus, que mandá-lo querer que nos voltemos a ver me parece insignificante.
Hoje já não nos vemos, hoje já não ouvimos a despedida de sempre, a não ser nos ecos da nossa memória. E talvez por isso valorize tanto o breve adeus da senhora que limpa o que todos sujam, como se se tratasse de uma vontade imensa. Deus queira que tenhamos mais um dia para nos encontrarmos no local de sempre, para fazer o mesmo de sempre, com as nossas pessoas do costume. Que permita que a vida não acabe já hoje, que ainda haja um amanhã.
Cabe tanto em cinco palavras. E é um verdadeiro privilégio ter-se o hábito genuíno de pedir coisas a Deus. Se eu o fizesse soaria a hipocrisia, seria quase anedótico. Se os meus pares me ouvissem proferir tais palavras com certeza me diriam que não estava boa da cabeça. Portanto, mesmo que quisesse, não me ficaria bem acenar aos meus e dizer: “então muita saúde e até à próxima, se Deus quiser”.
Há coisas que não são nossas, não nos pertencem. E ainda bem que assim o é, ou perder-se-ia o encanto da diferença, da individualidade, do que nos faz sermos nós, mesmo que não tenhamos pensado sobre tal. A frase não é minha, o desejo não é meu, não há hábito, nem crença, nem sequer vontade de que não seja assim. Mas sabe-me a muito cada vez que ma dizem, como um conforto que se transmite de uma alma para outra.
É mais do que uma religião, é mais do que aparenta. Não é colocar nas mãos de outrém superior a nossa existência, não tem a ver com missas e sermões, nem com catolicismos domingueiros. É gostar-se de viver. É desejar vida aos outros. É ansiar continuar-se. E sem se pensar, dá-se algo tão grande em tão poucos segundos.
Hoje está um dia particularmente frio. Já falta pouco para rumar ao ninho e agasalhar-me. Com sorte tenho lareira acesa e chocolate quente. São pequenos os maiores prazeres que a vida tem. E. como de resto tem acontecido todas as noites desde há vários meses, encontrarei a senhora das limpezas. Far-me-á o sorriso doce do costume. E sem exceção dir-me-á, em jeito de minha avó – e que me diga durante muito tempo, anos sem fim – “Até amanhã, se Deus quiser”.

Autor: Cristina Luz