Azul

Sou feio, Deus me perdoe. Nasci numa sexta-feira treze e talvez tenha sido concebido entre o pecado de um dia das bruxas. E, pronto, foi o que deu – que os astros me ignorem – um mau-olhado nos cromossomas. Um nariz em forma de batata-doce, dentes tortos como um piano avariado, um olhar que pica, cabeça destapada de cabelo logo na adolescência, joelhos metidos para dentro, uma ligeira corcunda de acordeonista, pelos até às unhas e um eczema crónico que me dá a aparência das malaguetas mais irritadiças.

É tudo o que te posso dizer sobre mim, mas há mais. Fiquemos apenas pelo que está descoberto, Deus me perdoe. Sou meio surdo. Ainda hoje conservo dentro dos tímpanos as vozes diversas que se começaram a desenhar logo na infância. Dizem que eu não sou nada, que não valho nada, que sou a prova material da legalização do aborto… Enfim, vozes que me não deixam ouvir a Deus, que é o que sentem os que ficaram com a água do batismo nos ouvidos e depois nunca mais puseram os pés na igreja.

É por isso que estou aqui, que te lavro esta missiva. Uma folha em branco ninguém vê, é como os pensamentos, são invisíveis, mas se a gente os derrama para o papel, então, sim, aí temos as fundações de uma escola. Foi o que aconteceu a Platão. Começou a escrever tudo o que pensava em papiros e hoje ainda temos bem presentes as pedras, o cimento, as telhas e as janelas para o universo nos exames de filosofia.

Mas dizia eu, Deus me perdoe, sou tão feio, Deus me livre que me encarasses a dizer-te isto, que o meu sucesso com as mulheres tem a taxa de êxito dos cães ansiosos por rebentar balões com a boca. Escrevo-te isto porque te vi a flutuar no interior de um vestido de seda azul celeste, hoje, na esplanada que dá para o mar. O azul fica-te bem. Li nos lábios de duas ou três pessoas que te acompanhavam numa água fresca a confirmação disto.

– Qualquer peça de roupa, mas o azul fica-te a matar – diziam, a abrir na cara sorrisos sinceramente gentis.

Daí essa tua fixação pelo oceano, creio. É difícil reparar nas deformações das ondas quando estás perto do mar. Por isso é que, Deus me perdoe, hoje, depois de te ver, fui a correr para casa embrulhar-me em poesia até as nuvens negras na minha cabeça se dissiparem por completo. E garanto-te, palavra de honra, que ao fim de uns dias sem comer e sem beber, apenas alimentado de versos, estava bonito. Vestido de céu, ao pé de ti, até eu te ficava bem.