O património cultural e a importância da sua salvaguarda para a consolidação da memória coletiva (II)

PATRIMÓNIO, MEMÓRIA E IDENTIDADE
Quando falamos em património cultural referimo-nos ao conjunto de bens imóveis (monumentos, conjuntos e sítios), móveis (peças artísticas, etnográficas, cientificas, arqueológicas, fotográficas, arquivísticas, entre outras) e intangíveis (tradições e expressões orais, práticas sociais, rituais e eventos festivos), que nos foram deixados ao longo do tempo como testemunho da civilização, os quais, pelo valioso interesse cultural que possuem, devem ser objeto de especial proteção e valorização, como forma de garantir o usufruto dos mesmos às gerações futuras.

O património cultural assume um papel preponderante na identidade dos indivíduos e das comunidades, a qual nos é garantida através da memória. A nível individual, todos nós temos consciência histórica, isto é, memória; e reconhecemos que aquilo que somos hoje, devemos ao nosso passado, às gerações que nos transmitiram e àqueles de quem herdámos o mundo em que atualmente vivemos.

António Rosa Mendes explica que «na sociedade, as funções da memória no indivíduo são desempenhadas pelo património cultural», pois é ele «quem gera e fomenta uma solidariedade orgânica entre os membros do corpo social, uma coesão ou convergência mental traduzida no sentimento de pertença a uma mesma comunidade». Para o mesmo autor, o património cultural funciona como «núcleo da identidade coletiva e não só possibilita que nos reconheçamos mas também que sejamos reconhecidos; é ele que, contrastada e caracterizadamente, diferencia e distingue dos demais a fisionomia física e moral de um lugar, uma cidade, uma região, um país – que sem ele ficam desprovidos de individualidade e autónoma personalidade, deixando de ser o que (já não) são».

A palavra monumento vem do latim – monumentum – a qual, por sua vez, deriva de monere, cujo significado nos remete para recordar/advertir. Tal como Françoise Choay refere na sua Alegoria do Património, um monumento consiste em «qualquer artefacto edificado por uma comunidade de indivíduos para se recordarem, ou fazer recordar a outras gerações pessoas, acontecimentos, sacrifícios, ritos ou crenças» e assim manter viva na memória das pessoas, aquilo que o referido monumento testemunha. Com a cada vez maior vastidão e omnipresença do património, a necessidade de erguer monumentos para recordar fatores da vida humana já não é tão grande, sendo que nos últimos anos a preocupação em estudar, preservar e exibir algo que tenha sido significativo para uma pessoa, família ou comunidade, já aparece patenteada de outras formas, mas sempre como fio condutor da memória.

Cada vez mais os museus se têm vindo a afirmar como excelentes meios de transmissão cultural e, por conseguinte, estruturam-se como uma forma de preservar a identidade local ao mesmo tempo que perpetuam uma sociedade da qual fazem parte objetos, lendas, usos e costumes, entre outros. Estes espaços assumem cada vez maior importância nos meios rurais, pois não só permitem à população descobrir os aspectos da sua história e identidade regional, como também, geram políticas e estratégias de desenvolvimento, constituindo um valioso agente dinâmico ao serviço da comunidade. O turismo cultural assume-se também como um importante alicerce para a consolidação do património, visto que a articulação entre estas duas áreas permite explorar diferentes temáticas que, fomentadas em grande parte pelos museus, gera, para além da criação de emprego, também a venda de produtos locais e outros relacionados com o respetivo património, o aumento da atividade dos operadores turísticos e a dinamização de estabelecimentos do âmbito da restauração.

O concelho de Monchique possui um riquíssimo conjunto de bens culturais, desde o património arquitectónico, onde estão inseridas as construções religiosas (Igreja Matriz, Misericórdia, Convento de N. S. do Desterro, Ermidas), mas também as casas típicas caiadas de branco e as tão características chaminés de saia; o património arqueológico que ainda guarda os vestígios da passagem e ocupação de várias civilizações, ao longo do tempo. Também o património industrial, onde ainda hoje encontrámos as fábricas, os moinhos, os pisões os lagares de azeite, faz parte da realidade monchiquense e reflecte-se no trabalho de muitos homens, mulheres e famílias inteiras, que muito contribuiu para a manutenção da identidade desta região. Não podemos esquecer o património imaterial, que compreende as tradições, os usos e costumes e todo o “saber fazer” de técnicas associadas à tecelagem, aos trabalhos em vime e verga ou às cadeiras de tesoura, que foram passando de geração em geração, mas hoje correm o risco de se perder. Monchique é também sinónimo de património natural, uma vez que é abundante a diversidade de espécies (fauna e flora) existentes por toda a serra, assim como de ribeiras e fontes de água que, desde os tempos mais longínquos, contribuíram para a valorização desta localidade.

Torna-se cada vez mais imperioso salvaguardar este património cultural que é símbolo da nossa identidade e nos identifica enquanto habitantes de Monchique. A par de outras localidades do interior, também a nossa vila sofre com a desertificação face aos centros urbanos do litoral que oferecem mais e melhores oportunidades, perdendo-se a identidade, a memória e as raízes culturais que marcam esta vila. A principal necessidade prende-se com a recuperação de muitos desses valores e, sobretudo, a de transmitir às gerações futuras a importância de valorizar uma região rica em história e tradição.r

Bibliografia:
CHOAY, Françoise, “A Alegoria do Património”, Edições 70, Lisboa, 2006;
GASCON, José António Guerreiro, “Subsídios para a Monografia de Monchique”, 2.ª edição, Algarve em foco editora, Vila Real de Santo António, 1993;
HERNÁNDEZ, Josep Ballart, TRESSERRAS, Jordi Juan i, “Gestión del patrimonio cultural”, Ariel, Barcelona, 2001;
MENDES, António Rosa, “O que é Património Cultural”, 1.ª edição, Gente Singular, Olhão, 2012;
MENDES, José Amado, “Estudos do Património: Museus e Educação”, 2.ª edição, Coordenação Científica da coleção Estudos: Humanidades, Imprensa da Universidade de Coimbra, Coimbra, 2013.

*Técnica Superior de Património

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