A toponímia monchiquense (I)

A toponímia é a ciência que estuda o nome das ruas e lugares. A expressão deriva da palavra grega topos, que nos remete para lugar, e da palavra ónoma, que significa nome. Quando visitamos uma vila ou cidade são os nomes das ruas ou lugares que nos permitem identificar o local onde estamos e nos auxiliam a encontrar o caminho ou edifício que procuramos.
Mas, para além de facilitar a localização geográfica, a toponímia também assume grande importância na preservação da memória e identidade cultural, uma vez que ao levar para as diferentes artérias urbanas nomes de figuras importantes ou acontecimentos e datas marcantes para o país ou determinada região vai estar a imortalizá-los e, simultaneamente, a dar corpo a uma certa originalidade. Muitas são as ruas, praças e largos por esse Portugal fora com nomes de personalidades que, por alguma razão, marcaram a história e individualidade portuguesa e outras ainda que refletem momentos históricos relevantes e que consolidam a identidade nacional.
Outros topónimos surgem através da própria tradição do lugar, baseados em costumes, profissões e factos que lá ocorreram e ficaram na memória de todos ou devido a determinados espaços e edifícios que se tornaram pontos de referência para a população e ainda graças a figuras ilustres que, pelo seu trabalho em prol da comunidade, se destacaram das restantes e merecem ser recordadas. Neste sentido, a toponímia é uma forma de trazer para a memória coletiva todos estes aspetos que, pelos valores culturais intrínsecos que transmitem, marcam a individualidade de cada sítio ou lugar.
O reconhecimento da importância da toponímia traduz-se na Lei, uma vez que a atribuição de topónimos prevista na alínea ss) do n.º1 do artigo 33.º Lei n.º 75/2013, de 12 de setembro desse ano, define a competência das Câmaras Municipais em «estabelecer a denominação das ruas e praças das localidades e povoações, após parecer da correspondente Junta de Freguesia».
Na vila de Monchique, isto não é exceção, e se olharmos para as placas toponímicas, facilmente nos apercebemos que quase todas as ruas têm nomes de personalidades relevantes ou acontecimentos marcantes e que outras devem a sua toponímia ao facto de ali existir ou ter existido uma construção mais significativa com o mesmo nome. É o caso das ruas do Pé da Cruz, de São Sebastião, São Pedro, São José e Santo António que assim são conhecidas devido às Ermidas que aí foram edificadas; da Rua da Igreja, que nos conduz até ao exuberante portal manuelino da Matriz, e do Largo da Misericórdia, onde até meados de 1820 esteve erguido o Pelourinho de Monchique.
Aquela que em tempos fora denominada como a «Praça do Pelourinho», ou simplesmente, a «Praça» aparece hoje nomeada, embora poucos o reconheçam, como Rua Alexandre Herculano, em homenagem ao escritor, historiador, jornalista e poeta do romantismo português. Em outros tempos, este chegou a ser maior largo da vila e estendia-se até à Igreja Matriz, aproximando-se do edifício onde a Câmara Municipal esteve instalada até 1848, na Rua do Açougue. O facto de já não aparecer qualquer referência ao monumento no Código das Posturas da Câmara em 1842, leva a crer que nesta altura o mesmo já não existisse. Todavia, no artigo n.º 48 daquele Código podia ler-se que «só será permitido expor-se à venda peixe ou outro género vindo de fora, na Praça do Pelourinho», sendo possível que mesmo sem a presença daquela estrutura no referido largo, o topónimo ainda se mantivesse. De facto, a importância deste espaço não se perdeu, pois ainda no ano de 1950, a camioneta que fazia a ligação entre Monchique e Portimão parava na «Praça» e os táxis apenas saíram dali na década de 70. De referir também que a Igreja e o edifício do antigo Hospital da Misericórdia são circundados pelas Rua e Calçada de Santo António, que passam junto da Ermida com a mesma invocação.
Descendo pela Rua de Santo António e virando à direita, entramos na Rua do Açougue, a qual entronca com a Rua do Corro. Segundo José Gonçalo, este topónimo «pode ter um sentido de curro ou curral e relacionar-se com os animais que aí poderiam ser guardados e abatidos e seguirem depois para o açougue», situado na rua com o mesmo nome, cujas instalações funcionaram até há bem pouco tempo. A Rua do Corro tem início no adro da Igreja Matriz e desemboca «no que foi um largo onde há poucas décadas se fazia uma parte da feira anual e que é uma das “portas” da vila». Esta via faz ligação com a Rua do Açougue que, por sua vez, se une ao atual Largo da Misericórdia, «em cujo extremo oposto se situava a cadeia velha».
Na toponímia monchiquense também figuram importantes personalidades da história de Portugal e da tradição da própria vila, como é o caso das ruas Engenheiro Duarte Pacheco, Dr. Bernardino Moreira ou Dom Francisco Gomes do Avelar, entre outras.
Popularmente designada como Estrada Nova, «em contraposição à Estrada, que depois passou a ser Velha», a atual Rua Serpa Pinto foi inaugurada a 16 de fevereiro de 1890, fazendo homenagem ao explorador da África Áustral «que muito contribuiu para o enriquecimento das ciências geográficas e da etnografia daquela região africana». O nome desta rua foi, no entanto, dado numa altura em que o militar se encontrava no continente africano e dez anos antes da sua morte. Uma vez que o Ultimato Inglês data de 11 de janeiro de 1890, esta inauguração pode assumir uma certa «manifestação marcadamente patriótica, como outras que então nasciam em todo o território nacional».r

(Continua)

Referências Bibliográficas:
CARNEIRO, Isabel, CAMPOS, Nuno, “O Concelho de Monchique e as Suas Armas Municipais – Da Perspectiva Histórico-Sociológica à Perspectiva Heráldica”, Comissão Instaladora do Museu de Monchique/Junta de Freguesia de Monchique, Monchique, 2003;
GASCON, José António Guerreiro, “Subsídios para a Monografia de Monchique”, 2ª edição, Algarve em Foco Editora, Faro, 1993;
SILVA, José Gonçalo Nobre Duarte, “A Igreja Matriz de Monchique”, Dissertação de Mestrado em História da Arte, Universidade do Algarve, Faro, 2012;
“A sede política municipal” – www.cm-monchique.pt
Jornal de Monchique, n.º 2 (Janeiro de 1986),n.º 15 (Fevereiro de 1987), n.º 18 (Maio de 1987), n.º 20 (Julho de 1987) e n.º 77 (Setembro de 1994).