Lisboa VI

O outro que escreve sou eu. Faço-o desta vez para justificar o medo, para consolo da minha loucura, para salvar a realidade com um pouco de ficção. Embora o que tenho para dizer agora é apenas o contrário disso, um relato sem ficção.

Foi assim: quando regressei de Angola, de alma mutilada e cheio de angústias, escondia-me das pessoas para não me verem a chorar a toda hora. É mais ou menos o que faço hoje, quando empurro as minhas gargalhadas pela rua como um carro que não quer pegar nas manhãs frias.
Sabia o que me esperava se voltasse para casa, para junta da minha irmã e da minha mãe. Além disso, a guerra acabara de matar os restos de memória que me mantinham preso a elas. Nem uma carta. Nem uma encomenda. Nada. Desprovido dos laços de terra onde se enterram as raízes, decidi reatar o contacto com a Clotilde. Tinha a intenção de lhe mostrar o meu coração adolescente, declarar-lhe o meu amor e propor-lhe casamento. Fracassei.

Ao entrar como uma corrente de ar inesperada no quarto da pensão onde nos costumávamos encontrar pelas madrugadas fora, lá estava ela. Mas o céu que a cobria era já outro. Era um peito masculino e musculado. Uma figura que a luz destapou e deixou a brilhar em torno dos olhos do Rau-Rau. Como é que ele a tinha encontrado? É fácil. A fotografia da Clotilde que eu lhe entregara não era mais do que um postal de publicidade à boate onde ela trabalhava. A morada estava bem desenhada a itálico, no rodapé. O resto, sobre o modo como a procurou, sobre as manhas que utilizou para a conquistar, outro que escreva ou deixem simplesmente que a imaginação vos abra os olhos como dolorosamente fez comigo.
Dormi uns dias na rua, desesperado. Mas não deixei de me aproximar à distância de Clotilde, dissimulado no inverno dos dias. Até que um antigo oficial a quem tinha salvo a vida antes de me recusar a combater me encontrou a dormir na arcada de um ministério. Compadeceu-se e levou-me para casa dele. Cheio de tempo, reaprendi a ler e a escrever. Iniciei um diário. Escrevi uma carta a Clotilde que ficou durante muito tempo remetida ao esquecimento. Dizia isto:

«Sou feio, Deus me perdoe. Nasci numa sexta-feira treze e talvez tenha sido concebido entre o pecado de um dia das bruxas. E, pronto, foi o que deu — que os astros me ignorem— um mau-olhado nos cromossomas. Um nariz em forma de batata-doce, dentes tortos como um piano avariado, um olhar que pica, cabeça destapada de cabelo logo na adolescência, joelhos metidos para dentro, uma ligeira corcunda de acordeonista, pelos até às unhas e um eczema crónico que me dá a aparência das malaguetas mais irritadiças.

É tudo o que te posso dizer sobre mim, mas há mais. Fiquemos apenas pelo que está descoberto, Deus me perdoe. Estou meio surdo. Mas não foram apenas as explosões. Ainda hoje conservo dentro dos tímpanos as vozes diversas que se começaram a desenhar logo na infância. Dizem que eu não sou nada, que não valho nada, que sou a prova material da legalização do aborto… Enfim, vozes que me não deixam ouvir a Deus, que é o que sentem os que ficaram com a água do batismo nos ouvidos e depois nunca mais puseram os pés na igreja.

É por isso que estou aqui, que te lavro esta missiva. Uma folha em branco ninguém vê, é como os pensamentos, são invisíveis, mas se a gente os derrama para o papel, então, sim, aí temos as fundações de uma escola. Foi o que aconteceu a Platão. Começou a escrever tudo o que pensava em papiros e hoje ainda temos bem presentes as pedras, o cimento, as telhas e as janelas para o universo nos exames de filosofia.

Mas dizia eu, Deus me perdoe, sou tão feio, Deus me livre que me encarasses a dizer-te isto, que o meu sucesso com as mulheres tem a taxa de êxito dos cães ansiosos por rebentar balões com a boca. Escrevo-te isto porque te vi a flutuar no interior de um vestido de seda azul celeste, hoje, na esplanada que dá para o mar. O azul fica-te bem. Li nos lábios de duas ou três pessoas que te acompanhavam numa água fresca a confirmação disto. Uma delas era o Rau-Rau. Dava-te a mão e contemplava-te.
— Qualquer peça de roupa, mas o azul fica-te a matar — dizia-te, a abrir na cara um sorriso sinceramente gentil.

Daí essa tua fixação pelo oceano, creio. É difícil reparar nas deformações das ondas quando estás perto do mar. Por isso é que, Deus me perdoe, hoje, depois de te ver, fui a correr para casa embrulhar-me em poesia até as nuvens negras na minha cabeça se dissiparem por completo. E garanto-te, palavra de honra, que ao fim de uns dias sem comer e sem beber, apenas alimentado de versos, estava bonito. Vestido de céu, ao pé de ti, até eu te ficava bem.»

(Continua)