“Monchique é a terra mais incrível que pode haver”

Localizado na vertente sul da Picota, o Karuna Retreat Center (centro de retiros) é um espaço que se mistura com a paisagem. O início do centro perde-se no “tempo físico”, foi destruído pelo incêndio de 2018, mas foi reconstruído através de uma “espécie de milagre”. Hoje, recebe pessoas de todas as tradições, apesar da inspiração do budismo tibetano estar presente no local, pois o que oferece é “a possibilidade da pessoa se confrontar com o seu espaço interno”.

O Jornal de Monchique esteve à conversa com Ana Ferraz que está no Karuna desde o seu início e que admite que quem procura o local vem “em busca de se encontrar”, em busca de uma felicidade que tem de ter como base “pureza, luz e amor”.

Jornal de Monchique – O que é o Karuna Retreat Center?

Ana Ferraz – Karuna é bastante vasto, não se pode definir com poucas palavras. Karuna significa “compaixão”, no sentido de amor incondicional, algo que se reflete bastante na maneira como nós recebemos todo o tipo de pessoas, independentemente do que professam. Isso é a característica principal da Karuna, isto é, alguém que precise fazer um trabalho interior pode fazê-lo, independentemente da religião, da filosofia, da raça. Todos são bem-vindos. Karuna define-se pela equidade em relação aos seres, até aos animais. Aqui temos um lema que é “não matamos nenhum animal”. Claro que não vamos impor às pessoas “não matem os mosquitos”, mas preservamos a vida. Também somos vegetarianos e tudo anda em torno de uma filosofia de respeito, tolerância e aceitação por todos os seres neste espaço.

JM – Qual a razão e quando é que foi construído?

AF – O meu esposo fez um retiro de três anos e meio com os mestres tibetanos, isolado, num centro de retiros. Eu fiquei aqui com as nossas filhas durante uns anos enquanto isso sucedeu e, quando ele saiu, sentiu necessidade de trazer para a comunidade um espaço que permitisse às pessoas olharem para o seu interior, como ele teve oportunidade de fazer. Eu não sei dizer há quantos anos foi, nem consigo falar em termos de tempo físico. Digamos que tenho um tempo emocional em relação a isso e aconteceu quando a nossa última filha nasceu. Ela agora está com trinta anos. Nessa altura, começou como uma ruína, num sítio onde não chegavam carros. Tudo foi um processo bastante trabalhoso, dedicado e longo para se chegar ao ponto em que se definiu por si, porque não havia uma ideia clara do que é que íamos fazer.

JM – O centro foi atingido pelo incêndio de 2018. Como é que foi lidar com esse acontecimento? Quanto tempo demorou o processo de reconstrução?

AF – O maior impacto que eu tive quando cheguei cá, no 5 de agosto de 2018, foi ver um oceano de telhas no lugar do templo e, no sítio onde estava o Buda, estava apenas um espaço vazio. Foi das cenas mais inacreditáveis que já vi, que mais claramente simbolizou a impermanência das coisas. O Buda que temos agora veio do Nepal e é de metal, poderá ficar retorcido com outro fogo, mas não ficará queimado.
A reconstrução foi uma espécie de milagre, porque foi tudo destruído e foi tudo erguido de novo e, se me perguntar como, eu diria que foi devido ao amor incondicional que muitos amigos têm em relação a este sítio e que os trouxe aqui para ajudar. Vieram de todos os lados, ajudaram de todas as maneiras e isto foi reerguido. Passados um ano e meio estava metade e, ao fim de dois anos, estava inteiro, e eu não sei como. Sei que trabalhei muito, mas fora esse trabalho, foi um milagre.

JM – Tiveram algum apoio?

AF – O nosso apoio foi a solidariedade amorosa dos seres humanos, foi um apoio invisível.

JM – Quais são as experiências que o Karuna providencia aos seus visitantes?

AF – Nós não oferecemos experiências. As pessoas é que têm a possibilidade e as circunstâncias de terem as suas próprias experiências. É isso que define Karuna. Aqui não há um guru, não há alguém que esteja a oferecer um pacote de qualquer coisa. Às vezes é preciso desmistificar essa coisa que todos temos do consumo, pois aqui não se consomem coisas. Nós dispomos de um espaço onde as pessoas podem olhar para o seu interior, mas não vamos oferecer distração alguma nem qualquer coisa que a pessoa não esteja a precisar. Não temos um horário ou atividades pré-definidas. Contudo, se alguém pedir porque está a precisar, claro que sim. Não há pacotes, apenas a possibilidade da pessoa se confrontar com o seu espaço interno que, normalmente, é ocupado com muitas coisas. Como é que lidamos com o vazio, com o “não fazer nada, apenas estar”? O estar é difícil. A maior parte das pessoas tem muita dificuldade nisso, precisa de estar em ação, de produzir qualquer coisa. Aqui é exatamente o oposto. Por vezes, precisamos de dar um suporte, de perguntar o que é que não vai bem, dar algum carinho e de compreender que não é fácil. Mas é tudo o que podemos fazer, porque cada um tem de lidar com as suas coisas, as suas experiências, nós não podemos fazer o trabalho por ninguém, apenas criar circunstâncias para que cada um faça o seu trabalho.

JM – Na visão que o Karuna Retreat Center oferece, as atividades fornecidas como aquelas que mencionou vão ao encontro daquilo que o retiro tem como formas de “se viver integrado com os aspetos mais essenciais da vida”. A seu ver, que aspetos são esses?

AF – Todos nós, desde que temos uma noção do interior e do exterior, desde que começamos a reconhecer a mãe e o pai, o que é que nos é ensinado normalmente? Isto é bom, isto é mau, tens que vencer na vida, tens que ser um bom profissional, tens de ser o melhor, tens que ter boas notas, tens que ser uma boa pessoa, mas tens que te defender, tens que ter uma casa… há uma série de valores que nos são incutidos, então nós estamos habituados a olhar sempre para o exterior, para como havemos de conseguir isso e ter sucesso na vida. Muitas vezes, nós esquecemo-nos daquilo que é mais profundo em nós porque estamos sempre ligados ao exterior. Esse sucesso faz-nos esquecer completamente das questões “quem sou eu?”, “o que é que eu quero?”, “donde é que eu venho?”, “o que é que eu estou aqui a fazer?”, “qual é a minha verdade mais profunda?”. E, muitas vezes, nós chegamos a um ponto em que nos damos conta que não estamos felizes e todos queremos ser felizes.
A não ser que tenhamos conseguido qualquer coisa ligada a esse sucesso e alcancemos algum tipo de felicidade temporária, no entanto, basta haver um obstáculo ou que nós não consigamos aquilo que queremos e ficamos outra vez infelizes. Ou seja, essa alternância não é propriamente felicidade, porque nós não nos conhecemos, tanto estamos numa coisa como na outra, não temos um contacto profundo com o nosso interior, e, muitas vezes, quando nos apercebemos que estamos infelizes, buscamos o parar, a necessidade de mudar qualquer coisa. Aí, é essencial sairmos da nossa zona de conforto e ficarmos num espaço onde tudo é novo para podermos ver o interior e não depender sempre do exterior. Dependemos dos bens que temos, das pessoas que nos amam, de todos esse ingredientes e, depois, não nos conhecemos. Quando nos falha isso, onde é que nós estamos? É como se ficássemos sem o tapete debaixo dos pés. Sabemos que há cada vez mais depressões, mais guerras, mais coisas estranhas, o que é uma falta de investigação, uma falta de nos conhecermos.
O Sr. Dalai Lama tem 26 conselhos e um deles é “pelo menos, uma vez por ano, vai a um sítio onde nunca tenhas estado”. O que ele pretende dizer é para sairmos da nossa zona de conforto, para enfrentarmos algo desconhecido, mesmo fisicamente, porque estar num sítio também permite que se visitem sítios novos aqui, no nosso ser, uma coisa está ligada à outra.

JM – Então o que é a felicidade?

AF – A felicidade está para além da dualidade do bom e do mau. Acho que a felicidade profunda não pode depender disso, daquilo que é relativo e do que é impermanente, qualquer coisa que é uma base de onde tudo isso sai. Essa base é comum a todas as religiões e a todas as tradições, que é de pureza, luz e amor. Daí saem todos os fenómenos que acontecem. Eu acho que a felicidade tem a ver com essa base, mas eu não estou sempre lá. Já a visitei, mas não fiquei. Conheci pessoas que estavam sempre nessa base, de amor, luz e felicidade, que é aquilo a que nós chamamos de “os mestres”, aqueles que já passaram por uma prática profunda e que chegaram ao ponto de encontrar a ausência do sofrimento e da dualidade. Contudo, eu ainda estou em construção.

JM – O que é que as pessoas que vêm cá procuram?

AF – Procuram paz, bem-estar, serem felizes. Quando as circunstâncias estão todas reunidas, eles encontram aqui algo e, quando vão embora daqui, dizem “abriu-me portas para ver as coisas de uma forma diferente”. Para nós, é uma alegria, poder ver como as pessoas às vezes chegam aqui desesperadas e, depois, saem daqui como outras pessoas. Vêm todos em busca do mesmo, de se encontrarem a eles próprios. As respostas encontram-se no silêncio. A questão aqui é silenciar a nossa mente. Estamos sempre com um ruído mental, com imagens a serem projetadas, às vezes damos-lhes som e ficam só na nossa mente a circular. Aqui, o que importa é utilizar seja o que for para poder silenciar a mente, para que ela possa chegar à base. Qualquer caminho é válido desde que funcione para nós, seja através dos mantras, com as inspirações e as expirações. Tudo isso são métodos, técnicas para poder acalmar a mente e poder chegar à essência do nosso ser. Todos diferentes, mas todos válidos, e cada um tem de descobrir o seu. A concentração da mente num só ponto, essa é a base da meditação. O foco pode ser uma vela, uma flor, uma divindade ou mesmo a respiração, para que a mente fique só nesse ponto.

JM – Já tiveram alguma visita de alguma personalidade importante?

AF – Sim, havia um mestre, que era um dos mestres de Dalai Lama, que visitou Karuna, há muitos anos, e que gostou muito de estar aqui. Depois da sua primeira visita, disse uma coisa muito bonita, que foi: “Só me senti muito triste duas vezes na minha vida. Uma foi quando deixei o Tibete e a outra foi quando deixei a Karuna”. Este centro fazia-lhe lembrar o Tibete por causa desta imensidão, deste espaço todo, e nós construímos-lhe uma cabaninha, que ardeu em 2018, para ele vir fazer os seus retiros. Claro que ele viajava pelo mundo todo, mas, quando vinha à Europa, passava sempre um bocadinho de tempo na sua “ermitagem”, como lhe chamava. Tê-lo aqui era uma honra para nós, embora numa cabaninha de madeira tão simples, mas os mestres são pessoas simples. Também recebemos a mãe dos Rinpoches [linhagem de mestres budistas], que era uma senhora, mas que também foi considerada um ser muito desperto e que viveu aqui uns meses. Posteriormente, também tivemos a presença de alguns mestres ligados aos budismos tibetano e zen. Após alguns anos, estes trouxeram cá esse grande mestre, sendo que o grupo comprou o terreno no Covão da Águia.

JM – Portanto, sempre existe um templo no Covão da Águia…

AF – Sim. Esse grupo de mestres está ligado especificamente ao budismo tibetano, não abrem para outras tradições. Ou seja, o que eles vão construir lá, que é um projeto do qual nós estamos um bocadinho afastados. Não emocionalmente, mas no aspeto de haver pessoas mais capazes do que nós que estão a cuidar de fazer ali o templo.

JM – Na sua opinião, o que é que Monchique tem de especial para albergar um local de retiro como este?

AF – Eu acho que Monchique é uma terra extraordinária, com uma água incrível. Posso-lhe repetir o mesmo mestre que eu mencionei anteriormente e que disse assim: “Aqui, todos os elementos estão perfeitos: a água, a terra, o ar, o clima, o calor”. Ele depois acrescentou: “Isso é 50%, os outros 50% são vocês que têm de fazer”. Eu, quando vem aqui um grupo, digo sempre que podem beber esta água de qualquer sítio, é pura. Uma maneira de agradecer ao universo é usar o que precisamos e não desperdiçar uma só gota, o que é algo que todos precisam de aprender. Aqui, o que temos é raro, então vamos cuidar, usem com consideração tudo isso. Acho que Monchique é a terra mais incrível que pode haver. Por exemplo, não há violência. Vejo a Foia, imagem masculina, virada a oeste, alta e bicuda, depois a Picota, que é redonda, termal, como uma mulher, como se fosse o Yin Yang. É perfeito! No entanto, temos o reverso da medalha, como os eucaliptos, que destroem tudo, e temos os senhores das madeiras a chupar até ao tutano a beleza desta terra. Quando vim para cá, era um paraíso. Agora, está a ficar desertificada graças à avidez humana.

JM – Considera que iniciativas como o Karuna podem influenciar uma comunidade como a de Monchique? De que forma?

AF – Invisivelmente. Onde há boa intenção, essa influencia sempre. Quando entra alguém nesta sala, super tenso, super violento, uma pessoa não se vai sentir bem. Por outro lado, se entra alguém com o coração aberto, uma pessoa sente. Assim sendo, um sítio de bem numa terra vai sempre provocar bem. Agora, que tipo de bem? Já não sei. Aqui, nada de mal se faz, não se trata mal ninguém, não se pensa mal, é harmonioso. O bem é como uma pedra que se coloca num lago, as ondinhas vão até à berma. Eu espero que isto seja bom para esta comunidade, eu sei que é, mas não sei até que ponto as pessoas reconhecem isso. Para elas, seria bom que elas sentissem que é um espaço onde podem vir. Um templo não é um sítio onde as pessoas têm forçosamente de se sentar de pernas cruzadas, fechar os olhos e fazer “OM”, mas sim um lugar onde elas vão para estar consigo mesmas. Ninguém lhes cobra nada por isso, podem beber água ou um chá e estar aqui, pode ser que quando saiam se sintam um pouco melhor.

JM – O que é que acha da vida quotidiana que muitos experienciam fora deste lugar?

AF – Nós vivemos numa época de muito stress, de pouco contacto com nós próprios, estamos desenraizados do nosso ser essencial e é difícil a vida das pessoas. Nós já estamos numa situação em que estamos muito formatados, tanto pelo ensino como pela economia, numa sociedade perfeitamente ligada ao materialismo. Somos obrigados a fazer coisas das quais não gostamos, muitas pessoas levam a vida a fazer coisas de que não gostam e, claro, que não lhes fazem bem. Quando não se gosta de fazer uma coisa, faz-se mal e isto é como aquilo que se diz, como a pedra que caia e bate na outra. Esse vai maltratar outro, que vai maltratar outro e assim por diante. Com isto, gera-se uma situação de sofrimento, de mal estar, uma sociedade que não funciona bem, que não causa bem estar nem alegria às pessoas, incluindo as crianças. Eu gostava que as crianças enquanto comunidade futura, viessem cá. Elas são os monchiquenses do futuro. Há que haver essa necessidade da parte dos professores de puderem, pelo menos, dar nem que seja um vislumbre das coisas, tirá-los do sistema e fazê-los sentir que há outras coisas que também têm que ser contempladas.

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