Por que é que Sherlock Holmes continua tão popular?

“As Memórias de Sherlock Holmes”, por Arthur Conan Doyle, Bertrand Editora, 2017, é uma obra que goza de uma popularidade imensa. Gozou sempre. Há algo neste detetive que cultivava a observação e a dedução, extravagante, cultíssimo, misantropo, cujos lazeres passavam pelo pugilismo e o violino que faz essa mágica da intemporalidade. Lê-se todas estas aventuras com imensa frescura, nem se pensa na Londres vitoriana, nem na poderosíssima Union Jack, a bandeira sulcava por todos os mares, imperial e rainha do comércio.

Reconheça-se em primeiro lugar a invulgaridade da escrita. Pegue-se na última história destas memórias de Sherlock Holmes, quando o autor entendeu que devia fazer desaparecer o herói, Conan Doyle fartara-se do sucesso do personagem, queria enveredar por outras incursões literárias. Fez mal, fora Sherlock Holmes tudo quanto escreveu é água chilra. Em termos narrativos, quem tudo conta é o amigo íntimo de Sherlock, o Dr. Watson, umas vezes casado outras vezes solteiro, sempre a dar companhia ao mais excêntrico detetive de todos os tempos. O início da história é sempre arrebatador: “É com o coração pesado que pego na pena para escrever estas últimas e poucas palavras com que registei os dotes singulares que sempre distinguiram o meu amigo Sherlock Holmes”. O detetive tem um inimigo mortal, o professor James Moriarty. O Dr. Watson estava no seu consultório quando Sherlock entrou e o seu aspeto era mais pálido e mais magro do que o habitual, andava a fugir a Moriarty, aqui vem um condimento arrebatador que é Watson perguntar o que fez Moriarty. Oiçamos a reposta de Sherlock: “É um homem de nascimento nobre e excelente educação, dotado, pela natureza, de uma fenomenal faculdade matemática. Aos 21 anos escreveu um tratado sobre a teoria binominal que alcançou fama na Europa. Conseguiu assim uma cadeira de Matemática numa das nossas universidades menores e tinha, com todas as probabilidades, uma brilhante carreira à sua frente. Mas o homem possuía também tendências hereditárias da mais diabólica espécie. Um fluido criminoso corria-lhe nas veias e os seus extraordinários poderes mentais, em vez de o modificarem, tornaram-no ainda mais perigoso”. Ora Sherlock é quem melhor conhece o mundo criminoso mais elevado de Londres, atirou-se à perseguição de Moriarty e da sua organização, correm agora um contra o outro. O leitor já não despega os olhos da trama narrativa. Moriarty visita Sherlock, vem propor-lhe uma trégua neste duelo, Sherlock recusa, fica alvo de atentados. Pede então ao seu amigo Watson para o acompanhar até ao Continente, Moriarty é infatigável vai perseguir Sherlock até às quedas do Reichenbach, na Suíça. Aí dá-se o combate, teriam morrido os dois nas águas redemoinhantes e de ferventes escumas. Os leitores já sabem que Conan Doyle foi obrigado a dar vida ao seu herói, um público entusiasta não se resignou com o fim das deduções magistrais do residente na Baker Street 220, no coração de Londres.

Mas o que tem Sherlock Holmes que não têm os outros detetives, qual o grão de fervor que provocam as tuas histórias que percorrem o mundo inteiro?

Satisfazemos alguma curiosidade sobre esse homem que leva uma vida bizarra. Na história titulada A Face Amarela escreve o autor: “Sherlock Holmes era um homem que só muito raramente só fazia exercícios apenas por amor ao exercício, mas poucos seriam capazes de maior esforço físico. Foi, sem dúvida alguma, um dos mais exímios pugilistas do seu peso que já conheci. Considerava, porém, o esforço físico sem objetivo como um desperdício e poucas vezes se entregava à atividade, exceto se havia um fim profissional a ser atingido. Então era infatigável”. Ou seja, podemos confiar que o herói não esmorece, a sua cultura é vastíssima, da arqueologia à química. Pouco fala da sua família, mas apresenta a Watson o seu irmão Mycroft, outro misógino. Sherlock Holmes personifica um triunfo de civilização: argúcia, conhecimentos, individualidade, vanguarda. Bem vistas as coisas, continua no ar do tempo, gostamos de heróis assim.

Já não vivemos na arquitetura do ferro, não andamos de carruagem nem em comboios a vapor, nem nos iluminamos com bicos de gás, mas a atmosfera criada por Conan Doyle é tão envolvente como se metesse nanotecnologia, viaturas elétricas, robótica ou mísseis nucleares. Acresce que todas essas histórias podem ter crime, mistério, aventura, mas decorrem sempre com final feliz, com práticas de boas maneiras. E há uma verdade maior que não se pode escamotear: Sherlock é o primeiro dos detetives one man show, é a polícia quem lhe solicita os serviços, bem como as famílias reais e representantes do poder, ele tem uma vastidão de conhecimentos que lhe permite estar sempre à frente de instituição policial.

Fica tudo dito? De modo algum. O facto de podermos ler regularmente estas histórias e repegar nelas com a maior das satisfações tem a ver com a admiração que rendemos àquele olhar perspicaz que me o cliente que lhe entra portas a dentro e decifra o pó das botas, as manchas das mãos, a proveniência da madeira da bengala. O que hoje podia parecer caricato é uma eterna carta de nobreza para os dotes da observação e dedução que nos deixam regalados porque gostamos convictamente dessa inteligência, daquelas andanças e nos rendemos à vida extravagante deste paladino da justiça. Há em Sherlock Holmes uma dimensão que nós não desdenharíamos de possuir em doses razoáveis. Lendo estes contos, recreamo-nos e louvamos o extraordinário que gostaríamos de ter em mãos.

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