Meio rural em mudança (III): as oportunidades de investimento nas áreas da ecologia, paisagem e ambiente

Vimos em artigos anteriores sobre a temática das mudanças em curso no meio rural que a desertificação humana e a degradação dos sistemas agro-rurais colocam à reflexão um conjunto de novas oportunidades de investimento emergentes com vista à sua revitalização, sendo que, a maior partes destas já se afiguram no horizonte, desafiando novos empresários e empresas em fase de desenvolvimento (start-up’s) em áreas tão diversas como os sistemas alimentares locais assentes em mercados de proximidade, as denominações de origem protegida, os segmentos de nicho de mercado, os complexos turísticos assentes em campos de férias e aventura, o turismo de aldeia e da natureza, as marcas coletivas de produtos e os sistemas ou mosaicos agro-florestais, a que se acrescentam, neste artigo, outras oportunidades assinaladas por António Covas da Universidade do Algarve (1), cujo texto reproduzimos na íntegra, tal como nos anteriores:

Um “centro de ecologia funcional e arquitetura paisagística”
As áreas ardidas são um bom pretexto para esta iniciativa. Um centro de investigação na área da biodiversidade, da ecologia funcional e reabilitação de ecossistemas, um parque ou reserva natural, uma associação agroflorestal, empresas de turismo em espaço rural, empresas na área do termalismo, propõem-se criar um programa de investigação-ação-extensão tendo em vista a preservação da biodiversidade e dos endemismos locais, a melhoria da oferta de serviços ambientais e a valorização comercial destes ativos biodiversos por via do lançamento de serviços turísticos, culturais e científicos.

Um “programa de desenvolvimento de aldeias serranas e de montanha”
Um agrupamento de municípios conjuntamente com as associações de desenvolvimento local e os operadores empresariais respetivos propõem-se desenhar e lançar um programa de desenvolvimento comunitário de aldeias serranas e de montanha e um cabaz de produtos correspondente.

Um “parque biológico e ambiental”
Um agrupamento de municípios, um grupo termal, uma área de paisagem protegida, uma associação ambientalista ou de desenvolvimento local propõem-se criar uma espécie de “santuário, amenidade ou ecossistema exemplar” que seja um local de visitação e observação, mas, também, um laboratório de boas práticas agroecológicas e aprendizagem das técnicas de engenharia biofísica, ecologia da paisagem e reabilitação de habitats, economia da conservação, do baixo carbono e da energia renovável e a arquitetura funcional associada à bioconstrução e bioclimatização.

Um “Parque Agrícola Intermunicipal” com objetivos de reinserção social
No campo da ação social, um projeto intermunicipal, associativo ou comunitário e com base no voluntariado que junte, por exemplo, os Sindicatos, as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS), o Instituto de Emprego e Formação Profissional (IEFP), uma escola superior agrária, tendo em vista a reinserção social em sentido amplo, a formação profissional e a realização de contratos de “institutional food” para abastecimento de escolas, prisões, hospitais, quartéis, lares.

Uma “Quinta Pedagógica, Recreativa e Terapêutica”
No campo da ação pedagógica, recreativa e terapêutica, um projeto intermunicipal, associativo e comunitário, dirigido aos grupos mais vulneráveis da população com necessidades especiais, que junte as IPSS, os serviços hospitalares, a universidade, as ordens profissionais e os centros de investigação, tendo em vista a provisão de serviços médicos, pedagógicos, recreativos e terapêuticos, mas também ambientais, que são essenciais para o bem-estar e a qualidade de vida dos grupos mais sensíveis de população.

COMO ARTICULAR OS NOVOS INVESTIMENTOS ENTRE SI?

1. Um condomínio para a gestão de bens comuns
No campo da ação coletiva e da provisão de serviços comuns, para impedir o uso abusivo de recursos naturais que agravam as alterações climáticas e a utilização dos solos, podem ser desenhados várias estruturas associativas sob a forma de condomínio, seja para gerir um banco de terras, um espaço baldio, uma linha de água, um bosquete multifuncional, uma área de agricultura social, uma zona agroindustrial, um território cooperativo, um parque periurbano, tendo em vista a gestão de “bens comuns” em risco.

Em todos os casos referidos de território-rede, o propósito é sempre o mesmo: a valorização de recursos em risco e expectantes, a formação de uma nova cadeia de valor, uma ação coletiva inovadora, um ator-rede inteligente e uma comunidade de autogoverno eficaz. A smartificação do território pode ajudar, as instituições de ensino superior são fundamentais na formação das parcerias locais e dos atores-rede. Imagine-se o número de start-up inovadoras que podem ser criadas em redor de todos estes territórios-rede.

2. Estruturas de acolhimento e cidades distritais inteligentes
As estruturas de acolhimento como os espaços de coworking, os fablab, as incubadoras, os centros de investigação, as associações de desenvolvimento local, têm sido até agora os locais privilegiados para fazer nascer os novos empreendimentos.

No entanto, estas estruturas não têm correspondido às expectativas e há uma baixa efetividade destes instrumentos de intervenção no território que, julgamos, se deve à fraca intensidade-rede das economias de aglomeração locais do mundo rural.

O conceito de “cidade distrital inteligente” procura responder a essa “falha estrutural”. Quer dizer, precisamos de uma estrutura de autogoverno dotada com um mínimo de população, atribuições, competências e meios, que seja capaz de articular os poderes setoriais e intermunicipais com as expetativas das populações expressas através de recursos digitais e suscitar os efeitos de aglomeração e escala que o território mais necessita. A “cidade distrital inteligente” poderia ser o ator-rede indicado para esse efeito (ver PÚBLICO online, 7 de março).

Referências:
– António Covas é Professor Catedrático da Universidade do Algarve. O seu mais recente livro sobre estas matérias intitula-se “A grande transformação dos territórios”, editora Sílabo.
– “Vêm aí as start-up da 2.ª ruralidade” publicado no Jornal Público, 17.03.2018