Vitória do riso sobre a estupidez (XVII)

Amanhã é o dia! Esta é uma certeza de pedra: amanhã é o dia! Em breve chegará a hora de dizer:

– É agora!

Ainda trago entranhados nos ouvidos os gritos com que o Noureddine exultou após o reencontro. Passou muito tempo desde que depus as armas. Nessa altura, no dia em que terminei a minha primeira missão, havia ainda demasiado sangue e dor e remorosos nos meus pensamentos. Já existia pouco espaço para Deus, como não há agora, outra vez.

– Deus não cabe onde o mal é infinito. Dentro destes homens, nos tiros destas armas, só há escuridão, vazio, deserto. É sempre de noite no lume das explosões. Aqui, só há deserto. Dentro de mim e à minha volta, não se vê vivalma. – pensei, nos instantes em que desertava, a sentir um sabor de incêndio no fundo dos pulmões.

De maneira que o reaparecimento do Noureddine foi uma tempestade de areia nos meus sonhos de amor. Sabia o que me esperava naquele abraço de masmorras, cheirei de novo a pólvora e ouvi os santos vivas a Deus nos poros da pele arrepiada. Serão também essas as minhas últimas palavras. Mas não ainda. Entre essas e estas que aqui escrevo e existirá um Paraíso de distância.

Não me sobeja outra escolha, senão esta que desencadeará coisas que nem eu próprio imagino. Quem entra nos caminhos ínvios do mal, leva-os consigo para sempre como o fumo dos enchidos. E eu fiz de tudo, achando que aquilo que fazia estava certo: fingi voltar a uma vida normal, esperei que o amor fosse um caroço por onde as raízes agarram os penedos mais remotos de um coração agreste. A paciência é tudo. A Lieva foi só o princípio. Mas nem para cuidar de um cão a minha alma teve mérito e perseverança. Tentei substituir os deuses metafísicos pelas paixões pagãs. À semelhança de todos os homens e mulheres deste mundo, inventei deuses para que pudesse aceitar a minha imperfeita condição. Sonhei uma deusa Celta na minha imaginação e criei-a à minha imagem e semelhança. Foi preciso um dia para o fazer e esse dia veio: o dia em que a cadela desapareceu ao lado de uma desconhecida.

Tudo o que procurei foi viver um monumento com essa deusa. Sim, um monumento, não um momento, não me engano: um monumento. Queria erguer qualquer coisa da mais fina, de sublime imponência, um volume metafísico que todos pudessem olhar, deter a atenção e suspirar como se contemplassem a recordação mais bela da capacidade infinita que os seres humanos têm de procurar o a eternidade pela beleza.

Até há bem pouco, até ao despertar de há instantes, julguei não ter um destino diferente daquele que Ele me talhou. Muitas vezes, pensei ter fracassado. Nessas ocasiões, deixava que os corvos a devorassem o nascimento do pássaro da minha morte nova. Mas uma mulher muda tudo. O rosto de uma mulher bonita foi quanto me bastou para idealizar uma nova história para mim. Procurei-a nas sombras, nos lugares mais remotos e nas tempestades. Era preciso disfarçar, mostrar àqueles que me rodeavam que a minha aventura no oriente tinha sido um refúgio no pior de Deus que há nos homens e que agora, sim, estava a voltar a viver. E, tal como acontece a qualquer um que se entrega às futilidades, deixei-me levar nos ventos do acaso. Julguei que a ira de Alá estaria no olho de uma tempestade que tudo vê e não dorme e não se fecha. Foi isso que me fez chegar a esta cidade e a este quarto onde a manhã entre pela janela suspensa numa luz prateada, de trombone reluzente. O tom é limpo: quase que se ouve este brilho tocar. Aqui estou, nos derradeiros instantes da minha missão final, à espera de um último contacto do companheiro desta luta de mártires e de santos.

Vejo agora a vida a abrir-se toda atrás de mim. Aberta e superável como um muro que acaba de ruir, deixando o horizonte à minha mercê. O telemóvel tocou há uma hora: uma mensagem escrita. Julguei que fosse o Noureddine a dar-me as últimas instruções ou a pedir-me que rezasse as minhas últimas preces. Não era ele.

Será tarde de mais?

Sinto-me perfeitamente capaz, senhor de mim. Tenho de renunciar à vontade Dele. Não posso transportar no meu destino as Suas decisões. Este cargo que me foi atribuído pelo Noureddine é de responsabilidade insofismável, como todas as letras das escrituras do Livro Sagrado. Mas, neste momento, sou já um herege, como uma impressão digital do demónio nas sepulcros dos profetas.

Será tarde de mais? Tenho uma fé incansável, insuperável, a obediência é cega, mas a minha liberdade de criar voltou de novo. Quero um monumento! Creio na superioridade dos fiéis. Por parte dos infiéis, tudo me será agradecido e perdoado. Este será o privilégio da purga. Com Deus, falarei depois, na hora do Juízo.

O telemóvel tocou.

O Noureddine comprou um par de telemóveis ontem, numa loja do aeroporto de Dublin, onde nos encontrámos, tal como previamente combinado.

– Liga-te ao whatsApp. Vai ser a partir daí que te direi o que fazer, como se fosse o profeta em carne e osso. Não o utilizes para nenhum outro fim, ouviste, cabrão?

– …

– Ouviste?!

Silêncio.

– Ouviste ou não?!

– Ouvi!

E desapareceu como os deuses desaparecem quando precisamos deles.

Lembrei-me imediatamente da minha mãe. Antes de descolar, tinha prometido a mim mesmo dizer-lhe qualquer coisa, uma última palavra, um último adeus sob a forma de enigma, o que quer que fosse, antes do momento final.

Ontem, desobedeci ao Noureddine e cumpri a promessa que havia jurado a mim próprio. Telefonei à minha mãe. Disse-lhe que estava bem. Que estaria muito melhor hoje.

A minha mãe estava visivelmente preocupada. As palavras dela chegavam enrugadas, com suspiros no fim. Chorou. Perguntou-me onde estava. Respondi:

– A caminho do Paraíso. — E desliguei.

O telemóvel tocou há instantes. Era uma mensagem escrita. Diz, com a ansiedade de quem há muito se esqueceu de fazer respirar as frases escritas:

Filho tudo bem olha apareceu aqui uma rapariga muito bonita trazia a tua cadela e uns corvos presos por um cordel diz que a encontrou perdida na rua e que a quer devolver. O teu vizinho vinha com ela foi ele que me traduziu tudo para português. Ela diz que espera por ti porque deixaste o currículo há tempos na livraria dos pais dela. Diz que veio para uma conferência e que gostava de falar pessoalmente contigo.

Li a mensagem e o caminho abriu-se à minha frente. Amanhã, o meu rosto e o do Noureddine estarão nas capas de todos os jornais de todo o mundo. O rosto dele, porque a minha denúncia o deterá a tempo. O meu, porque vou afirmar que foi Deus quem mo ordenou que o fizesse. Tenho provas: os corvos.

FIM

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