Que memórias tem guardadas do ano de 1985? – COLABORADORES

O sonho desfeito
Na qualidade de cidadão encoberto pelo heterónimo Fernando Pronto Come, fui convidado a produzir um pequeno texto que se enquadre nas comemorações do 30º aniversário do Jornal de Monchique, a decorrer até ao final do ano.
Senti imensa dificuldade em escrever um texto que encaixasse no espaço que nos é atribuído e já desesperava quando fui salvo por um sonho que me assaltou o sono da noite passada.
No sonho, estávamos em meados de Dezembro de 1985 e eu fora incumbido de redigir as notícias de necrologia dado não possuir curriculum jornalístico para mais altos voos. Em vez de indagar sobre óbitos ocorridos no Concelho, socorri-me de uma notícia que acompanhara na televisão e despejei: “No passado dia 6, assinalaram-se os 800 anos da morte de D. Afonso Henriques. Lamentavelmente, a Câmara Municipal de Monchique não mandou rezar missa pela alma do nosso primeiro rei…” o director do jornal apareceu e o meu sonho de jornalista morreu ali. Fernando Pinto Carreira

 

Este foi o ano em que me iniciei nas viagens pelo mundo (para Itália e a partir de Roma) que duram até hoje e deram origem ao meu primeiro livro.
A sede de liberdade, a busca de crescimento através de conhecimentos em novas culturas, novas pessoas, é o início do meu grande processo de transformação como adulta e é a grande memória de 1985. Como se escreve felicidade? Viagens, naturalmente. Anabela Ferreira

 

A Nave é uma povoação, inserida no meio rural do concelho de Monchique situada a 3 km da Vila.
Sentindo a falta de um espaço onde as pessoas pudessem conviver, sem ter de subir a vila, um grupo de jovens, criou o Clube Desportivo e Cultural da Nave, sendo fundado a 11/03/1978.
O clube situava-se junto à estada principal para Marmelete e era frequentado pela população que residia na zona, que trabalhava na agricultura e na pedreira, e que se juntava ao fim do dia para jogar às cartas, ao jogo do burro e do palito, ver os jogos do Benfica e outros. Inspirados nos momentos áureos desse clube, criaram um campo de futebol no sitio do Rincovo, onde se juntavam aos sábados à tarde. Os bailes do Clube eram também muito frequentados quer pelos locais como por pessoas vindas dos locais limítrofes. Em 1985 o Clube era gerido por uma comissão administrativa, não exercendo nenhuma atividade, sendo reativado em pleno anos mais tarde.
A Direção aproveita a oportunidade, para endereçar os parabéns ao Jornal de Monchique, pelos seus trinta anos de publicações ininterruptas e pelo excelente trabalho de divulgação e informação. CDC Nave

 

Ano fértil em acontecimentos que, para o bem ou para o mal, marcaram de forma indelével a Humanidade, 1985 deixou na memória das gentes que o viveram a lembrança dos mais díspares sentimentos. Desde momentos de emotiva solidariedade mundial, com a canção “We Are The World” e o concerto “Live Aid”, dos Queen, a outros de inexplicável insanidade colectiva (quem esqueceu as cenas de horror protagonizadas pelos hooligans britânicos no Heysel Park de Bruxelas e os 41 mortos que provocaram?), passando pelo terror gratuito e pela maldade sem fronteiras (o bárbaro afundamento do navio da Greenpeace “Rainbow Warrior”, que vitimou o fotógrafo português Fernando Pereira, e o assalto ao paquete “Achille Lauro”), ou ainda pelo desaparecimento de figuras gradas da cultura universal, tais os pintores Marc Chagall e Arpad Szenés, a actriz Simone Signoret ou o escritor José Gomes Ferreira, aquele ano que, há trinta anos atrás, viu nascer este bonito projecto de jornalismo regional chamado “Jornal de Monchique”, a par de um outro, de índole musical, que se chamou “Guns and Roses”, proporcionou-nos, também, motivos marcantes de satisfação e regozijo nas mais variadas áreas do, como diria Luís de Camões, “engenho e arte”: o cinema realizou “África Minha”, “A Cor Púrpura” ou “A Testemunha” e Gabriel Garcia Marquez  presenteou-nos  com “O Amor em Tempo de Cólera”. 1985 – Ano Vintage? Decerto que não (apesar dos excelentes vinhos que por cá se produziram nesse ano). Mas foi um ano, permitam-me que o diga assim, encorpado, que valeu a pena ser vivido pelo que de bom encerrou. Fernão de Quintanilha

 

Em 1985 tinha 13 anos e terminado o ano letivo de 1984/85 nos pavilhões do ciclo preparatório localizados no antigo largo da feira junto ao mirante, preparávamos para estrear a nova escola C+S de Monchique no ano letivo seguinte. Ainda estivemos durante o 1.º periodo no antigo ciclo mas fomos transferidos para a nova escola C+S no início do 2.º periodo, em Janeiro de 1986. Curiosamente, eu e mais um grupo de amigos fomos fotografados no primeiro dia na nova escola pelo meu amigo João Vila, e salvo erro fomos capa no Jornal de Monchique desse mesmo mês.
Lembrou-me também que foi o ano da assinatura do tratado de adesão à CEE, da 1.ª eleição de Cavaco Silva como primeiro ministro de Portugal, da inauguração do 3.º anel no antigo estádio da Luz, do início das cimeiras entre Ronald Reagan e Gorbatchev para pôr fim à guerra fria e da tragédia no estádio Heysel em Bruxelas durante a final da taça dos campeões europeus entre o Liverpool e a Juventus que afastou os clubes ingleses das competições europeias de futebol durante vários anos. Humberto Sério

 

A grande vantagem da imaginação é a de poder ser moldada de acordo com a nossa vontade. É a liberdade que temos para mudar uma palavra, uma palavra só que seja, que faz com que as historias que contamos não sejam as mesmas que ouvimos e ganhem aparências tão diferentes daquilo que realmente aconteceu. O que inventamos não é aquilo que ouvimos, não é o que contaram a quem nos disse, não é a evidência dos acontecimentos, é a reconstrução permanente daquilo em que acreditamos nas coordenadas desligadas do tempo. Fazemo-lo de modo tão descomprometido, complicamos de tal modo os factos, tanto misturamos sofismas e falácias, que o que realmente aconteceu se torna por vezes irreconhecível ou difícil de identificar.
“Era uma vez um dia de sol em Monchique.” Abro o coração e a cabeça, como se faz a uma gaveta antiga. Não encontro mais nada a não ser esta ideia primaveril a fazer a vida ficar rodeada de voos de pássaros. E, contudo, podia ser esta a minha única recordação de 1985. Eu não havia vivido mais que três anos. Nessa altura, o passado e o futuro tinham simetria, eram dois espaços em branco. Mesmo que a imagem isolada de um dia de sol em Monchique fosse apenas uma pobre história, um produto maninho da imaginação, não deixaria de ser um esforço, uma intenção de vencer as duas grandes limitações que se oferecem inteiras à humanidade desde que o Homem é Homem: o tempo e o espaço.
Precisamos de histórias para afirmar a nossa identidade, assim como é o dom da linguagem que nos permite colocar a memória em cursivo. Nesse ano de 1985, a passagem de um Monchique falado para um Monchique escrito foi a grande mudança de paradigma cultural local que quero recordar, mesmo que não a encontre nos arquivos pessoais do passado. Vendo bem, nem é preciso encontrar. Um povo que aprendeu a escrever-se recriando a eternidade em histórias efêmeras, jamais será capaz de esquecer a importância de se lembrar. Eduardo Duarte

 

Era por esta altura um rapazinho de sete anos entre a primeira e a segunda classe. Eu e os meus colegas de turma conversávamos sobre as viagens e os destinos que a nossa professora da primária, a D. Cidália, visitava nos encontros de Citroen dois cavalos e que ia além-fronteiras. Assim ouvi falar pela primeira vez de terras e lugares que até então simplesmente não sabia que existiam.
Terá sido com esta idade que devo ter ido nas minhas primeiras excursões organizadas pela D. Fernanda, na companhia da minha avó, que costumava levar sempre um dos seus netos. Recordo-me de visitar Évora e de ir mais do que uma vez a Fátima. Luís Baiona

 

Eu sei que o Jornal de Monchique nasceu em 1985, mas só uns anos depois me veio dar às mãos. Nessa altura vivia em Lisboa e punha as mãos em outras coisas. Sabem como é. Com a liberdade que o 25 de Abril tinha trazido, as coisas tornavam-se mais fáceis. Dizia-se que na Suécia é que era bom, não havia os preconceitos que aqui nos refreavam. A liberdade também tinha chegado aos costumes. Por causa do meu apelido até os meus amigos me gozavam, que comigo era no Chão e em qualquer lado. Pudera, não havia dinheiro para motéis, nem carro tinha. Os mais próximos não me tratavam por Manel nem por Manuel. Chamavam-me ó machão. Por isso é que passei a assinar M. A. Chão.
Se agora, passados 30 anos, fizer uma Reflexão, vejo que a vida é diferente: tenho dinheiro que dá para pagar hotéis, tenho carro, mas o motor de arranque… M. A. Chão

 

Autobiografia de JAS
Nasci já crescidinho, quezilento e desbocado, em Dezembro de 1987. Naquela altura, em que a Internet fazia parte ainda da ficção científica, havia dificuldade em ocupar as páginas do jornal e quando se esgotavam os anúncios, os óbitos, as fotos antigas e os artigos plagiados de outros jornais, o conselho redactorial, que nunca teve grande respeito pelos leitores, entendia, por vezes, preencher o espaço sobrante com um dos meus arrazoados. Nunca li nenhum e espero que os leitores tenham seguido o meu prudente exemplo. Afeiçoou-se por essa altura a mim uma gaiata atrevidota que dava pelo nome de Maria do Pseudónimo. Para mim, Bia, ou até Biazinha, tudo dependia dos meus azeites e de a Terra nos estar a ser paralela ou simplesmente perpendicular. Passamos bons momentos juntos, é verdade, embora me fique mal revelar mais pormenores para ela não ficar mal. Só que a cabrona entrou por essa via das modernices que agora por aí há e acho que acabou por fazer um enxerto, não dos de estaca como eu lhe fazia e que pegavam que era um consolo, mas dos de olho dormente que pegam ou não, e só quando a Primavera decide. Enfim, transsexualizou-se e deu em “macho”. E até no feitio: transgenerou-se e deu em homem. Uma vergonha. Colheu as gamboas que tão saborosa marmelada faziam e em terreno perto e lavrado plantou verga de silicone gel. Rebaptizou-se com o nome de Manuel Chão e pôs-se a cantar serenatas à janela das meninas, rezando a Afrodite para que elas não o mandassem subir. É que só o que é biológico e natural é que é bom e funciona, como diz a minha prima a dias. De nada serve a essa minha ex-namorado tomar tisanas de priapismo. Não há cura para a doença do mal-murcho, como os plantadores de batata império bem sabem. E se gripou o motor de arranque, contente-se em pegar de empurrão e trabalhar de marcha atrás, que bem conhece o caminho. José Anónimo de Sousa

(Que tem pelo acordo ortográfico o mesmo respeito que o presidente da Assembleia da República tem pelo segredo de justiça.)