(Des)Máscaras Carnavalescas

Monchique. Terra dos dialetos escondidos e das tradições pitorescas. Temos de tudo um pouco: do artesanato ao medronho, do presunto às camélias. Inovamos quanto baste e honoramos cada festa com o devido respeito e boa disposição. Não excluiríamos, jamais (!), a altura do ano em que se despem preconceitos e se colocam nos corpos e nas almas as mais diversas máscaras. Será que usamos o Carnaval para exteriorizar fantasias interiores ou entramos simplesmente no espírito e na festa de forma inocente e descontraída?
Enche-se a vila de originalidade, de cores e de gargalhadas. E que se comece pelo princípio: as calçadas da nossa terra recebem gratas os desfiles das crianças, que deslumbram e orgulham. Os agrupamentos de escolas superam-se de ano para ano. Desta feita deram vida às nossas chaminés e mós; fizeram voar a nossas águias e recordaram com saudade os linces ibéricos. Houve cerejas e medronhos, cogumelos e flores.
Se de dia se mascaram as crianças, à noite (des)mascaram-se os adultos – com a devida inocência e ironia que a frase merece, observam-se os mais diversos disfarces. Trocam-se as pastas do dia-a-dia pelas perucas e maquilhagens em excesso. Há risos e loucuras que sublimam as preocupações do resto do ano e quem não entrar na festa e sair apenas para assistir vai, definitivamente, sentir-se fora de sítio. É dia de sátira nacional, regado de humor e boa disposição. Os bares da terra enchem-se de caras conhecidas, brindam os polícias com os ladrões, dançam os anjos com os diabos, cantam os desafinados, embriagam-se os pudicos e celebram todos em conjunto, numa noite em que tudo está de pernas para o ar.
Monchique. Terra das lendas, mistérios e recantos. Numa altura em que despertam as primeiras destilarias e se contam os dias para a mais importante celebração aos enchidos, conseguem as gentes, apesar de tantos desafios que lhes são exigidos, soltar gargalhadas genuínas e entregar-se às danças carnavalescas. Explodem as emoções ao som da Cabeleira do Zezé e do Amigo Charlie. Habituadas às trocas de produtos de outrora, negoceiam espadas de plástico por serpentinas, martelos por narizes vermelhos e inventam, se inventam (!), para que se volte para casa com um disfarce diferente do inicial.
Ainda que tenha as suas origens na Grécia Antiga, não podemos deixar de estar gratos aos nossos amigos brasileiros pelas cores, músicas, danças, alegria e despreocupação com que celebram o Carnaval. Embora o clima seja diferente, a intenção está lá: esquecer os dias, esquecer os compromissos, esquecer o cinto que sempre se aperta. Abrir portas da mente que, de resto, se encontram semi-fechadas nos restantes dias.
Admiro o Carnaval por permitir-nos este gozo, que é tão merecido e tantas vezes esquecido. O gozo de cumprimentar a criança que vive em nós, deixá-la respirar e invadir-nos por completo. A coragem de se ser quem não se é só porque se pode, o celebrar de uma tradição que mais não é do que a libertação de amarras sociais, de regras que todos os dias nos dizem rigidamente como devemos ser. Saímos da caixa, falamos com quem não se conhece bem, fazemos promessas vãs, entramos em competições saudáveis, vivemos intensamente.
Sempre que esta época acaba fica um pequeno vazio instalado em cada um de nós. Mais 364 dias de roupa e comportamento convencionais. No entanto quero acreditar que a loucura destes dias ensina-nos e relembra-nos que não devemos levar tudo tão a sério, que no final das contas feitas, é tão bonito e fácil rirmos de nós, que é pateta manter o semblante estratificado só porque já não é normal ser-se extravagante. Ainda que a vida sejam dois dias e o Carnaval três, aproveitemos para relembrar as emoções de alegria e jovialidade e deixemo-nos invadir, nem que seja só um pouquinho, pelo samba e pelos desfiles. Deixemo-nos contagiar por sentimentos de “hoje não quero saber”, porque é necessário, de vez em quando mexer o corpo e divertir-se, que é como quem diz, de forma bem mais completa: Sassaricar.

 

Autor: Cristina Luz