Lisboa IX

Nessa noite, dormi no aconchego dos bancos que moldam os corpos dos sem-abrigo à brandura da humildade, perdão, da humidade, com licença. Acordei antes do sol. Esperei que o brilho dos olhos de um homem que costumava visitar a minha mãe em madrugadas passadas raiasse o seu caminho para que uma pequena mancha de esperança despertasse em mim.
– Morreu – disse-me – morreu de desgosto, dizia que os filhos a tinham abandonado. Chorava muito. Mais que a chuva. Tinha os olhos carregados de nortada. Todas as noites lhe rebolava um pranto nebuloso pela cara. É claro que as visitas deixaram de desejar a companhia dela. Ninguém gosta de se aconchegar no desgosto, faz criar bolor no coração. A tua mãe morreu no moinho por cima das casas mais velhas da vila, à espera que águas passadas movessem as mós de angústia que a trituravam por dentro. Lamento. Os meus sentimentos. E agora tenho de ir trabalhar.
– A minha irmã? – perguntei, sem lágrimas, oprimido – lei da gravidade.
-Veio para aí um aviador italiano, de cabelo aos canudos, como o dos judeus. Fugiu com ele – respondeu, de costas para mim e com os braços a remar a sua pressa, como se nadasse na vertical.
A minha irmã é assim. Prometem-lhe o céu e ela dá asas ao destino sem pensar nas consequências.
Antes que a visão da manhã desse aos outros transeuntes o desenho do homem acossado e cheio de culpa imitado pelas janelas das casas e pelas poças espelhadas, fui ter ao moinho, a última morada da minha mãe. O moinho tinha sido dado por um moleiro velho. Um homem ruim, por quem a minha mãe olhara. Cuidou dele sabe-se lá com que delicadezas e com que reparos, depois de a minha irmã fugir com o italiano, depois de a minha mãe deixar de ter a ajuda interesseira dos homens que a visitavam na casa onde cresci.
Foi aí que me escondi durante décadas, receoso de que a guarda me procurasse a propósito do que tinha feito ao Rau-Rau. Saía à noite. Roubava batatas, legumes, fruta. Quando não tinha nada para comer, ia até a casa do Padre Zezinho, o único que, então, eu presumia saber da minha morada. Levava para casa roupa, cigarros e alguns livros, a minha companhia diurna, o mundo de que desfrutava. Tomávamos o pequeno-almoço juntos, viajávamos até locais inóspitos, sobretudo os da minha cabeça, jogávamos xadrez, caminhávamos até ao cume das montanhas mais belas onde víamos tranquilamente a queda lenta do sol até se afundar na planície azul.
Este estado de indigência, de reclusão em penitência, de exílio do meu corpo e de fuga permanente sob um disfarce que já nada tinha a ver com o outro que eu fui – talvez seja isso a cobardia – fez com que a população me desse as maiores provas de consideração. Louco, parvinho, maluco, alienado, demente, desaparafusado, choné… Stress pós-traumático. Com licença, tudo serve para perdoar o incómodo da minha existência. Pelo menos para o outro, o que escreve, não para mim, para este que se vê escrito na realidade do outro.
Voltei a sair de casa quando dei conta de que, mesmo que viesse a ser preso, o tempo que me resta de vida é menor do que aquele que já vivi. Embora saiba que nada tenho a temer, sobrevive em mim o instinto do medo. Acho que são saudades da minha mãe e da minha irmã. Por isso, continuo a fazer de conta que sou outro. Faço continência ao Santíssimo, no meio da igreja, durante a homília. Embora a missa me dê um sono de morte, Deus continua a ser o comandante supremo. O único a quem devo lealdade.
Na missa, as pessoas olham para mim quando bocejo. Incomodam-se. Imprecam. Julgam-se muito sábios, acham-se normais, fazem-se engraçadinhos mas, pelo modo como me respondem, como se também eles estivessem possuídos por uma demência, está visto que o louco, aqui, não sou eu. Esquecem-se de que o meu mundo não é do reino deles, de que vivo como um lobo desterrado, absorvido pelo convívio intolerante de uma matilha que não é a minha. Não, não são oscitações que ouvem de mim, são uivos de solidão.
– Santinho! – digo, a tentar remediar o desplante. Sei que só se deve dizer isto quando se espirra, mas o que é um bocejo se não um espirro preguiçoso para dentro, em câmara lenta?!
Na rua, simulo desmaios, síncopes, atiro-me ao chão e finjo a inconsciência, para que as turistas, no verão, se aproximem de mim e me mostrem o mundo que trazem por debaixo das saias ou no decote do peito quando se inclinam para mim. Se é como dizem, se sou mesmo um tolo desnorteado, a minha loucura é a que desde sempre degenerou a cabeça de um homem: as mulheres.
Às vezes, peço dinheiro às pessoas para comprar cigarros. Rogo por noventa e nove cêntimos de empréstimo. Se me entregam uma moeda de um euro, indigno-me, não é preciso esse disparate de dinheiro! Quando me dão moedas pequenas, devolvo-as a outros que tenham emprestado dinheiro anteriormente. Digo que é uma prestação da dívida.
O desgaste do tempo deixou que certas nódoas de dentro desaparecessem. Desinibi-me, que é o que acontece àquelas blusas velhas que servem de pretexto para limpar a sujidade mais imunda. Tenho vizinhos. Peço-lhes tabaco. Falo com eles. O meu vizinho Faria, por exemplo, sofre horrores por causa da ciática. Passa muito tempo sem sair de casa e queixa-se, infinitas vezes, de não sonhar, ao contrário de mim, que «carrego o sonho de não ter noção da realidade.» (Ele é que diz). Quando lhe pergunto o que é isso, sonhar, lamenta não saber dar uma definição ao sonho. Um dia, afirmei que os sonhos são jardins que florescem na cabeça e comecei a rir, o que, de certa forma, não deixa de ser por si mesmo uma definição de sonho, uma gargalhada contra a morte. Na ânsia de trazer esperança ao resto da vida que lhe faltava, e confrontado com uma brutal ausência de espaço na imaginação, o meu vizinho Faria plantou flores no telhado, para poder sonhar sem sair de casa.
Há dias, comecei a sentir-me cada vez mais observado. Tenho a sensação de que um olhar oblíquo, rasteiro, me persegue como uma sombra. Ouço passos atrás de mim, ora mais espaçados, ora mais frenéticos, como se fossem dedos a caminhar sobre um teclado. Tenho frio na cabeça. Nos dias de inverno, enfio a minha calva numa luva de borracha, dessas com que as mãos delicadas das mulheres lavam a louça. Sempre é uma mão que protege.
Tenho saudades da minha mãe, da minha irmã. Sinto os meus dias arrastados e a desencadear outros movimentos à maneira de um jogo emocionante de xadrez. Por isso, fujo de mim, fujo dos meus medos e de tudo o que me persegue. Dissimulado na indiferença alheia, vou para o miradouro, aquele que se ergue ao céu como uma oração de pedra. Subo à parte mais alta, a que estabelece um abismo entre mim e o mundo, entre mim e a rua de baixo, quinze metros de sobranceria sobre a realidade implacável. Durante horas a fio, fico-me a ver as estrelas, à procura de um sinal bruxuleante, um par de coordenadas luminoso que me indique o caminho para a minha mãe, para a minha irmã. Faço-o até ficar atordoado, com arrepios e com sono.
Estou tonto, tenho vertigens, ouço alguém a coçar-se atrás de mim. Sinto uma mão sobre o meu ombro. Espero que seja a do outro que escreve este texto, a do leitor que me puxa e me salva e não a do Rau-Rau a empurrar-me lá para baixo enquanto ouço:
-Xeque-mate