As festas pascais de Monchique

A palavra Quaresma vem do latim e significa Quadragésima, reportando ao período de quarenta dias que antecede a festa ápice do cristianismo, ou seja, a ressurreição de Jesus Cristo, a qual é comemorada no Domingo de Páscoa, numa prática que já remonta ao século IV. Tem início na quarta-feira de cinzas, após a terça-feira de carnaval, com a celebração da missa das cinzas provenientes da queima dos ramos abençoados no domingo de Ramos do ano anterior. O roxo é a cor que simboliza a Quaresma, sendo utilizada nos paramentos litúrgicos e representa introspeção, penitência e interiorização.
A festa dos Passos, que em Monchique tem lugar do quinto domingo da Quaresma (domingo de Lázaro), é a primeira das várias festividades realizadas no concelho nesta altura do ano e também uma das mais importantes. Com grande tradição na vila, outros tempos houve em que este regozijo atraía «numerosa concorrência de forasteiros», desde devotos do Senhor Jesus dos Passos, comerciantes e «simples passeadores, havendo nessa ocasião numerosas transações comerciais». De facto era uma circunstância em que se juntava o religioso ao profano, tendo em conta que o certame que se realizava por altura da festa dos Passos era considerado o segundo mais importante do ano, logo a seguir à tradicional feira de outubro, pois também trazia a Monchique muitos comerciantes, principalmente ourives, que montavam as suas barracas no Largo da Igreja. Na Praça e Largo da Misericórdia ficavam instalados os paneiros, tendeiros, vendedores de confeitos e de amêndoas enconfeitadas e outros géneros. Na maior parte das vezes, a festa vinha acompanhada de alguma chuva, dando razão ao velho ditado «pelo Entrudo, Passos e feira, chuva na eira», levando muitos a acreditar que a única razão pelo seu aparecimento nesta altura se devia única e exclusivamente à retirada da imagem do santo do seu nicho na véspera do evento.
Tradicionalmente, a imagem do Senhor dos Passos é conduzida desde a sua capelinha até à Igreja Matriz no sábado à noite anterior à realização da festa. Atualmente este cortejo já não tem o brilho de há cerca de trinta anos, quando dezenas de pessoas, envolvidas também pelo espírito do convívio, enchiam as ruas da vila para ver passar a figura do santo. António da Silva Carriço recorda a forte tradição associada a esta procissão noturna, através de uma breve descrição em março de 1987, onde se lê que «o Largo da Portela apinhava-se de gente e os rapazes ofereciam as primeiras amêndoas enconfeitadas às raparigas. O tio Raul fazia negócio com a alcofa de alcagoitas, favas e grão torrado. Enquanto se esperava, conversava-se e comia-se. O andor surgia no arco da porta e a banda atacava com uma marcha triste. A impressionante imagem, coroada de espinhos e carregando a cruz, ajoelhava sobre um tapete de jarros e lilases, de grinaldas e lírios».
No Domingo de Passos vive-se o auge desta Festa. A imagem do Senhor dos Passos sai da Matriz, atravessando a Rua da Igreja em direção ao Largo da Misericórdia, Igreja de onde saem as imagens de São João e Nossa Senhora das Dores, «vestida de seda preta e engomados brancos, segurando nas mãos um lencinho de rendas e bordados, onde recolhia as grossas lágrimas que lhe deslizavam pelo rosto». O Sermão de Encontro era ouvido na Praça e a procissão continuava pelas ruas de São Sebastião, Terreiro, Boavista (atual Prior Francisco Jorge de Melo), Largo da Portela, Rua Direita (atual Samora Gil) e Largo da Misericórdia, até regressar à Matriz. Durante o percurso era frequente o cortejo parar e rezar nos sítios onde estavam colocados os «passos», ou seja, em pequenos altares de madeira, por vezes encostados às paredes das casas, com um painel pintado (bandeira da Misericórdia) e compostos por toalhas de linho, cobertas com velas e castiçais de prata e jarras decoradas com flores. Tradicionalmente eram amarrados sete passos, estando o sexto e o sétimo colocados junto á torre da Misericórdia e interior da Igreja Matriz, respetivamente. José Gascon documenta a participação de um farrico ou «côca», um indivíduo «que ia à frente de tudo, vestido de roupeta parda, de feitio semelhante a um balandrau, mas mais comprida e que tinha um capuz que encobria completamente o rosto e tinha três buracos correspondentes aos olhos e boca». O côca era, para muita gente, considerado o Diabo e encontrar alguém que quisesse desempenhar aquela função não era tarefa fácil, pois dizia-se «que se o homem da côca morresse dentro dela ia para o inferno». No fim do dia, a imagem do santo regressava para a Ermida do Senhor Jesus, também em procissão. A partir deste dia e até ao Domingo de Páscoa, todas as janelas e altares da igreja eram tapados com panos pretos, simbolizando o luto.
Na Monografia de Monchique, somos informados de que, até inícios do século XX, a festa dos Passos era antecedida por uns terços que se realizavam todas as sextas feiras da Quaresma na Igreja do Senhor Jesus, da qual saía «um cortejo mais ou menos semelhante a uma procissão, que seguia pela vila dando a volta da procissão, mas em sentido inverso, isto é, descendo a rua Direita, passando pela Praça, Ruas do Terreiro e Boa Vista, recolhendo novamente à ermida». Estes cortejos, que eram constituídos por cânticos e paragens nos locais onde estavam montados os passos para «encomendar o terço», acabaram abolidos por serem considerandos inconvenientes. No mesmo livro, José Gascon considera que a festividade terá tido início a partir de 1803, aquando da substituição da antiga ermida de São João em Senhor Jesus (Largo da Portela) e da adaptação à imagem do Senhor dos Passos.
Uma semana depois realizava-se a festa dos Ramos, como símbolo da entrada triunfal de Jesus Cristo em Jerusalém. E assim começava a Semana Santa. Outros tempos houve em que estas festividades causavam «admiração aos forasteiros que a elas assistiam, porque no seu conjunto ofereciam aspeto diferente das que, na mesma ocasião, se faziam por outras terras do Algarve». A Irmandade da Misericórdia era a entidade responsável pela realização destas procissões, sendo as principais insígnias conduzidas pelas pessoas de maior representação. Apesar de os cortejos não ostentarem grandes alfaias ou imagens ricamente trabalhadas, as procissões da Semana Santa monchiquense tinham grande número de participantes com as alas bastante extensas e maioritariamente formadas pelos irmãos da Misericórdia, que «chegaram a ser cerca de 600».
Até ao domingo de Páscoa, a semana estava preenchida com diversas iniciativas. Na terça-feira, conta Silva Carriço, «havia a visita aos enfermos, organizada em procissão, com uma Cruz à frente e toque de campainha», a quarta-feira era de Trevas e à tarde, na Igreja, «começava a longa cerimónia com rezas, cantos e ladainhas em latim, enquanto se iam apagando, uma a uma, as muitas velas colocadas num alto suporte triangular da medeira preta». Se neste dia as pessoas vestiam as suas roupas mais escuras, na quinta-feira santa usavam as cores mais claras, pois era considerado um dia de gala. Realizava-se a missa e sermão do «Lava-Pés» e, já de noite, visitavam-se as igrejas, que estavam enfeitadas com flores e velas e o chão coberto de rosmaninho. Seguia-se uma procissão, sendo as alas somente constituídas por homens e pela Irmandade da Misericórdia, que vestia os seus balandraus negros e transportava as bandeiras (painéis) ao alto. Este cortejo tinha o percurso inverso dos restantes, pois começava por subir a Rua Direita e chegado ao Largo da Portela fazia o «caracol», que só havia nesta procissão.
A Procissão do Enterro realiza-se na noite de sexta-feira, na qual o Senhor aparece «morto no esquife e os irmãos da Misericórdia com os capuzes na cabeça e as bandeiras deitadas». Depois, já na Igreja Matriz ouve-se o Sermão da Paixão, onde são dramatizados os acontecimentos. Numa dessas cerimónias, em 1987, Silva carriço relata o aparecimento do «Calvário», depois de chegado à crucificação de Cristo. Diz o autor que «os panos pretos que cobriam desde o cimo e em arco o altar-mor, eram corridos como num palco, emperrando quase sempre. E aparecia, então, ao centro uma grande Cruz negra com um lençol branco nos braços, dobrado em M e à volta muitas, muitas flores de papel com ornamentos metalizados, velas a arder e anjinhos de carne e osso espalhados e sentados nas peanhas ou ornatos».
No sábado de aleluia não havia nenhum tipo de cerimónia religiosa e a afluência de pessoas à igreja era muito mais reduzida que nos dois dias anteriores. Chegados ao Domingo de Páscoa vestiam-se cores mais claras e garridas, assistia-se à Procissão Real, «que percorria as ruas engalanadas com vistosas colgaduras pendentes das janelas» e davam-se as boas festas, à medida que se saboreavam os folares que, por esta ocasião, iam sendo trocados ou oferecidos.r

 

 
Bibliografia:
CARRIÇO, Silva, «Memórias das Coisas», 2.ª edição com novas crónicas, “O Monchiqueiro – Grupo de Dinamização Cultural”, Loulé;
GASCON, José António Guerreiro, «Subsídios para a Monografia de Monchique», 2.ª edição (facsimilada), Algarve em Foco Editora, Vila Real de Santo António, 1993;
MARREIROS, Glória Maria, «Um Algarve Outro – Contado de boca em boca», Livros Horizonte, Lisboa, 1991.