Vulcão Misti

Depois de Puno segui para Arequipa, cidade património da UNESCO, conhecida como a “Cidade Branca”, com o seu centro histórico muito bonito, mas cravejado de turistas.

Daqui vislumbram-se dois colossos, o vulcão Chachani (6.075 m) e o vulcão Misti (5.822 m).

Optei por ir ao segundo por perceber que tinha menos gelo no topo e por ter garantias de apanhar transporte público até mais perto do início do trilho.

Descontraído da vida, fiz-me à estrada bem cedo sem antes ter avisado para onde ia. Na receção do hostel acharam estranho este meu protocolo de segurança, possivelmente por não ser muito habitual alguém seguir a solo para um local desta natureza.

Depois de tomar o pequeno-almoço numa banca de estrada, apanhei o autocarro até perto do estradão que conduz ao trilho do vulcão.

Apesar de ser um estradão praticamente sem movimento, tive boleia nos primeiros quilómetros, com uma paragem forçada para tirar o carro de uma valeta.

Mesmo no início do trilho (3.415 m) dei cabo do último eucalipto da zona para apanhar um pau que me ajudasse na subida. Felizmente aí estava essa árvore invasora mesmo à minha espera.

Os primeiros quilómetros até ao acampamento base (4.500 m) decorreram sem grandes problemas. É aqui que costuma pernoitar quem vai ao topo do vulcão, mas como as minhas aventuras são de um dia só, segui trilho acima. A grande maioria das pessoas faz este trajeto em dois dias. Neste dia apenas estive eu na montanha, pelo menos por esta vertente não subiu mais ninguém.

A partir dos cinco mil metros de altitude é que as coisas se complicaram mais. Se no início tinha gosto em olhar para trás para ver o que já tinha percorrido, a determinada altura já não o consegui fazer, pois causava-me vertigens. Chegaram também os vómitos a ponto de numa das vezes em que vomitei ter uma sensação estranha por me sentir bem a fazê-lo, talvez por estar de joelhos numa posição de descanso.

Sempre que parava tinha a sensação de que quando recomeçasse iria percorrer uns belos metros, mas mal dava alguns passos as pernas queriam novamente parar, sinal notório da altitude a que me encontrava, pois o menor quantidade de oxigénio que chega ao corpo não permite grande ação muscular.

O que me causou mais angústia foi ter atingido a cratera do vulcão, vislumbrar o topo e a bandeira que o assinala, estando a uns escassos quinhentos metros desta, com oitenta e cinco metros de ascensão, o que o fazia ser um troço fácil e ter de regressar para não apanhar os trilhos finais já de noite e para não perder o último autocarro para a cidade, já que tinha noção do tempo que me tomaria o regresso.

Mesmo a descida foi cansativa a correr vulcão abaixo em “passos de gigante” como lhe chamo, com a cinza a entrar nas sapatilhas a ponto de ser tanta que estas queriam saltar dos pés.

No regresso encontrei um grupo no acampamento base que me olhou com alguma estranheza. Não me dei ao luxo de perder aí qualquer tempo pois estava quase a anoitecer. Mesmo assim ainda tive de fazer os últimos sete quilómetros de estradão já de noite com uns cães no final a me importunarem um pouco, mas nada de especial.

Cheguei à estrada principal poucos minutos depois das seis e meia, horário do último autocarro e pensei que talvez já tivesse passado pelo que comecei a caminhar estrada fora. Pouco tive de andar até que este passasse e por sorte parou na escuridão. O motorista não queria parar, mas mesmo em cima a senhora responsável pela cobrança dos bilhetes disse-lhe que era um “gringo”, confessou-me esta já no autocarro. Felizmente não tive de voltar a pé para a cidade em plena noite. Naquela altura não me apetecia mesmo nada fazer cerca de quinze quilómetros extra.

Esta incursão ao vulcão Misti para além do cansaço deixou-me com uma bolha no dedo grande do pé direito que ganhei com a cinza que tinha na sapatilha e com a qual teria de lidar nos próximos dias.

Para primeira experiência numa montanha desta altitude e apesar das sensações estranhas que fui sentindo, tudo correu pelo melhor, apesar de ter descurado alguns pormenores. Deveria ter descansado melhor na noite anterior, já que estive a beber umas cervejas com a malta no hostel, poderia ter partido uma hora mais cedo, preparado antecipadamente o pequeno-almoço e consumido uma bebida isotónica que me agradasse mais beber, já que a que levei foi de produção caseira (água com açúcar mascavado e sumo de lima) e não sabia nada bem. Também o pormenor do pau para a subida deveria ter sido acautelado trazendo um bastão, que me auxiliaria na subida e também nos meus encontros com os espécimes da raça canina.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *