Lisboa IV

O outro que escreve não sou eu. O que em mim é ato praticado, nele é ato inventado. O que eu aprisionei à vida, ele, livre dos meus impedimentos, teve a coragem de permitir à efabulação. O outro que escreve não viveu o que eu vivi, não aprendeu o que os dias me ensinaram. Mas escreve, escreve e escreve. E isso já é aprender a compreender.

O outro, o que agora escreve isto sobre mim, não sentiu o golpe plano da mão do Rau-Rau na omoplata quando, debruçado sobre a amurada, eu tentava afundar as recordações da Clotilde que insistiam em flutuar no mar indomável do meu pensamento. A superfície de uma folha não traz à tona a voz profunda do Rau-Rau acompanhada pela mão repetida num gesto pensativo de coçar as partes pilosas do corpo sempre que dizia qualquer coisa:

– Só o coração é razão para estares assim – afirmou, esfregando as pontas dos dedos da mão que não me aqueceu as costas na barba dura. -Viva, companheiro. O meu nome é Rau-Rau.

Escritas, as palavras do Rau-Rau não trazem as lágrimas que certas brisas frias trazem aos olhos quando corremos contra um tempo que é só vento. Ainda hoje, a voz sem fala do Rau-Rau se antecipa a qualquer pensamento como quem nos passa à frente na fila do supermercado. É uma pastilha elástica com sabor infinito, o cigarro que nunca acaba após a refeição. Masco essas frases aromáticas do Rau-Rau. Puxo-as em fumaças luzidias. É uma forma de nunca deixar de as lembrar.

– Quem é ela? É bonita?-teimou o Rau-Rau, depois de uma breve apresentação que serviu para lhe cartografar o essencial da minha identidade e do lugar, isolado, quase impercetível, que eu ocupava no mundo.

Agucei a minha súbita tristeza à perspetiva interminável do mar alto. Tudo me parecia monótono e hostil.

Não consegui dizer muitas coisas sobre a Clotilde. Mostrei-lhe apenas a fotografia dela. O Rau-Rau esquadrinhou o retrato em todas as direções. Nos olhos dele gerou-se um brilho aguado igual aos banhos de acidez que dão definição às fotografias.

– Bela febra! – deixou escapar enquanto equilibrava um canto da fotografia da Clotilde na ponta dos dedos.

Fez acompanhar aquela observação de um ruído reiterado de quem raspa uma parede. Apercebi-me de que coçava os genitais com a outra mão. Nesse momento, percebi por que razão lhe chamavam Rau-Rau, pelo que nunca me senti na necessidade de conhecer mais sobre a sua verdadeira identidade do que isto.

Durante a viagem até África, durante o tempo em que vogávamos calmamente em pleno mar ou enquanto os ímpetos prodigiosos das borrascas nos faziam andar aos trambolhões de bombordo para estibordo, entendi o trato musculado e afetuoso do Rau-Rau para comigo como um sinal dos deuses. Uma prova concreta de que a minha vontade de conhecer o mundo começava nas coisas que ele mesmo se encarregou de me ensinar. Familiarizei-me com os seus hábitos. Partilhei a urgência compulsiva dos seus vícios. Deixei que a minha ignorância se diluísse na sua amizade. Brindámos a alegrias e tragédias. Éramos parceiros de sueca. Tornámo-nos quase inseparáveis.

O Rau-Rau era inteligente. Embora tivesse a sensibilidade de um canibal, vinha de um lugar que eu desconhecia. Um lugar com infância e onde era permitido pedir todos os desejos, pois que todos se realizavam. Eu era o contraste. Por isso nunca lhe perguntei por que razão não fugiu à guerra. Tive vergonha. Preferi que as nossas atividades quotidianas prosseguissem, uma delas, eram as lições de xadrez.

A paciência que o Rau-Rau tinha para me ensinar dava para escrever vários versículos da Bíblia. Ao ver as peças de madeira que trazia enroladas numa bolsa de pano-cru, pedi-lhe, maravilhado, que me desse lições. Estava disposto a pagar-lhe por isso. Em troca, apenas me pediu a fotografia da Clotilde. Uma vez que precisava de atirar essa carga pesada de saudade de dentro de mim e, desse modo, procurar voar para outros amores, aceitei sem nenhuma reserva. Atirei-lhe a fotografia como se fossem sacos de areia despejados no vazio das nuvens.

O Rau-Rau explicou-me as regras. Movia as peças de quadrado para quadrado, como se jogasse à macaca com elas. Ao mesmo tempo, coçava as sobrancelhas para além dos limites da comichão. De seguida, mandava-me repetir a lição. Eu repetia, não o que ouvia, mas o que achava que deveria ser um jogo jogado de acordo com as minhas regras:

– O bispo anda na diagonal e cruza os quadrados que quer; a torre vê-se de longe; o peão anda na rua, de casa em casa; o cavalo move-se num trote de dança em L: dois quadrados para a frente e um para o lado. O rei e a rainha que existem em cada um de nós andam como bem querem: a fazer de cada passo a história com que se constroem as cidades.

O Rau-Rau ria para cima de mim. Praguejava. Repetia palavrões e disparates que outros, mais distantes da sua maneira de ser, com traços de carácter dignos de um rei, poderiam considerar insultuosos. Ao berrar comigo, regava-me com borrifos de saliva que ainda hoje fazem florescer gargalhadas quando caminho sozinho na rua. Simulava socos nos meus ombros que, mesmo sendo a fingir, me doíam. Voltava a repetir tudo, pormenor a pormenor, até ao xeque-mate.

– Entendido agora? Dúvidas? -voltava a inquirir.

– E quando uma rainha transforma pão em rosas, é xeque-mate ou é milagre?

O Rau-Rau olhava a fotografia da Clotilde, coçava o tampo da cabeça, esgrimia protestos e imprecações, ria e tornava a repetir.

Todos os esforços do Rau-Rau foram em vão. Um dia, antes de começarmos nova aula, comuniquei ao Rau-Rau uma nova jogada de minha autoria.

– Lisboa, tem o meu nome, – fi-lo ver, apontando para mim, como se o fizesse às chapas de identificação que os agentes da autoridade carregam à frente do peito.

– Força. Vamos a isso. Ensina-me tu qualquer coisa – retorquiu orgulhosamente, não tão perplexo quanto eu imaginei à partida.

– O rei pede a bênção ao bispo, monta o cavalo, derrota os peões, sobe à torre e salva à rainha.

O Rau-Rau levantou-se sem deixar que o meu sorriso se abrisse como uma talhada de melancia, deu-me um encontrão com os ombros e gritou:

– Xeque-mate.

A sereia da bisarma de metal flutuante que nos transportava urrou sem fim, até aquele grito rouco e afiado escavar bem para dentro dos ouvidos. Tínhamos chegado a África e nenhum dos tripulantes parecia estar preparado para o que iria encontrar a seguir.

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