“Sem justiça não há paz”, Prince na canção No justice no peace

Não há espaço para me entediar com as novidades do mundo. As boas mantêm-me encantada. As más desiludem-me com os resultados da evolução. Também acendem desejos inóspitos: que um novo big bang se dê, e faça retornar os imbecis sem cérebro de volta ao nada cheio de vazio. É lá o seu lugar.

Todos temos conhecimento, mas fingimos desconhecer. É um desconseguimento colectivo. O elefante na sala do qual não falamos. Direi também, passivamente aceitamos. O um por cento (1%) que detém a riqueza do mundo e com ela compra leis, políticos, meios de informação e comunicação, para que possam aproveitar e guardar só para si o fruto da riqueza que pertence a todos os seres humanos envergonha-me como membro da raça humana. Se nuns países não é possível, o dinheiro pede refúgio em paraísos entre coqueiros e malibus.

Noutros, como na terra americana de promessas e sonhos, as leis permitem que dentro dos seus campos de cereais e casas abandonadas por bolhas rebentadas, o dinheiro possa ficar nas mãos dos ladrões.

Não pagar impostos significa roubar desenvolvimento. Ou nunca precisariam esconder fora de portas o dinheiro.

Ladrões são todos aqueles que alimentam guerras pelo prazer puro de entretenimento. E acumulam as riquezas fruto dos roubos. O prémio é o poder de mandar, de comprar, de vender, de destruir, de subjugar.

São todos estes os verdadeiros criminosos.

Não os pilha galinhas ou os que são obrigados a fugir das suas vidas, porque estão a mais no jogo desta violenta guerra transformada em jogo.

Numa voracidade predadora e enlouquecedora, que nos desliga do melhor da natureza humana.

Se não levarmos para o fundo do mar o barco que leva o dinheiro para as offshores não vão parar de chegar os barcos que trazem gente.

Não podemos deixar de falar nisto. Nem podemos continuar a anuir e a aceitar passivamente este estado de “laisser-faire, laisser-passer” sob pena de continuarem a lucrar sobre as nossas vidas e os nossos cúmplices silêncios e anuências.

Evoluímos de caçadores a predadores pelo sistema que criámos e a ele nos vendemos.

Dos papéis e dos panamás sabemos que escondem no sub-solo desta montanha everestes de ninhos de hienas, de vírus que se reproduzem como coelhos, só descansarei quando me devolverem o dinheiro (os impostos não pagos) num pote gigante chamado cultura, sob a forma de escolas, de conjuntos de lápis de cor e pincéis para quem queira criar, de professores sábios, de músicos bem pagos, de instrumentos mágicos, de livros de autores que fazem da literatura obras d´arte, de palcos para artistas representarem a vida, ou com as suas vidas imitarem a arte. Na pretensa miséria discursiva de medidas adicionais de austeridade ou ameaças de bancarrota com os povos, os Estados vendidos que se cuidem. Já não enganam. Os valores envolvidos nestas operações de limpeza, escondidas de olhos de cidadãos curiosos, são a parte que foi sonegada a cada cidadão de cada país. Quando forem devolvidos a todos, ficaremos então descansados e saberemos também que os valores cobrem as restantes despesas de infra-estruturas básicas, saúde, justiça, educação, ideais e sonhos para todos. Até lá, agradeço que não me tentem manipular nem me enfiem barretes.

Como um movimento telúrico que abana o centro das nossas consciências, nenhum ser humano será livre enquanto outros seres humanos estiverem cobertos pela miséria, despidos em classes inferiorizadas, em agonia nas prisões pelo crime de fome. Por ser insustentável esta forma de viver temos de ter outra maneira de ser.

E eu no meio do caos e da loucura vejo-a levemente despontar, e, pedir para nascer. Só por essa razão não enlouqueço.

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