Lisboa II

O outro que escreve não sou. O meu sangue não corre na tinta da caneta. A voz dele não se aperta na garganta das palavras que assenta sobre mim. Custa-lhe muito pensar. A mim, não me pesa nada ser. Deixei de viver nessa ilusão premeditada de que a felicidade exige que eu tenha o poder de ser sempre o mesmo. Sou assim, uma multiplicidade indefinida, desde que o comboio da vida me deixou na estação errada.

Ficámos nas margens opostas da linha que nos move: eu e o que escreve sobre mim. Tem o dobro da minha inteligência, faz de mim uma verdade fingida. Os meus passos, ainda que pequenos, têm um pé na mentira e outro na realidade. Um pé nele e outro em mim. É nessa curta envergadura que nos abraçamos. Nunca estou sozinho no cruzamento das minhas memórias. Tento redefinir-me nas histórias que ele escreve sobre mim. Ele dá-me um universo que eu não sei até onde existe. Inventa uma data de mentiras novas sobre mim para poder sentir a minha vontade inabalável de continuar a viver. Espreme-me em frases, até que as emoções do texto gritem. As redações dele dizem a toda a gente que estou vivo, mas eu não sinto nada. Isto é muito estranho para quem me vê na rua, de um lado para o outro, de um lado para o outro, de um lado para o outro esfregando as solas no chão. Pudera! A parte de dentro de mim que é silêncio ninguém vê.

O que escreve sobre mim diz que essa parcela que não se ouve começou na minha mãe e nunca mais acabou, porque as mães são um amor sem fim e eu nunca consegui encontrar um princípio de amor na minha. Olhava-a e via uma mulher feia e ruim. Mas os homens que se detinham do lado de fora da janela do quarto dela não pensavam assim. Eram espelhos que a refletiam de uma maneira diferente. Não se fartavam de tanta beleza. Achavam-na perfeitamente simpática, empapavam-se no seu sorriso em forma de banana, os peitos muito encaroçados dela frutificavam nas fantasias deles. Os anos sobrevoavam-na sem lhe deixar um ar, uma mancha, um rasto. A idade acrescentava-lhe o peso das contas de subtrair. Eram cada vez mais os homens que faziam da rua onde morávamos os seus caminhos de casa. Alguns, mais afoitos, levavam-lhe presentes. Caixas de fruta, batatas, coelhos esfolados, notas gordas. Ofereciam-lhe elogios com música de violinos ardilosos que só eu ouvia. Gabavam-na muito. Diminuíam-lhe os cabelos brancos e esfumavam-lhe as rugas. Alguns eram casados, outros, impecavelmente pulhas, apenas. Diziam-lhe:

– Está cada vez mais parecida com a sua irmã.

Eu sentia uma vontade indomável de protestar, de lhes acertar o passo, de lhes dar pontapés nas canelas. De ir ao encontro deles e de lhes atirar aqueles insultos que as desgraças atiram ao destino. Porque a irmã era a minha, só minha. E embora a minha mãe se pusesse à janela como se esperasse o regresso do meu pai após um dia de trabalho, eu, como homem da casa, tinha de garantir que o respeito era um convidado especial a quem se davam as melhores deferências. Um rosto autoritário que comia na mesma mesa que nós, ocupando um lugar de honra, um livro sagrado às nossas cabeceiras que líamos como uma oração antes de dormir.

Depois, a minha mãe fechou as janelas e abriu a porta a estranhos. À medida que crescia, a minha irmã ajudava-a nessas diligências. Começou por abrir a porta da rua, depois outras portas que lhe escancaravam o corpo. Não sei se um dia abriu os olhos. Não sei se chegou a abrir o coração a alguém. Começou a ficar feia e rude e a dar sentido aos que a comparavam à minha mãe. Para mim, isto foi como se a falta de ar fresco encolhesse as paredes até a casa se arredondar no tamanho de um ovo. Cheirava a cigarros e a vinho. Os palavrões faziam correntes de ar juntos aos corredores. Botas enlameadas espezinhavam o chão íntimo dos meus passos. Uma humilhação. Não podia mais respirar um oxigénio tão sujo. Não aguentava mais. Aquilo empurrava-me para longe dali. Comecei a ficar mais tempo fora de casa.

Arranjei um trabalho. O homem responsável por escrever esta história dirá que foram vários. Servente de pedreiro, lenhador, aprendiz de ferreiro, engraxador. Para mim, o trabalho é o contrário de liberdade, de maneira que não interessa as muitas coisas que possa ter feito, se todos esses ofícios não passaram das celas intermináveis de uma grande masmorra.

Mesmo assim, já muito de noite, chegava a casa, procurava a minha irmã e não a via. Deixei de ter mão nela depois de começar a aceitar convites para sair. Ficava até tarde sabe-se lá onde, sabe-se lá com quem. Os gemidos da madrugada caminhando nas ruas saberiam dizer fazendo o quê.

Entrava em casa e batia com a porta. Virava costas ao mundo e avançava um pouco mais. A partir de uma determinada altura, deixei de me preocupar com a minha irmã. A caminho do esconso a que ninguém chamaria de aposentos, parava à porta do quarto da minha mãe e vi-a de cabeça tapada no quarto azedo de tanto suor. Esperava um momento, olhando como um gato no escuro, na esperança vã de que ela viesse à tona das mantas e dissesse:

– Olá, filho – e sorrisse da mesma forma que sorria aos estranhos e dissesse – Que bom que chegaste. Como foi o teu dia?

Entrava em casa e esperava que esse dia fosse hoje. Punha esses desejos dentro das minhas preces como um náufrago a engarrafar o desespero na superfície de um bilhete perdido nas correntes oceânicas. Ficaria espantado com Deus se acolhesse a minha súplica.

A voz de Deus é a manhã. Ouvia-a na imanência do clarão que encandeou São Paulo e o fez ver. Acreditei que o maior surdo é o que não sabe ouvir os silêncios de dentro. A voz de Deus tinha raios de Sol e espreguiçava-se nos meus braços. Falou-me no dia em que acordei com muitas saudades de ser livre e de amar a minha mãe. Cego pelo ódio, faltei ao trabalho, esperei que um desses homens estranhos batesse à porta e perguntasse pela minha mãe. Respondi:

– A minha mãe morreu.

– Tenho muita pena. Os meus sentimentos à sua irmã.

O homem baixou a cabeça, tirou de cima dela o chapéu e não o voltou a enfiar. A revelação que lhe fiz encharcou-o num halo de sombra.

Repeti a mesma coisa aos outros homens que se seguiram. Fechavam os olhos, enquanto eu abria muito os meus para ver a escuridão que os irradiava. Em todo o caso, a mentira não durou muito, apenas o tempo suficiente para que eu pudesse ficar de férias em casa, junto da minha mãe e da minha irmã. Abri as janelas. Deixei que o ar entrasse. Obriguei-as a lavar a casa. Às primeiras recusas da minha irmã, respondi com bofetadas. O choro dela pingava no chão e eu, impiedoso, gritava:

– Água já temos! Só falta passar a esfregona e o detergente!

Dei-lhes dinheiro para que mudassem a roupa às camas. Assumi as despesas da casa. Fi-lo até ao dia em que, pela primeira vez em muito tempo, a ranhura da porta de entrada engoliu uma carta em seco. Trazia o meu nome. Li-a em voz alta, para que elas percebessem como eu era importante. Não consegui arrastar a leitura até ao fim. A minha mãe e a minha irmã abraçaram-se a mim a chorar como se eu estivesse morto.

As lágrimas delas lavaram-me os ombros. O mundo de mentira que eu carregava dissolveu-se nelas. Tive pena da minha irmã e, mesmo sem gostar dela, perdoei a minha mãe.

Autor: Eduardo Duarte

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *