Do futebol à ginástica rítmica: o desporto vive em Monchique, com algumas dificuldades

Reportagem publicada na edição 478, de 29 de setembro de 2023

A Juventude Desportiva Monchiquense e o Clube Desportivo e Cultural da Nave tentam dinamizar o desporto, em Monchique, há quase 60 e 45 anos, respetivamente. Mais recentemente, em plena pandemia, surgiu a associação A Tua Pétala. Clubes diferentes, dificuldades iguais: todos enfrentam a falta de treinadores qualificados, de atletas, condições e financiamento.

Respeitando o ritmo da sociedade, também as atividades desportivas tiveram a sua rentrée, em Monchique, este mês de setembro: na Cruz dos Madeiros, a bola rola novamente entre os futebolistas da Juventude Desportiva Monchiquense (JDM) e a dança contemporânea, bem como a ginástica rítmica e as aulas de fitness, estão de regresso ao Pavilhão Gimnodesportivo. Todavia, manter o desporto vivo não se torna fácil quando se está numa terra de interior que enfrenta obstáculos como a falta de treinadores qualificados, de atletas, condições e financiamento. É certo que muita coisa falta, mas a vontade de estimular a prática desportiva continua a existir nas direções das três maiores associações desportivas de Monchique, o JDM, o Clube Desportivo e Cultural da Nave e a A Tua Pétala – Associação Desportiva e Cultural de Monchique.

Sentado numa das salas da sede do JDM, Luís Manuel é perentório: está na altura de “tentar renascer das cinzas” e “trazer os monchiquenses de volta a casa”. Eleito em julho deste ano, o novo presidente do clube pressupõe que as expectativas para esta nova época desportiva sejam altas, tendo em conta que o clube tem estado praticamente inativo desde 2018 e, para mais, no próximo dia 14 de novembro vai celebrar as suas 60 primaveras. É uma grande “responsabilidade”, mas também um “orgulho” estar à frente de “um clube com 60 anos sem interrupções, independentemente de estar mais em cima ou mais em baixo”, refere Luís Manuel.

Desde que a Câmara Municipal de Monchique iniciou as obras, em 2018, para pôr um relvado sintético, o clube “entrou um bocadinho em decadência”. As obras prolongaram-se e, “a seguir, meteu-se a pandemia, claro”, explica o presidente, que entrou para o clube, em 2016, como vogal e subiu para vice-presidente em 2018, ano em que se realizaram as últimas eleições. Além de ter enviado os atletas para casa, a pandemia (à qual acresce a “falta de tempo e pessoas”) também quebrou o ciclo das eleições para a direção, que se faziam, por hábito, de dois em dois anos.

(…) Luís Manuel é perentório: está na altura de “tentar renascer das cinzas” e “trazer os monchiquenses de volta a casa”.

Estes primeiros meses com a nova direção já parecem ter trazido uma nova dinâmica ao clube. Se no ano passado só tinham a equipa de Infantis sub 13 em competição – que até foi o próprio Luís Manuel a assumir (embora seja, na verdade, treinador de karaté em Monchique) para não terem de “mandar os miúdos para casa” -, este ano terão mais os Benjamis A e os Iniciados. E embora não haja competição oficial para os Petizes e os Traquinas, estes também já têm equipa formada.

A ideia é “começar pela base” e “fazer uma coisa gradual, com alguma lógica”. Segundo Luís, se apostarem agora nas equipas dos escalões mais novos, “possivelmente para o ano” já dará para ter uma equipa de juvenis e, mais tarde, de seniores. Os veteranos, por sua vez, têm mantido os seus treinos ao sábado à tarde, dado que “trabalham de uma forma mais independente do clube”. Depois dos encontros com as outras equipas até costumam dar vida à sede e avançar para “a terceira parte do jogo” com um jantar. Já os seniores deixaram de ter equipa desde 2018, porque é um escalão que “envolve já uma grande logística e despesa”, sublinha o presidente. “Há sempre o objetivo [de recuperar a equipa], porque quem dá mais visibilidade a um clube são os seniores”, diz, acrescentando que acredita que até seria possível formar uma equipa já este ano não fosse a “falta de mão de obra”.

Atualmente, a escassez de treinadores é um dos grandes entraves à dinamização do clube. Para este ano conseguiram arranjar cinco treinadores para cada uma das cinco equipas, embora alguns deles sejam rapazes sem formação que se mostraram disponíveis para prestar apoio. Só mesmo os membros da direção é que trabalham “à borla, por amor à camisola”, nota Luís, “e o clube não tem possibilidades para ir muito longe” ao nível do financiamento. Por isso, é preciso “pôr isto a funcionar que é para a malta começar a acreditar de novo no monchiquense e até para que alguns treinadores que foram para fora possam voltar a querer estar connosco, independentemente dos valores.”

Para tentar colmatar esta parte do financiamento, o JDM está a tentar pedir apoios ao comércio local para não estar apenas dependente do município, que é o único parceiro, atualmente, que contribui para as despesas do clube. Além disso, pela primeira vez na história do JDM, vão ser cobradas mensalidades aos atletas, cujos valores vão desde os 12 aos 18 euros.

Outra novidade para este ano é que vai passar a haver na sede do JDM, a partir de outubro, aulas de zumba, pilates e powerfit. Ainda não se compara aos tempos de antigamente, quando o clube organizava atletismo, ténis de mesa, passeios de motorizadas e cicloturismo, mas já indicia a vontade de atrair mais atletas, tentando contornar o problema da falta de pessoas que se verifica nas terras do interior. “Nunca conseguimos ter uma grande envolvência, porque somos poucos”, diz Luís Manuel. “Enquanto os outros entram numa questão competitiva, nós somos mais uma questão inclusiva. Aqui, para nós, todos os jogadores têm o mesmo valor, são todos bons”, acrescenta.

Estas novas modalidades também ajudarão a dinamizar a sede, que foi remodelada por altura da pandemia e agora está com “as condições todas” para voltar a ter o bar a funcionar. “Nem que seja ao fim de semana para as pessoas virem ver” os jogos de futebol, em grande plano, projetados na parede da sala polivalente. Paralelamente à sede, o JDM também tem na mira dinamizar o parque desportivo, cujo proprietário, aliás, nunca foi bem clarificado. “O terreno e a área envolvente foram, há muito anos, doados pela família Mascarenhas ao JDM, mas nunca foi posto em nome do JDM”, conta o presidente. Ou seja, “atualmente, está em nome da Câmara, mas é do JDM, embora legalmente falando não o seja”.

Além de ambicionar que o campo seja passado, ainda este mandato, para o nome do JDM, o clube também tem outros planos para ele na carteira, como melhorar a iluminação, criar casas-de-banho públicas, dinamizar o bar e construir bancadas.

Tudo indica que o 60.º aniversário que se avizinha será assinalado com uma homenagem a antigos presidentes e sócios, bem como algumas atividades gratuitas. Para Luís Manuel, é uma data importante para este clube que “já tem muita história” e o qual, para se conseguir “reerguer”, também precisa do “apoio das pessoas”.

Tentar diversificar a oferta desportiva em Monchique

Outro clube com história em Monchique é o Clube Desportivo e Cultural da Nave que, desde que foi criado no dia 11 de março de 1979, também tem tido um percurso marcado por altos e baixos, recaídas e “lufadas de ar fresco”. Até parece “cíclico”, observa Énio Messia, atual presidente da direção. Na altura em que foi criado, o clube oferecia uma série de modalidades, como futsal feminino ou tiro ao alvo; depois, “as coisas foram abaixo” até que, em 2005, uma nova direção puxou as cordas e implementou a sede que se mantém até hoje, levando o clube também a organizar arraiais e bailes. “Tudo funciona quando é novidade, quando deixa de ser novidade, aqui em Monchique, as coisas normalmente vão definhando”, diz Énio.

Atualmente, o clube é mais conhecido pela petanca e pelo trail, onde têm alcançado alguns resultados que consideram ser “importantes” para o concelho. Na petanca estão a ser bem representados pelo atleta Hugo Dores, que é o capitão da seleção nacional, e no trail já somam vários primeiros lugares em competições individuais e por equipas. “O trail foi uma aposta com sucesso que se fez em 2010, salvo erro. Era uma modalidade emergente no Algarve e em qualquer ponto do país”, refere o presidente, tanto que agora têm cerca de 25 atletas espalhados pelo país, o que permite ao clube participar em duas ou três provas, ao mesmo tempo, durante os fins de semana, sem grandes custos de deslocação.

O trail também veio complementar o atletismo, porque os mesmos atletas acabam por participar em maratonas e de corta-mato, por exemplo. O atletismo foi uma das grandes marcas do clube no início dos anos 2000, mas começou a decair, segundo Énio, devido “à dinâmica que as direções” têm tomado e ao facto de os jovens deixarem de praticar quando vão estudar para fora, muitos assim que começam o secundário em Portimão. Além do mais, também não existem condições específicas para o atletismo em Monchique, como sublinha o presidente: “a gente queria diversificar muito mais, mas também não nos é possível. Não temos caixa de areia, lançamento do dardo, do peso, não temos uma pista de atletismo mesmo que seja com as medidas mínimas. Temos sempre de recorrer ao apoio dos outros clubes e pessoas”. Os treinos que conseguem proporcionar acontecem, por isso, ou no campo da feira, no heliporto ou “em estrada”.

Em 2020, com o objetivo de incutir ainda mais o “bichinho da competição” e tentar diversificar a oferta desportiva neste “concelho de interior, que tem poucos jovens e pouca atividade sem ser o futebol”, o Clube da Nave criou o Monchique Dance. As aulas estão a ser retomadas agora, no Pavilhão Gimnodesportivo e no da Escola Básica Manuel do Nascimento, havendo dança contemporânea para várias idades, que é dada por uma professora de Portimão, e dança criativa, que é uma mistura entre ballet, contemporâneo e hip hop para os mais pequenos “imaginarem e dançarem o que sentirem”. O Monchique Dance tem tido uma “boa adesão”, diz Énio, contando com cerca de 25 atletas dos 55 que o clube tem no total. Este ano, quase que ficaram entre os primeiros dez, o que os levaria à fase seguinte, no All Dance em Santa Maria da Feira. “É aquele pulinho que falta”, observa o presidente.

“A gente queria diversificar muito mais, mas também não nos é possível. Não temos caixa de areia, lançamento do dardo, do peso, não temos uma pista de atletismo mesmo que seja com as medidas mínimas. Temos sempre de recorrer ao apoio dos outros clubes e pessoas”.

Tal como o JDM, também o Clube da Nave enfrenta o problema da falta de treinadores qualificados e de financiamento, o que torna “muito difícil avançar com novos projetos”. Chegam ao final do ano “com as contas a bater no negativo”, pelo que têm de avaliar sempre a quais competições conseguem ir. A isto acrescem ainda os problemas de espaço, quer para dar aulas, como na sede. No que diz respeito à petanca, “neste momento, treinamos quando se joga”, confessa Énio. Bom seria se pudessem ter uma sede “com condições” e um campo de petanca perto, sugere, dinamizando, por um lado, este desporto que, apesar das múltiplas vantagens que tem como “a pontaria, a concentração e o desenvolvimento intelectual”, ainda é visto como “a ovelha negra das modalidades”. Por outro, também revitalizaria a sede, que, se antes estava aberta de quarta a domingo, agora só abre geralmente para os jogos de futebol.

“Os projetos estão escritos, delineados, não conseguimos é pô-los em prática”, lamenta o presidente. Pena é, acrescenta, que o associativismo, em Monchique, se faça “de costas voltadas uns para os outros”. Talvez se as associações se entreajudassem, teriam mais força para dinamizar o desporto em Monchique. Énio bem se recorda de como os futebolistas do JDM que também praticavam atletismo tinham um melhor desempenho do que os colegas.

Embora sejam poucos no clube e subsídio dependentes, não deixam de ter “várias coisas em carteira”. Mas é duro implementá-las: “Se alguém pensa que nesta vida [de associativismo] se ganha alguma remuneração, é totalmente o contrário. Só dores de cabeça e cabelos brancos”.

Em Monchique, a ginástica rítmica tem “muita história”

“Pétala a pétala vamos conseguir construir aqui algo muito bom”. Foi com esta ideia em mente, inspirando-se no ditado “grão a grão enche a galinha o papo”, que Beatriz Costa fundou, em 2020, a A Tua Pétala – Associação Desportiva e Cultural. “Foi um bocadinho uma loucura” por ter sido em plena pandemia, refere Beatriz, que antes dava aulas de ginástica rítmica no Clube da Nave. “Foi começar do zero, mas felizmente as coisas correram muito bem e temos vindo a crescer”, diz. O nome parece ficar na cabeça das pessoas e, até agora, já recebeu por volta de 15 novos atletas este ano, estando com quase 40 inscritos ao todo.

A modalidade-mor é a ginástica rítmica, que existe há mais de 20 anos em Monchique, já tendo “muita história”. Isto “apesar de ser uma coisa muito específica e às vezes pouco falada”, segundo Beatriz, que resolveu tirar o curso de treinadora para continuar a promover na serra esta atividade que tanto gostava de praticar em jovem.

Trata-se de uma “modalidade feminina” que mistura ginástica e ballet, recorrendo ainda a arcos, bolas, fitas, maças e cordas. Para as mais pequenas acaba por ser um “mundo mais mágico”, diz a treinadora, explicando que “leva para o simbólico, para as histórias, as princesas e os brilhantes”. Fora isso, é uma atividade que trabalha muito a flexibilidade, a agilidade muscular, o equilíbrio e a consciência corporal. Bem como a tolerância e empatia pelo outro, prossegue, uma vez que “ali a partir dos sete, oito anos, começam muito a apontar o dedo quando alguma falha nos lançamentos”. Beatriz também tenta que as atletas “percebam que, para se conseguir chegar onde se quer, tem de se trabalhar, fazer sacrifício, esforço”.

Até agora só tem trabalhado com as atletas no âmbito da representação e do trabalho de equipa, porque Monchique não tem as condições necessárias para poderem participar nas competições. “A competição exige muitas horas de treino e um pavilhão sempre disponível para nós. E não pode ser um espaço qualquer, tem de ter uma certa altura porque elas fazem lançamento de aparelho”, explica Beatriz. Ainda assim, vão tendo saídas quase todos os fins-de-semana e organizam saraus ao longo do ano. No ano passado, houve um que juntou cerca de 350 atletas no Pavilhão Gimnodesportivo.

De momento, a maior limitação da associação, que gostaria até de alargar o espectro das suas modalidades a uma parte mais cultural e tradicional, é o espaço (…)

Além da ginástica rítmica, a A tua Pétala também promove aulas de fitness, como de localizada, body balance e treinos mais funcionais, cujas modalidades vão rodando consoante o gosto dos próprios praticantes. Beatriz refere que estão a ponderar ter um “serviço de babysitting” em simultâneo com as aulas para os adultos praticarem mais descansados. Para a faixa etária dos dois anos também terão, a partir de outubro, o baby gym.

De momento, a maior limitação da associação, que gostaria até de alargar o espectro das suas modalidades a uma parte mais cultural e tradicional, é o espaço, nota Beatriz. “Só existe este pavilhão que está hiper lotado com todas as atividades que existem”, nomeadamente o badminton do desporto escolar, a dança do Clube da Nave ou ainda o karaté. Numa terra pequena, “os horários são os mesmos e os miúdos são os mesmos”. Associado a isto, a transição das atletas para o secundário também acaba por ter efeitos, porque muitas deixam de treinar por chegarem tarde, e cansadas, de Portimão e partirem logo cedo de Monchique.

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