Feitiço

Partiu no porão do navio. Com grilhões nos pés amarrada ao banco de madeira. Grávida de um terceiro. Com dois filhos pequenos ao seu lado.

Antes assim, pensava Mel. Vou ter com o indiano, o amor da minha vida. Sou metade de um coração por causa do seu amor. A outra metade é a saudade que ele deixou ficar.

O barco sulcava violentamente as águas atormentadas, como a sua alma e o seu coração.Quando todos vomitavam e quase perdiam a vida.

O barco rumava entre Cabo-Verde e São Tomé levando escravos para as roças de cacau.As crianças eram também obrigadas a fazer uma jornada igual aos seus pais.

O indiano não era indiano, apenas parecia indiano. Caboverdiano, lindo, de cabelos negros e lisos e olhos azeitona. Todas as mulheres por ele suspiravam. Júlio de seu nome.

Júlio e Mel apaixonaram-se no momento em que as suas almas se reconheceram.

Mel acreditava que assim era. Agora o colono levava-o para longe da sua ilha, para outra bem distante.

Tanto tinha lutado que preferia ser escrava nas roças que ficar sem a proximidade do cheiro, do olhar, dos beijos quentes do seu indiano que não era indiano mas caboverdiano.

Mais dois filhos nasceram na roça. Todos trabalhavam jornadas duras e suadas.

A terra santomense recebia o sal das lágrimas e do suor, temperando com ele a fertilidade do cacau amargo que dela despontava.

Mel a estrangeira, desde o dia que pisara a terra, era odiada pelas outras mulheres locais. Todas queriam o belo Júlio.

Fizeram-lhe um feitiço para a matar. Assim que ela morresse, tomariam conta dos pequenos e do belo e vigoroso homem caboverdiano que parecia um indiano mas que na negrura dos seus olhos apenas via luz nos olhos cor de avelã da sua doce Mel.

Mel ficou doente. Caiu na esteira com febres altas, talvez as febres dos mosquitos, talvez feitiço.
Júlio não podia estar com ela, trabalhava sem descanso. Era um dos melhores escravos da roça.

– Pai pede para eu ficar ao lado da mãe a cuidar da mãe, pediu o filho mais velho, Manuel. Júlio olhou o filho e viu-lhe as lágrimas que escorriam no rosto sujo. Júlio sabia que só este filho poderia dar vida à mulher que o fizera nascer.

Em pouco tempo Manuel era autorizado a ir para junto da sua mãe. Manuel, o mais velho, de sete anos, inteligente como poucos, sabia ler e escrever e entendia a língua da sensibilidade. Para tanto bastava estar presente e com o seu olhar avelã cristalino, como o da sua mãe, trazia conforto.

– Este nosso filho não é deste mundo, dizia em surdina Mel deitada com a cabeça apoiada no peito de Júlio.
Manuel entrou na casa de pau a pique construída pelo pai e olhou a sua mãe. Ali estava deitada de lado, respirando pesadamente entre gemidos. Esfregou-lhe os pés. Afagou-lhe a fronte. Deitou-se na esteira ao seu lado abraçando-a pelas costas e ficou em sossego. Adormecido.

Manuel não voltou a acordar no mundo que nem sempre ama os vivos. Foi para aquele de onde veio, no útero de sua mãe Mel.

Diz quem viu que o feitiço passou pelas costas de Mel para o coração de Manuel e este fez parar.
Júlio cansado, com a doença da tristeza juntou-se a Manuel, quando a folha da bananeira ficou verde, pronta a deixar rebentar o fruto.

Com oito filhos, Mel recuperou da dor da vida, e, feita de coragem, regressou à sua ilha em Cabo-Verde. Cuidou da vida de todos os seus filhos, metade seus metade do seu amor Júlio, com o mesmo desvelo e amor de sempre. Como mel.

Feita metade de um coração por causa do seu amor por eles. A outra metade feita da saudade que Júlio e Manuel deixaram ficar.

Em São Tomé, Mel, deixou o feitiço enterrado.

 

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)