A economia agrícola de Monchique – Resenha histórica

O dicionário da língua portuguesa atribui à palavra agricultura o significado «arte de cultivar». De origem latina, a expressão deriva de agro, que significa campo de crescimentos e de cultura, que é sinónimo de cultura ou cultivadas. De um modo geral, esta atividade consiste no conjunto de técnicas concebidas para cultivar a terra, de forma a obter produtos dela extraídos.
Vários estudos apontam o aparecimento da agricultura para há cerca de 10-12 mil anos na região conhecida por Crescente Fértil (entre os rios Nilo, Tigre e Eufrates), estando associada ao período do neolítico, quando o homem deixou de recolher os alimentos para começar a cultivá-los em virtude da sua sedentarização. Embora grande parte da alimentação ainda fosse proveniente da caça, pesca e recolha, as populações já começavam a selecionar determinados alimentos para o seu consumo e os cereais, assim como a domesticação de animais selvagens, já entravam na nova dieta alimentar destes povos.

De acordo com Domingos P. Ferreira de Almeida «a arte do cultivo das plantas e da domesticação dos animais foi-se transmitindo na Europa de oriente para ocidente e deve ter chegado à Península Ibérica há cerca de 4 mil anos». Entre os vários povos invasores contam-se os fenícios, que se instalaram no litoral do território por volta do século XII a.C., tendo fomentado o comércio e a transmissão de conhecimentos acerca do cultivo de plantas mediterrânicas, como a vinha, a oliveira e alfarrobeira e contribuído para o aperfeiçoamento dos moinhos de cereais e introdução dos lagares de vinho e azeite. Mais tarde, depois dos gregos terem introduzido a cultura da figueira, amendoeira, amoreira e loureiro, no século IX a.C., é a vez dos cartagineses que, segundo o mesmo autor, «invadiram a Península Ibérica e estabeleceram-se no sul, difundindo a palmeira, a romanzeira, o alho, a cebola e o aipo», no século V a.C. É também a este último povo que se deve a primeira instalação de regadios no Algarve.

Monchique caracteriza-se pela sua localização em plena serra, na qual ainda hoje abundam muitas nascentes de água, estando a vila situada entre duas altas montanhas sobre um vale fértil e arborizado. As várias fases de desenvolvimento deste lugar, ao longo do tempo, são amplamente conhecidas, com destaque para os romanos que exploraram as «águas sagradas» das Caldas de Monchique e para os árabes que ocuparam o Castelo do Alferce. De facto, as características naturais da serra não são de agora, pois logo após a reconquista do Algarve, falava-se na cidade de Silves estando «rodeada de uma horta feracíssima e próximo de uma montanha rica de pastos e águas correntes». Por volta dos séculos XII e XIII chegam também as primeiras referências aos muitos moinhos espalhados pelos campos da «Silves arábica», assim como aos vinhos algarvios, cuja maior produção se concentrava em Silves, Monchique e Lagoa.

Até à sua definitiva elevação a vila em 1773, Monchique aparecia sempre designada como «lugar», o que pode indicar um pequeno aglomerado urbano, não muito importante. Contudo, a sua localização privilegiada tornou-o num dos principais centros político-administrativos, não só do extenso território de Silves (ao qual Monchique pertencia), mas também da região algarvia. O prestígio deste local aparece corroborado na crónica de Garcia de Resende, na qual vem relatada a viagem de D. João II a Monchique em outubro de 1495. Através desse documento, citado por José Gascon na Monografia de Monchique, somos informados que o monarca, antes de partir para as Caldas de Monchique, local que escolhera para se restabelecer da enfermidade que o debilitava, passara duas noites nesta localidade e doara «ao povo de Monchique um baldio na Serra da Fóia que era então povoado de grandes matas de sobreiros, carvalheiros e adelfeiras». José Rosa Sampaio confirma as culturas existentes no terreno e acrescenta que «a população podia utilizá-lo mediante certas regras comunitárias e consuetudinárias, para apascentar o gado, recolher folhas, lenha, pinhas, pinhões, castanhas, cogumelos, frutos silvestres, etc». O historiador, em alusão a Costa Lobo, conta ainda «que o cabeço da Fóia que D. João II doou ao povo, como logradouro comum, em breve foi despojado do arvoredo, tendo as queimadas destruído até ao último vestígio os primitivos sobreiros e azinheiras». Este baldio acabou aforado e dividido em courelas pela Câmara Municipal, em 1826.

Quando D. Sebastião visitou Monchique em 1573, ainda ela era um lugar do termo de Silves, mas a sua relevância levou o monarca a conceder-lhe o estatuto de vila, facto, porém, que não foi aceite pelas forças da cidade de Silves. Na segunda metade do século XVI, Frei João de São José descreveu, na sua Corografia do Reino do Algarve, as potencialidades económicas do Algarve; que diz ser uma terra farta e sem dificuldades, pois apenas carecia de cereais. Sobre Monchique, o autor afirma que «(…) o sítio deste lugar parece maravilhoso a todo o homem que considera os segredos da natureza, a qual repartiu todas as cousas e as pôs em seus devidos lugares pera ornato e conservação do Universo. (…) tem Monchique em todo o reino do Algarve porque nele somente, Inverno e Verão, correm os mesmos ares, nascem as mesmas águas, se acha todo o género de fruta, isto é, a cereja, a castanha, o pêro, a laranja e todo o mais que costuma recrear e dar deleitação à natureza humana».

As descrições do lugar de Monchique, pelas suas características físicas e naturais mantêm-se ao longo do século XVII, contribuindo para a valorização do local. Henrique Fernandes Serrão relata que este «é de trezentos moradores, muito ameno e aprazível, de muitas águas frigidíssimas e boas, de muita caça e montaria. Tudo é cercado por pomares deleitosos, em que há castanhas, nozes, peras, maçãs e outra muita fruta; tem muitas vinhas muita criação de gado, muito mel e cera e pão, e frescos bosques, regados de perenes fontes e saudosas ribeiras, em que estão muitos moinhos, e pisões».

No alvará de 16 de janeiro de 1773, que decreta a elevação de Monchique a Vila, são mencionadas as principais razões que justificavam esse estatuto, nas quais se encontrava a inexistência de vias de comunicação entre o litoral (Vila Nova de Portimão) e a Serra (Monchique), o que dificultava não só a circulação de pessoas, como também o tráfego comercial, limitando as comunicações e o comércio «das uteis, e necessárias Madeiras de Castanho; das abundantes frutas, e das mais produções, em que he fértil a referida Serra». A verdade é que o escoamento de produtos e o abastecimento das principais cidades e vilas do Algarve Ocidental estava dependente da segurança e eficácia destes caminhos, pelo que se entende a importância que o Porto de Portimão exercia já nesta altura para a chegada e partida de mercadorias. É nesse sentido que surge o aviso de 22 de janeiro de 1773, ordenando a criação de uma Carta Topográfica das quatro léguas entre Monchique e Portimão, com o alinhamento dos caminhos que se devem abrir para a comunicação de ambas as vilas, que punha fim ao isolamento de Monchique e incentivava o desenvolvimento económico, através do escoamento de produtos para o litoral.

A construção da estrada para Portimão parece ter fomentado a atividade agrícola de Monchique, tal como comprova o «Mapa Comparativo das Exportações», elaborado pela Alfândega de Portimão, relativo aos anos 1832-1836, onde se lê que o concelho serrano contribuiu com diversas produções, como madeiras de castanho e outras, ripas, aduelas, arcos de pipa, cortiça, vimes, resina, cera, azeite, feijão, castanhas, laranjas, limões, linhaça, linho, ovos, vinho, passas de uva, entre outros.
De um modo geral, até há poucos anos, conforme indica José Rosa Sampaio «o concelho de Monchique dependeu largamente de uma economia de tipo rural», apoiando-se «sobretudo numa economia agrícola de tipo minifúndio familiar, mas também nas quintas muradas e nalguns médios e grandes latifúndios, onde o proprietário absentista tinha algum peso», sendo as sementeiras feitas «com pousios e rotações dos produtos lançados à terra».

Muitos dos agricultores monchiquenses limitavam-se a cultivar produtos para consumo próprio, comprando, «apenas para comer, os artigos de mercearia». As técnicas que utilizavam eram, na sua grande maioria, ainda muito rudimentares, recorrendo à ajuda de um burro para puxar o arado e assim lavrar os canteiros. Por norma, «em Monchique as culturas que aparecem sempre juntas são o milho e o feijão e abobreiras semeadas a seguir à arrenca das batatas». Outros haviam que exploravam as suas hortas a tempo inteiro e com objetivos lucrativos, comercializando os excedentes delas resultantes nos mercados da vila e concelhos limítrofes. Os vendedores estabeleciam-se na Praça Alexandre Herculano e aí vendiam, aos domingos, sábados de manhã e dias de mercado, hortaliças e diferentes variedades de fruta. A construção do Mercado Municipal veio trazer um maior incremento ao comércio agrícola de Monchique, permitindo que os produtos fossem «vendidos por alguns revendedores, mas também por muitos agricultores que assim já não o necessitam fazer a céu aberto e sem nenhuma estrutura».
Atualmente, o cenário já não é o mesmo. Os campos perderam mão-de-obra e a agricultura tornou-se uma atividade secundária, face ao envelhecimento dos agricultores e à desertificação que nos últimos anos tem atingido, principalmente, os meios rurais.

Bibliografia:
CARVALHO, Augusto da Silva, “Memórias das Caldas de Monchique”, Edição da Comissão Administrativa das Caldas de Monchique, Lisboa, 1939;
GASCON, José António Guerreiro, “Subsídios para a Monografia de Monchique”, 2ª edição, Algarve em Foco Editora, Faro, 1993;
MARREIROS, Glória Maria, «Um Algarve outro contado de boca em boca», Livros Horizonte, Lisboa, 1991;
MATEUS, Ana Rita, «A Elevação de Monchique a Vila», Monografia do Curso de Licenciatura em Património Cultural, Universidade do Algarve, 2013;
SAMPAIO, José Rosa, «Os Anos de Ouro da Agricultura Monchiquense – Uma Resenha Histórica», 2.ª edição, Monchique, 2016;
TELO, Américo, «Da economia agrícola de Monchique. Alguns elementos da sua evolução até ao século XX», in Um Percurso Histórico Um Património a Valorizar, I Jornadas de Monchique, 29 e 30 de Abril de 2000, Comissão Instaladora do Museu de Monchique/Junta de Freguesia;

Jornal de Monchique (edição n.º 31, março de 1988)

Infografia:
ALMEIDA, Domingos P. Ferreira de, «Evolução Histórica da Agricultura», in http://dalmeida.com/ensino/historia.htm (visualizado a 26 de abril de 2016)

*Técnica Superior de Património