Romance da casa do Largo

Abílio de Mattos e Silva (1908-1985) – sem título, não datado
Abílio de Mattos e Silva (1908-1985) – sem título, não datado

“Há um movimento sem explicação
em que a porta da casa nos resiste”
Tolentino Mendonça In “O viajante sem sono”

 

Conheci-a sempre. A ela, àquela casinha que nasceu muito antes de mim. Ali, no Largo que dá a mão à Praça. Mas não sei se o Largo não teria sido já Praça, ou se a Praça não teria sido já Largo. Só sei que a conheci sempre agarradinha à “ Casa da Praça”, senhora opulenta e fidalga, com as arestas das cantarias biseladas, prova indesmentível da sua origem quinhentista. Pequenina e humilde, mas cheia de graça, de dignidade e beleza. No meio do Largo esteve implantado o Pelourinho, frente à igreja, datada de 1680, e que apertava no seu amplexo de misericórdia, o Hospital, depois o Asilo e a Farmácia. Estes serviços ainda eu conheci.

E o Largo inclinava-se reverente e descia como um riacho pela ruela, até ao adro da Matriz.

Não pretendo fazer História. Digo o que sei (ou que me mentalizei) sem me preocupar com a verdade histórica, mas apenas contar o romance da casinha do Largo. Embora haja sempre “um movimento sem explicação em que a porta da casa nos resiste”, aquela porta, que tinha sido de “cavalo”, com a metade da direita separada, horizontalmente, em duas, não conseguiu resistir à entrada da minha memória. O tempo – que é lembrança – teve esse “movimento sem explicação”, que não conseguiu resistir-me. Há uma coisa aqui a que eu não consigo chegar: se naquela estrutura havia um 2.º andar ou não, ou apenas uma água-furtada.

 

Numa fatia de fachada tão breve, havia três portas. Numa metade saliente que dava para o Largo, a tal porta de cavalo era a entrada para o vão da escada onde estava instalada uma apertada mercearia. A outra porta era a principal, com escada de acesso aos lados direito e esquerdo do andar. A parte esquerda do edifício era recuada, com porta para a Praça. Neste pequeno espaço conheci um estabelecimento de bebidas engarrafadas (onde pela 1.ª vez apareceu à venda o “Mel d´Oiro”), guloseimas e, por vezes, fruta e hortaliças. Mais tarde tornou-se um “lugar “ só de produtos hortícolas, vendidos por uma senhora extremamente simpática. E com este negócio se manteve até ao fim. O 1.º andar esquerdo tinha uma sacada de ferro forjado que se encaixava, em profundidade, na largura que o separava da parte direita. Nas duas divisões desse apartamento funcionou o ateliê de uma pessoa da minha família, que tinha vindo a Lisboa tirar um curso de corte e costura francesa.

Na mercearia havia de tudo, mas tornou-se famosa uma “manteiga de vaca” (com que, então, se distinguia a manteiga da banha de porco) que era tirada duma grande lata cilíndrica, com uma espátula e colocada numa espécie de papel vegetal, e vendida a peso. Uma delícia. Ao aparecerem os plásticos encheu-se deles, pendurados e entremeados com brinquedos de lata e de madeira ou velas de “cebo d´Holanda” para amaciar as botas de “atanado,” e de um mundo de utilidades.

No 1.º andar direito, uma janela com uma grade de madeira como parapeito, onde a mulher do dono da mercearia se tornava decoração da moldura da janela. Ou então, como se fosse um permanente namoro entre ela, pessoa de certo modo avantajada, e o marido, baixo e magro de guarda-pó de cotim cinzento, respeitado e estimado por todos.
O semanal era à segunda-feira e vi-os muitas vezes a passear nessas tardes de segunda, pela Estrada do Alentejo. Um bonito retrato de um casal já passado da meia-idade, mas feliz.
Até que um dia … ela morreu.

Roído de desgosto ele vendeu o prédio desfazendo-se do estabelecimento. Naquele recanto deixou de existir casa de costura, lugar de fruta e o roçar da carícia do amor. E partiu de abalada para Lisboa – talvez a grande cidade lhe afogasse as mágoas.

Aí, não se sabe como, mas imagina-se, foi vítima de um amor serôdio. E uniu-se a uma mulher com menos de metade da sua idade. Que se serviu das suas carências amorosas para lhe ir extorquindo tudo o que tinha amealhado com uma vida de trabalho. Depois de o saber sem nada, abandonou-o.
Numa tarde de sol de outono, já com nuvens vermelhas a banharem-se no Tejo, foi parar ao Viaduto Duarte Pacheco e, em voo picado, atirou-se lá de cima para a profundeza do abismo.
Agora, a casinha do Largo conhece um novo amor. Como se o romance tivesse continuação…

…. A Mitologia grega conta a história de Pandora, a mulher perfeita, criada à revelia de Júpiter, e que foi dotada de uma beleza fascinante e de todas as graças, virtudes e aptidões. Júpiter mandou-a chamar à sua presença e entregou-lhe uma caixa com ordem de a entregar a Prometeu, autor da sua perfeição. Mas a caixa foi-lhe tirada e aberta por um Titã, irmão de Prometeu. Logo nesse momento se soltaram lá de dentro todos os males do mundo, que se espalharam por todos os humanos para sempre. Apenas ficou no fundo da caixa uma virtude – a Esperança. É isso que nos resta em relação ao romance da casa do Largo. Que já foi arrasada. E vai viver na continuação do romance:

Um “holandês errante”, depois de correr mundo voltou ao seu país natal. Uma rapariga do Algarve, (de Tavira), estava lá a trabalhar num campo de tulipas. Ele, na sua errância, já tinha passado por Monchique. Ficou apaixonado pela terra e, logo dessa primeira vez, pela casinha do Largo. Na Holanda encontrou-se com a algarvia e, numa chama de amor correspondido, fê-la sua companheira. Monchique era o seu alvo. O seu destino. E veio e disse que já daqui não queria sair. Comprou a pequenina casa que estava à venda e que foi destruída pedra a pedra para fazer uma nova construção. Não faço ideia de como virá a ser o traçado arquitetónico do novo edifício. Pode ser que a esperança sopre bons ventos no desfolhar do romance da casinha.

Todas as casas têm uma história. Porque são uma coisa viva. Que vai ficando, história a história, vida a vida, cada vez mais rica e preciosa. Porque vai tendo por fora, mas sobretudo por dentro, as camadas da respiração, do espírito de cada um e de todos que a habitaram. Daí o meu fascínio.

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