«Viver depressa, morrer cedo»: o que diz a ciência?

Jorge Vieira, investigador no recém criado Instituto de Investigação e Inovação em Saúde (i3S), afirma que a veracidade ou falsidade desta frase depende da forma como contamos o tempo. E para atestar a afirmação remete-nos para trabalhos experimentais realizados com Drosophila america e publicados recentemente pela equipa que lidera, na PLOS One (http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4580583/). No estudo, os investigadores verificaram que em determinadas condições, neste caso o frio, estas moscas entram num processo de envelhecimento tão lento que quando colocadas novamente em condições óptimas estão quase tão jovens como no dia em que começaram o período de frio.

Jorge Vieira explica-nos que as moscas, quando sujeitas a temperaturas mais baixas ou a restrição calórica, são capazes de reduzir a velocidade de envelhecimento, contudo têm que viver mais devagar. “Temos o hábito de medir o tempo com base na rotação da terra, mas a natureza não mede assim”, afirma o investigador. “Para os seres vivos, para as células, o tempo é uma dimensão ontogénica”, ou seja, depende da velocidade com que a vida é vivida, explica Jorge Vieira. Os insectos são excelentes modelos para estes estudos pois, em condições adversas, são capazes de alterar o metabolismo de tal forma que os órgãos reprodutores, os músculos e outros tecidos não envelhecem. A este período chama-se diapausa.

Uma das moscas criadas por este grupo de investigadores viveu 11 meses em condições de diapausa, embora a esperança média de vida desta espécie seja de apenas 2 meses. Se extrapolarmos para a espécie humana, assumindo uma esperança média de vida de 90 anos), esta mosca viveu o equivalente a 495 anos. Contudo, não viveu para sempre, o que significa que, apesar de lentamente, essa mosca também envelheceu. “Alguns autores que realizaram trabalhos noutra espécie, a Drosophila melanogaster, afirmam que durante a diapausa não há envelhecimento de todo”, explica o investigador, “o que em teoria significaria que, em determinadas condições, seria possível manter a mosca viva eternamente. No entanto, não é isto que verificamos.”

Recorrer a moscas que vivem alguns meses para estudar evolução, onde o tempo se mede em milhares de milhões de anos, pode parecer contraditório, mas não é. Na verdade, o curto ciclo de vida destas espécies permite, a curto prazo, observar fenómenos que noutros modelos levariam centenas de anos. Com base na diversidade genética e fenotípica de populações selvagens, Jorge Vieira persegue uma questão: quais as condicionantes genéticas que determinam a capacidade de envelhecer devagar e como é que estas se distribuem pelas diferentes populações de D. Americana.

As populações desta espécie variam muito entre si, quer na forma ou na rapidez com que vivem, quer no modo como respondem a situações que desaceleram o envelhecimento. Os investigadores têm vindo a descobrir que “há um conjunto de genes responsáveis pela velocidade com que as Drosophila envelhecem”. Mas nem todas as moscas, nem todas as populações, respondem de igual modo às condições do meio e “isso depende muito da sua composição genética”, afirma o investigador. Parece, segundo outros trabalhos (ver http://www.iflscience.com/health-and-medicine/scientists-confirm-people-age-different-rates; http://www.pnas.org/content/112/30/E4104), que o mesmo se aplica aos humanos mas ainda estamos muito longe de perceber o segredo dessa eventual da fonte da juventude.

Ciência na Imprensa Regional – Ciência Viva

Autor: Júlio Borlido Santos (i3S)

 

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