Incubadora de Empresas de Monchique promete atrair jovens para a serra

De momento, localiza-se no Espaço Jovem de Monchique, mas deverá passar ainda este ano para as suas instalações definitivas, nos Casais. A Incubadora de Empresas de Monchique encontra-se de portas abertas para qualquer startup, com um projeto inovador, que precise de um empurrãozinho para depois “ganhar asas” e tornar-se um negócio rentável. A primeira startup a ser incubada já ganhou um prémio num concurso de turismo.

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Embora seja uma terra do interior com uma “outra qualidade de vida que não temos nas cidades”, propiciada pela natureza que a rodeia, Monchique continua a perder habitantes de ano para ano, vendo a sua população idosa a aumentar e os jovens a irem para fora. Impulsionada pelo executivo, a Incubadora de Empresas de Monchique (IEM) promete reverter esta situação e criar novas oportunidade de emprego “para fixar os jovens e estimular a economia local”, considera Pedro Duarte. Formalizada em agosto de 2023, com o seu regulamento publicado em Diário da República, “vem um pouquinho tarde, mas nunca é tarde demais”, diz este formado em informática de gestão e com experiência na área empresária que é quem está a dar a cara na IEM, localizada atualmente no Espaço Jovem de Monchique.

Esta iniciativa já está em funcionamento e encontra-se de portas abertas para qualquer startup, com um projeto inovador, que precise de um empurrãozinho para depois “ganhar asas” e tornar-se um negócio rentável, se bem que ainda esteja num espaço temporário. O local definitivo da IEM será nos Casais, “no edifício que era utilizado como casa social e depois foi também utilizado como ludoteca, e que agora vai ser requalificado”, refere Pedro Duarte. Em dezembro passado, a Câmara Municipal de Monchique lançou uma candidatura a um fundo designado por “Vales para Incubadoras”, no âmbito do PRR, para obter financiamento para equipar o futuro edifício com mobiliário, equipamentos informáticos, bem como com meios humanos. A ideia é criar uma sede onde possam acolher cerca de dez empresas, com um espaço de co-working para as ideias fluirem e fomentar uma partilha de conhecimento, como numa espécie de “centro de negócios”. Pedro Duarte aponta para março a data em que a IEM poderá instalar-se nos Casais.

“Normalmente, é cobrado um valor simbólico. Nós, como estamos a começar e estamos no interior, o executivo entendeu, e por bem, não cobrar nada às startups. Elas terão acesso às instalações físicas e também a apoio na validação das ideias e criação da empresa”, explica Pedro. Ao longo de 18 meses, que podem ser prorrogados por mais 18, as startups podem usufruir do espaço como se se tratasse da sua própria sede, o que é uma mais-valia pelo facto de ser menos um custo com o qual se têm de preocupar. Um dos grandes obstáculos no arranque de qualquer negócio, refere Pedro, é precisamente o facto de implicar “sempre custos e, quando estamos a começar, ainda não temos receitas”. É por isso que “é importante que haja um apoio inicial por forma a assegurar o sucesso das startups”.

Primeira startup incubada

Criada por Guilherme Rosado, a startup Ahorta foi a primeira a ter a sua candidatura aprovada na Incubadora de Empresas de Monchique, tendo, ainda por cima, uma “forte componente digital”, frisa Pedro Duarte, destacando que o PRR disponibiliza atualmente vários financimentos na componente da digitalização das empresas. A Ahorta trata-se de uma aplicação, ainda em fase de testes, para dinamizar os mercados e feiras que possibilita a interação entre os consumidores e os produtores. “A ideia é detetar os mercados que existem na proximidade” e permitir ao consumidor que contacte diretamente os produtores com base no que deseja comprar, evitando ter de ir “de banca em banca à procura”, explica Pedro.

Uma vez que não basta que as ideias sejam “boas”, mas convém que deem também “algum retorno”, continua, a aplicação também poderá ser “direcionada para as entidades que gerem os mercados”. No sentido de tornar digital e de fácil acesso para todos o processo de ocupação de bancas, de forma a que quem queira vender algo saiba quando e onde há uma banca livre. “É uma ideia que vai ser de início em Monchique, que vai ser testada aqui, mas a ideia não é ficar por aqui. É ser escalável”, frisa Pedro. A Ahorta já foi distinguida num concurso fora da serra, tendo ficado em 3.º lugar no programa Tourism Up realizado em Tábua, em novembro.

Fixar jovens em Monchique

“Monchique tem imensas coisas boas. Só faltam jovens e pessoas, falta vida”. Para Pedro Duarte, a IEM pode ser uma alavanca para atrair mais jovens para Monchique, pois, sabendo que os monchiquenses que vão estudar para fora “não têm como voltar” por falta de ofertas de trabalho na sua área, esta é uma oportunidade para eles criarem o seu próprio emprego. Assim, adianta Pedro, há esperança de reverter a “linha descendente” do número de habitantes de Monchique que se tem registado nos censos de há anos para cá.

Também pode vir a ser uma forma de fixar nómadas digitais, complementa o vice-presidente da Câmara Municipal de Monchique, Humberto Sério. A IEM “é uma estratégia win-win”, explica ao JORNAL DE MONCHIQUE, uma vez que tanto dinamiza a oferta empresarial, como traz mais vida para a terra, com destaque para a aldeia dos Casais. A par da vertente de incubadora, Humberto Sério refere que a intenção é haver também, no futuro, “outros apoios, ao nível jurídico, contabilístico e inclusive alguns programas de aceleração, com mentores”.

Como entrave a esta aposta no empreendendorismo na serra ainda se pode referir a sua cobertura de internet, segundo Pedro Duarte, pois em certos sítios nem sequer há rede de telemóvel. “Mas eu acredito que, nos próximos um ou dois anos, das informações que há da CCDR, a ideia é haver uma cobertura de 95% ou 100% do território com internet”, realça.

Se houver tempo e vontade, por vezes basta “arriscar” e “tomar o primeiro passo” para se abrirem novas oportunidades de emprego – e, relembra Pedro Duarte, ter uma sede em Monchique significa estar num lugar num “interior com um litoral muito próximo, que tem uma outra liberdade para caminhar no campo e uma qualidade de vida que não temos nas cidades”.

Reportagem publicada na edição 481, de 22 de dezembro de 2023

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