Que som tem a Rua do Porto Fundo?

Artigo publicado na edição 480, de 30 de novembro de 2023

A Fungo Azul, uma associação cultural “algarvia”, com sede em Monchique, lançou um mapa sonoro da vila no qual a retrata por meio dos sons que caracterizam a sua paisagem. O passo seguinte é criar “um arquivo sonoro de larga escala” desta região onde resolveram, em 2020, estabelecer a sua sede com o intuito de trazer mais cultura à serra. Contudo, ainda não conseguiram arranjar uma sede física para concretizar esse propósito.


Quem tiver passado a pé junto à nora, no Largo dos Chorões, na tarde do dia 15 de novembro, é capaz de ter ouvido pior o som dos seus próprios passos do que Carlos Norton. Sentado, “discreto”, no muro, Carlos gravava mais um som para o mapa sonoro da vila de Monchique, um projeto associado à Universidade do Minho intitulado “Passeio”, para o qual foi convidado enquanto artista e investigador. Pelos auscultadores chega-lhe todo o tipo de sons, com tal força e definição que trespassam quase para o plano visual, como uma explosão de cor. Em redor da nora, do lado esquerdo ouve-se a música do café, de cima o restolhar das folhas, da direita excertos de conversas de transeuntes.

Lançado no final de novembro na plataforma passeio.pt, o mapa sonoro de Monchique pretende transpor a vila para o formato de sons, traçando uma espécie de rota. Contempla cerca de 20 sons, todos eles “exteriores, da paisagem envolvente”, como o Largo dos Chorões, a Rua do Porto Fundo, o Miradouro de São Sebastião, o jardim da vila e os mercados mensal e de domingo, explica Carlos. “Uma vez que sou da casa, já sei o que é que existe”.

Carlos Norton é um dos fundadores da Fungo Azul, uma associação cultural criada em 2015 e que diz ser essencialmente “algarvia”, mas que tem sede, desde 2020, em Monchique. Os artistas e outros membros que a integram estão “completamente espalhados” pelos diversos concelhos do Algarve e um é inclusive da Amadora. Os projetos que a associação tem vindo a realizar atingem, por isso, o nível nacional, e até mesmo internacional, e surgem de “caminhos artísticos” muito variados.

“Uma das coisas mais interessantes que fizemos foi no Farol do Cabo de São Vicente”, recorda Carlos. O projeto consistiu numa residência artística para a qual convidaram seis artistas de diferentes áreas a pernoitar no farol, durante seis noites, com o objetivo de montar uma exposição com base numa carta redigida para o efeito pelo escritor e realizador Jacinto Lucas Pires. Entre os outros projetos que já realizaram incluem-se uma exposição de fotografia na Ria Formosa, o Festival de Fusões Artísticas (que acontece todos os anos), ciclos de cineconcertos ou edições de livros e discos. No fundo, diz Carlos, acabam por “trabalhar em todas as áreas” artísticas, promovendo, de preferência, “coisas fora do vulgar”.

Um dos projetos que confere destaque à Fungo Azul, pelo facto de esta ser pioneira, pelo menos na região do Algarve, é o seu Arquivo Sonoro e Paisagístico do Algarve, cuja ideia é “captar o som que se ouve em todo o lado” no território algarvio. Através de um mapeamento dos cerca de 500 sons que já gravaram desde 2016, sabem que a distância máxima entre um ponto de recolha e o seguinte é apenas de dois ou três quilómetros. Em Monchique, por exemplo, Carlos gravou nos sítios mais “emblemáticos”, como na Foia, no Largo dos Chorões e no Moinho do Poucochinho.

Para garantir a qualidade dos sons, além de ser preciso um bom gravador e microfone, também é importante saber que tipo de microfone usar para se retirar o melhor proveito da situação. Quando o objetivo é gravar o som de uma esplanada de café, por exemplo, Carlos evita usar um microfone, num tripé, com uma capa protetora de pêlo que, não passando despercebida aos demais presentes, faz “toda a gente calar-se”. Ao invés, recorre a uns microfones binorais que parecem meros auscultadores.

“Não há nenhuma sala com palco” em Monchique

Em Monchique, o primeiro projeto que a Fungo Azul dinamizou foi uma exposição sonora e uma performance no âmbito da primeira edição do certame “Vamos à Vila”, em 2022. Agora que já tem um mapa sonoro da vila, a próxima ideia que a associação tem na mira é “construir um arquivo sonoro de larga escala”, do género de um que já fizeram para Castro Marim. “Monchique é riquíssimo em termos culturais e patrimoniais”, nota Carlos, acrescentando que a região tem, por isso, “uma diversidade gigante em termos acústicos”. Desde a apanha do medronho, à destila, passando pela extração da cortiça, há inúmeros saberes e processos na serra que chamam por uma gravação sonora.

“É um dos sonhos aqui da associação”, refere Carlos. Tal como ter uma sede física, em Monchique, é um outro grande sonho. Já fizeram o pedido à Câmara Municipal, mas ainda está pendente. O que é uma pena, salienta o artista, pois têm “imenso material de som e imagem” para guardar e, acima de tudo, isto impede-os de organizar exposições, residências artísticas e outros eventos em Monchique, quando foi precisamente com este objetivo de trazer mais cultura que mudaram a sua sede, em 2020, de Lagos para a serra.

A existência de um espaço deste género em Monchique, que conseguiria chamar artistas e assim fazer mexer a vila, adquire ainda maior importância considerando que “não há nenhuma sala com palco em que se possa apresentar alguma coisa aqui”, relembra Carlos. “Esta é, sem dúvida, a maior lacuna que existe culturalmente em Monchique”.

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