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A memória colonial e o trabalho do artista Vasco Araújo

Nas décadas subsequentes à descolonização portuguesa foi nítida a indecisão dos artistas plásticos no tratamento da matéria colonial, incluindo o cortejo das guerras e o sofrimento que provocou. Quem arrebitou primeiro foi a literatura, a começar pelos antigos combatentes, basta pensar em Manuel Alegre, António Lobo Antunes, Martins Garcia, mas não esquecendo Lídia Jorge e os escritores africanos. Deu-se a seguir a afloração da investigação histórica, trabalho difícil atendendo à carga emotiva fortíssima daqueles que consideravam que a descolonização fora tudo menos exemplar. Hoje, são consideráveis as obras de mérito sobre a guerra, os teatros de operações e as análises retrospetivas sobre o adeus ao Império. É certo que houve o cinema muito mais cedo que a escultura, as instalações e a pintura. E, inopinadamente, foram aparecendo trabalhos e a curiosidade pública respondeu à chamada. Manuel Botelho tem vindo a distinguir-se pelas suas diferentes orientações na fotografia, na aguarela, na instalação. E Vasco Araújo revela-se imparável, é de uma curiosidade insaciável a explorar temas e apresentações reportados ao colonialismo. Acresce que manipula vários saberes com mestria no campo das ciências sociais e humanas. O livro “Demasiado pouco, demasiado tarde, Pintura, escultura, fotografia e filme”, Sistema Solar, 2015, corresponde ao trabalho apresentado no Centro Internacional das Artes José Guimarães, em Guimarães. O artista explica-se nas suas motivações: interessa-se cada vez mais por exposições contextualizadas com outros objetos, com outras peças vindas de outros contextos, objetos e lugares alegóricos, e na exposição de Guimarães cruzam-se fantasmas e a história, catadupas de plantas e jardins, coisas domésticas que remetem para o íntimo, tecidos de decoração, uma mesa de sala de jantar. E há o vídeo, objetos a falar, retratos, estátuas africanas.

Vasco Araújo não esconde a atração pelas pequenas histórias, a inversão dos centros, o próprio livro parece uma edição às avessas, uma escrita com verso e reverso. Uma exposição onde se interpenetram pintura, escultura, fotografia e filme, estampas com animais e plantas, jardins aparentemente inverosímeis, aqui é tudo da estatuária, textos aparentemente anacrónicos e há aquela mesa, talvez a peça mais aliciante da exposição em que debaixo do tampo as esculturas africanas pendem como estalagmites, como indutoras de um passado colonial que aquele tampo de mesa aparenta esquecer o peso da memória colonial. Naquele amplo espaço expõem-se, com uma sensação de herbário, temas vegetalistas e frases incompreensíveis. Mas voltemos à mesa, o fecho de abóbada desta exposição: o tampo não é liso, há para ali resquícios de uma memória descritiva e frases com conteúdo explosivo: “Enquanto houve negros viveremos no medo”, mas também “Foram feitos muitos abusos. As boas matas de café foram todas apanhadas pelos colonos. Qualquer pretexto servia. Expulsavam a população para as terras piores. E faziam escravos”. Alguém replica que esse tempo dos escravos já acabou, a resposta é discordante: “É o que se pensa, mas há. Os próprios roceiros não o negam, tal como sobre os maus tratas aos trabalhadores, mas não é bom falar. Não se pode dizer em voz alta, mas foi a verdade que eu vi. O chicote funciona todo o dia, por tudo e por nada. E ainda mandam crucificar gente”.

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E há textos aterradores, com crítica indisfarçada numa certa bonomia da memória: “O meu pai acreditava num reviralho, numa África branca na qual os negros haviam de se assimilar, calçar, ir à escola e trabalhar. Os negros haviam de sorrir-nos, sempre e agradecer-nos o que fizéramos pela sua terra, quer dizer, pela nossa terra e servir-nos, evidentemente, porque eram negros e nós brancos”. Parecem confissões mansas e bondosas, em que o rancor está ausente e o racismo mais odiento nem parece sentido: “Os escravos não se de fiar totalmente, porque estão sempre à espera da primeira ocasião para nos enganarem e fugirem. Para eles, o que conta é voltar ao local de origem, fazer tudo para regressar ao mato”. Tudo isto são memórias, os materiais disseminam-se e ganham o poder de se articular até que o visitante sente que todo este código plástico fala de um número em que é demasiado tarde fingir que aquele colonialismo tecido de relações humanas, de ordem afetiva ou sexual não foi tremendamente devastador.

Quanto ao livro “Demasiado pouco, demasiado tarde” é um prazer para os olhos pelo seu primoroso desenho gráfico.

 

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