Diário íntimo de Carlos da Maia: um achado cultural

Uma das figuras emblemáticas de investigação e de divulgação de Eça de Queiroz, com mais de 30 títulos publicados, A. Campos Matos afoita-se agora a uma experiência ficcional que acaba por se constituir como um achado literário e a transcurso histórico impressionante: “Diário Íntimo de Carlos da Maia (1890-1930)”, por A. Campos Matos, Edições Colibri, 2014.

Do bairro queirosiano, o investigador lança-se temerário ao dar vida à personagem cimeira de Os Maias, Carlos da Maia, coloca-o em Paris, está com 35 anos nesse tempo do Ultimato Inglês, Carlos faz jus ao curso que tirou e especializa-se num hospital consagrado, Hôtel-Dieu. A ficção ganha foros de plausibilidade: Charcot dava aulas na Sorbonne, Sigmund Freud assistia às suas aulas, Maupassant também está presente. Carlos da Maia não parece nada arreliado com o desenho que essa fez da sua pessoa, é admirador incondicional do seu criador. São inúmeras as figuras da cultura que atravessarão este diário forjado, caso de Antero, Camilo, Teixeira Gomes, Oliveira Martins, Aquilino Ribeiro, Tolstoi, Balzac, Romain Rolland, José Régio, António Sérgio… Mas Eça de Queiroz quem predomina bem como os ambientes das suas obras, pois a ficção aqui, insista-se é plausível, fala-se de o “Ramalhete” como se este estivesse à espera de ser ocupado, dá-se até um encontro entre Carlos da Maia e Maria Eduarda, e a filha desta, Rosa, escreve cartas ternurentas ao seu tio. Carlos da Maia passeia-se por Londres e é então que é convocado para ir até às suas propriedades em Santa Olávia, atravessa a fronteira de Barca d’Alva e assim chega à sua propriedade perto do Rio Douro, é esperado por Manuel Monteiro e pela sua filha Rosália, que logo o impressiona. Não demora muito tempo a pedir-lhe a mão. Vão em núpcias até ao Porto. Eça está sempre presente, fala-se do Ega, de António Feijó, e qualquer momento é bom falar em qualquer um dos livros do cônsul de Bristol; a cultura é omnipresente, até se homenageiam os colecionadores, aqueles que preservam as memórias das coisas. A vida prossegue com traços de grande prosperidade em Santa Olávia, exportam-se muito bem os vinhos da casa. O casal vai espairecer até Paris, entretanto nasce o filho de Rosália e de Carlos da Maia, Carlos Afonso, com toda a languidez o senhor de Santa Olávia passeia-se, lê Garrett, mas é Eça de Queiroz que marca o seu epicentro cultural, até Jacinto de Tormes o vai visitar; ouve Guilhermina Suggia no Porto. Entretanto, é inaugurada a estátua de Eça em Lisboa…

Como em todas as histórias bem contadas, vamos sendo absorvidos pelo tempo histórico-cultural que este diário anota. Carlos da Maia dá consultas e regista as doenças complexas que vão surgindo, a medicina não tem reposta para tudo, escreve em dado momento: “Amolador toda a vida e prazenteiro, o Zeferino de Miomães aparece-me acabrunhado com, nitidamente, um cancro no escroto em fase irreversível. Que fazer se não preparar-lhe as doses de morfina habituais!?”. Campos Matos é extremamente cuidadoso como redige, numa época em que pululam romances históricos com redações inconcebíveis, este diário nunca sai do rigor de uma prosa possível neste arco temporal de 1890 a 1930. Há inúmeras viagens próprias de um cavalheiro rural próspero, de curiosidade afiada e até desperto para a cultura contemporânea. E até um diário de ensinamentos. Falando de um fenómeno que fez a sua época, diz que o grand tour era a designação quê se dava na Inglaterra do século XVIII entre a classe aristocrática, à viagem pela Europa como complemento cultural indispensável ao jovem gentlemen que acabava a sua formatura. A Itália era o país fundamental nessa viagem e, muitas vezes, o viajante trazia de lá o seu retrato a óleo, tendo como fundo, um dos grandes monumentos de Roma. A viagem incluía a passagem por França, Alemanha e Suíça. Frequentemente o jovem viajante entrava em Itália e descia até Nápoles, considerada então como a mais alegre e agradável cidade da Europa. Já perto do fim da vida, em 1930, Carlos da Maia escreve: “Quando tivemos a obra completa de Eça publicada, havemos de concluir o que hoje já podemos afoitamente dizer: que a sua ficção é atravessada por dois temas cruciais e constantes, a comezaina e o sexo”. E depois dá-se um encontro com um outro proprietário que o invetiva que o baldio das Cruzas lhe pertence, embora o juiz da Régua dera razão ao senhor de Santa Olávia. Aparece morto com o peito defeito por tiros de zagalote. A nota final é de Carlos Afonso da Maia.

Campos Matos ganhou desafio de dar vida a Carlos da Maia, insuflando-o como um alter-ego de quem lhe deu a paternidade literária. Temos aqui o mundo queirosiano e a possibilidade de imaginar um cavalheiro de aldeia de grande robustez cultural que acompanha o seu tempo, assiste mesmo à chegada dos nazis às portas do poder. Leitura irrecusável.