Que memórias tem guardadas do ano de 1985?

Em 1985…

Os elementos da redacção do Jornal de Monchique tiveram a ideia de me perguntar que memórias eu tenho do ano de 1985. Isto veio a propósito da comemoração dos trinta anos de publicação (quase) ininterrupta deste jornal e no âmbito de reflexões e testemunhos que necessariamente irão surgindo nestes tempos presentes por parte de quem sinta que alguma coisa realmente se alterou nestas três décadas.
Achei uma óptima ideia esta. Difícil, no entanto, para mim que a côr acinzentada da minha existência não tem assim muitos pontos brilhantes, com uma ou outra feliz excepção.
De 1985 lembro que pessoalmente cumpria a rotina pacata de um habitante de Monchique, morador fora da vila, que embora jovem não me envolvia em grandes aventuras. Já possuía automóvel, tinha uma percepção razoável do mundo e recordo que vibrei alguma coisa com a subida ao poder de Gorbatchov na então União Soviética. Perestroika e Glasnost foram dois termos que comecei a identificar com alguma familiaridade e interesse. Lembro-me de ter comprado a encíclica papal de Paulo VI, Populorum Progressio, escrita já em 1967 mas que me impressionava pela percepção dos problemas que a humanidade sentia e sem soluções rápidas à vista.
Esta minha relação com o mundo tinha também a ver com a minha qualidade de co-fundador da Associação O Monchiqueiro, em 1984 e que pretendia ser uma espevitadela no ambiente cultural serrano. As conversas, as reflexões, o estreitar de relações e conhecimentos pelo pessoal da minha geração, neste Grupo de Dinamização Culturalajudaram e muito na formação da minha personalidade e individualidade.
Nesta altura estava muito intensa a campanha de adesão de Portugal à então CEE, hoje União Europeia. O contrato foi assinado a meio do ano e a entrada efectiva fez-se em janeiro de 1986. O movimento associativo estava pujante mas reflexivo. Lembro-me de encontros interassociações, sempre com alguma carga interventiva, com grupos de discussão formados por gente que vieram a fundar e a integrar grupos, movimentos e partidos como o Bloco de Esquerda por exemplo, com pessoas que hoje são professores universitários, com tipos que assumem a sua cidadania nas autarquias, indivíduos que são gestores do mundo empresarial, técnicos altamente especializados, felizmente tudo sem radicalismos nem extremismos e do melhor que Monchique e o Algarve têm tido.
Foi neste contexto que surgiu em 1985 a ideia de fundar um jornal em Monchique. Discutiu-se, projectou-se, entusiasmámo-nos todos e por questões práticas de ser fácil encontrarem-me, disponível na vila de dia e próximo à noite para trabalhar, fazer assinaturas, ser de alguma natureza anticonflituosa, usar de persistência quando acredito na causa, tudo isso fez de mim o director de jornal mais jovem da região.
Hoje, trinta anos depois, o amadurecimento de algumas partes de mim permitem estas memórias. Outras perderam-se e outras nunca hão-de atingir o ponto perfeito para se tornarem úteis. Contudo, o sentimento de paternidade que me atinge hoje comecei a senti-lo efectivamente em 1985 na geração, gestação e nascimento do Jornal de Monchique.
Resumindo, 1985 foi um ano de boa colheita. José Gonçalo Nobre Duarte da Silva

 

A intercalar com a profissão de farmacêutico, estava numa batalha, de um novo combate. Com prazer e de livre vontade, voluntariamente. Eu, que tinha estado numa guerra obrigado. E no fim da qual, com o bichinho do associativismo e pelos princípios da justiça, me tinha empenhado na luta pelos direitos dos deficientes que ela originara e das viúvas e órfãos que produzira.
Em 1985, decorrida uma década da liberdade que as Forças Armadas nos entregaram, com o país em plena e sôfrega transformação social, estava, com um grupo de amigos, no princípio de uma batalha pela dinamização da terra a que regressara e de onde estava a nascer o Jornal de Monchique: uma vitória agora confirmada pelos seus 30 anos de publicação, graças à camaradagem e empenho dos que o fazem e ao apoio e carinho recebidos da comunidade. José M. Silva Furtado

 

Numa localidade onde o único veículo de cultura era a Biblioteca, na qual eu trabalhava, o que mais me marcou no ano de 1985, foi a criação do um grupo constituído por jovens que se interessava, finalmente, pelo desenvolvimento da cultura na sua terra, originando, assim o Jornal de Monchique. António da Silva Carriço

 

Em 1985, no ano longínquo de 1985, mais precisamente em mil novecentos e oitenta e cinco, estava eu no início do meu tirocínio de rábula encartado, em Lisboa, uma das melhores cidades para se estar, porque só lá estando se pode saborear o prazer de de lá sair. Longe, muito longe, estava eu de imaginar, que longe muito longe, em Monchique, um grupo de fedelhos conspirava na urdição de um panfleto, que depois me acolheria, no regresso, e onde formaríamos uma espécie de família anaparental, teimosa, impertinente e contumaz, que manteria sem meios, sem acontecimentos e sem apoios o gentil pasquim, que tanto trabalho, discussão e alegria nos tem dado a nós, jovens fedelhos, com uma juventude atestada por trinta anos de irreverência e comodismo à mistura. Não se sabe onde estaremos daqui a trinta anos, porque são muitos esses, a somar aos que já temos, mas confiamos plenamente que um ano destes, outro grupo de imberbes nos ponha um cobertor pelos joelhos, uma botija de água junto aos pés e tome ao peito a tarefa de continuar a dar teta à criança. Paulo Alexandre Duarte Rosa

 

Nota de redação: A partir deste número e até à edição de 20 de dezembro, data do 30.º aniversário do Jornal de Monchique, vão ser publicadas as memórias do ano de 1985, começando pelo diretor e sub-diretores, passando pelos colaboradores e atuais líderes concelhios e terminando nos fundadores. Para além disso, serão publicadas em cada edição dez efemérides relativas ao ano de 1985.

 

(O artigo segue as normas anteriores ao atual Acordo Ortográfico)