Marta Valongo, psicóloga do Agrupamento de Escolas de Monchique: “os adultos/pais que convivem com as crianças são muito importantes para permitir autorregulação emocional”

No momento em que a pandemia de Covid-19 coloca, mediante indicação da Direção Geral da Saúde, muitos portugueses em casa, o Jornal de Monchique falou Marta Valongo*, psicóloga do Agrupamento de Escolas de Monchique que se dirige aos alunos, pais e encarregados de educação que estão em isolamento social e que vão completar o 3.º período em casa.

 

Jornal de Monchique – Que conselhos dá aos alunos de Monchique que estão em casa? O que devem fazer diariamente?
Marta Valongo – Em termos psicológicos, esta situação de isolamento, a falta de contacto com os amigos, com os colegas e com os professores poderá despoletar diferentes reações e sentimentos tais como ansiedade, maior irritabilidade, frustração e tédio. Pelo que é importante que mantenham as suas rotinas e horários, estipulando um horário semanal que inclua momentos de aprendizagem, como a realização de tarefas propostas pela escola e momentos para brincar e relaxar.

Este horário deve ser elaborado com a ajuda dos pais. Devem manter padrões regulares de sono, uma alimentação equilibrada e a prática de exercício físico. Esta organização permite que sintam uma maior sensação de segurança. No entanto, apesar da importância das rotinas, deve sempre existir bom senso por parte dos pais, pois o excesso de rotinas associado a um funcionamento rígido e inflexível pode anular estes benefícios.

 

JM – Se começarem a sentir-se stressados, desanimados, zangados ou tristes o que devem fazer, quem devem contactar?
MV – Penso que neste ponto é muito importante não esquecer que os adultos/pais que convivem com as crianças são muito importantes para permitir autorregulação emocional nas crianças. É crucial que disponibilizem informações apropriadas à faixa etária sobre a gravidade e o potencial risco de doença e instruções concretas sobre como evitar o covid-19. Deste modo, as crianças devem conversar com os adultos sobre os seus medos e o que irá reduzir a ansiedade.

De qualquer modo, os alunos devem manter o contacto com pessoas de quem gostam e e em quem confiam, sendo que esta é uma das melhores formas de reduzir a ansiedade, a solidão ou o aborrecimento durante o período de isolamento. Usem o telefone, o email, as mensagens e as redes sociais para permanecer em contacto com amigos e familiares.

 

JM – Estes sentimentos podem manifestar-se de forma diferente para cada idade?
MV – As crianças podem sentir-se tristes, ansiosas, com medo, confusas com a alteração das rotinas diárias e com saudades dos amigos. As crianças mais pequenas podem fazer mais “birras” e mostrar-se mais dependentes, voltar a usar chupeta, fazer xixi na cama, ficar mais irritáveis e terem maior dificuldade em adormecer.

 

JM – Como devem os pais lidar com este tipo de sentimentos/atitudes?
MV – Os pais devem compreender que esta situação poderá provocar ou acentuar alterações emocionais e comportamentais nos seus filhos. Por isso, os pais devem ser compreensivos, tolerantes, não deverão desvalorizar esse medo, ridicularizando ou dizendo que “isso não existe”. Mostrando que entendem como é ter medo de algo, para que a criança aprenda que não há problema em sentir medo, ajudando-a sentir-se segura no momento.

Os pais devem incentivar as crianças a verbalizarem o que sentem, recorrer a técnicas de relaxamento, evitar a exposição exagerada às notícias, manter algumas das rotinas, aproveitar para realizar atividades que dão prazer, são alguns dos exemplos de estratégias para lidar com esta fase tão angustiante.

 

Nota: O serviço de Psicologia do Agrupamento de Escolas de Monchique está disponível, através do email marta.valongo@aemonchique.pt. ou através do contacto com as educadoras, professores titulares, no caso do 1.º ciclo, e diretores de turma, no caso do 2º. e 3.º ciclo, para dar resposta a situações em que os pais/encarregados de educação vejam que as crianças/ alunos se estejam a sentir fragilizados e precisem de apoio perante a situação que estamos a viver.
* Psicóloga do Agrupamento de Escolas de Monchique e exerce no privado na clínica lar da Criança, em Portimão, como psicóloga e psicoterapeuta.

 

Veja aqui a entrevista a  Marina Carvalho, membro da Equipa de Saúde Mental Comunitária de Monchique da Unidade de Portimão do CHUA, que se dirige à população em geral que se encontra em isolamento social. 

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