Reflexões sobre monumentos religiosos de Monchique

A referência escrita mais antiga que se conhece sobre a povoação de Monchique remonta a 1495, quando o então rei de Portugal D. João II se deslocou a esta serra para usufruir das águas mineromedicinais que brotam nas afamadas Caldas. O soberano e a comitiva real pernoitaram duas noites no lugar de Monchique, ou seja, nesse ano já existia um povoado com estruturas habitacionais e condições de alojamento, possivelmente concentradas entre a zona do Pomar Velho e a provável área primordial do núcleo urbano – a colina que se desenvolve, grosso modo, entre a rua da Fonte do Castanheiro e a rua do Castelo. Porém, é admissível que antes dessa data já existissem no atual território concelhio de Monchique edifícios religiosos, de origem cristã e/ou islâmica. Desde as primeiras décadas do século VIII até à primeira metade do século XIII que este território serrano esteve sob o domínio muçulmano – subsistem vestígios arqueológicos no Cerro do Castelo de Alferce e no Cerro do Castelo da Nave –, portanto é expectável que durante essa ocupação de aproximadamente quinhentos anos tenham sido construídas estruturas religiosas nesta “Montanha Sagrada”. A própria povoação de Monchique poderá ter origem islâmica ou, quiçá, remontar a uma época ainda mais antiga.

Importa evidenciar que a distinção entre ermida e capela relaciona-se com o facto de a primeira se situar fora do povoado, embora na atualidade (devido à expansão urbana) possa estar no interior da localidade. Facto semelhante ocorre entre convento e mosteiro: o primeiro usualmente edificado dentro das povoações e habitado por frades/freiras pertencentes a uma ordem religiosa mendicante; o segundo geralmente construído fora dos povoados e ocupado por monges/monjas de uma ordem religiosa monástica. Considerando a incontornável obra de José Gascon, na envolvência da atual vila de Monchique existiam no século XVIII onze edifícios religiosos, designadamente: Igreja Matriz de Monchique, Igreja da Misericórdia, Convento de Nossa Senhora do Desterro e as ermidas/capelas de Nossa Senhora do Pé da Cruz, de São João (designada por ermida do Senhor Jesus dos Passos a partir de inícios do século XIX), de São Sebastião, de São Pedro, de São José, de Santo António, de Santo André e de Santa Brígida. Deste total encontram-se atualmente em atividade somente cinco, nomeadamente as duas suprarreferidas igrejas e as ermidas do Senhor dos Passos, do Pé da Cruz e de São Sebastião – esta última é constituída por dois corpos diferentes, salientando-se que a parte de planta quadrangular possui uma cúpula sob o atual telhado e será a mais antiga, possivelmente anterior ao século XVI e de influência islâmica, visto que se assemelha aos morábitos existentes em Alvôr. Os restantes edifícios religiosos encontram-se destruídos ou então foram transformados para usos profanos. É provável que, à semelhança do pelourinho de Monchique, o desaparecimento/transformação destes seis monumentos religiosos esteja relacionado com a Guerra Civil Portuguesa (1828-1834) ou com a conjuntura que se seguiu – com a consolidação do liberalismo. Em 1834 o rei D. Pedro IV decretou a extinção das Ordens Religiosas (masculinas) e a nacionalização dos seus bens, realçando-se que nesse contexto declarou extintas as casas religiosas de todas as ordens regulares – conventos, hospícios, mosteiros, etc. Dessa forma, vários edifícios religiosos foram vendidos em hasta pública e, consequentemente, transformados para outros fins – facto que sucedeu em Monchique por exemplo com as ermidas de São José, São Pedro e Santo António, e também com o Convento de Nossa Senhora do Desterro.

Relativamente à ermida de Santo André realça-se que subsistem ainda alguns vestígios desse edifício religioso na vila de Monchique, concretamente no interior de uma propriedade privada situada na rua de Santo André. No local onde se encontrava a ermida de São Pedro (na rua homónima) existe atualmente uma oficina de automóveis. A ermida de São José e o convento de Nossa Senhora do Desterro continuam erguidos, na posse de privados, mas a degradarem-se dia após dia na expectativa de soluções que visem a preservação e a devida valorização – tal como ocorreu com a ermida de Santo António, que foi intervencionada arqueologicamente e alvo de uma revitalização enquanto Galeria Municipal. Em relação à ermida de Santa Brígida, embora se conheça o seu local de implantação (no cerro que se desenvolve a leste do sítio da Cruz dos Madeiros), constata-se que o edifício propriamente dito desapareceu, contudo verificam-se alguns alinhamentos pétreos no local que deverão corresponder aos alicerces ou às partes inferiores das paredes que outrora o formavam.

Existe a referência a um outro edifício religioso na envolvência da vila de Monchique, embora mais afastado que os outros já abordados, que terá sido construído na primeira metade do século XVI na encosta sul da Picota – na mesma época que o morgadio de Monchique, conhecido na atualidade por Quinta de Santo António dos Casais, que também possui uma capela dedicada a esse santo. Trata-se do Eremitério do Carmo, também designado por Hospício ou Mosteiro do Carmo. Desconhece-se o ano em que terminou o seu uso religioso, porém existem referências de que na primeira metade do século XVIII os eremitas já se tinham mudado para o sítio dos Pegos Verdes (na então freguesia de Nossa Senhora do Verde) em busca de melhores condições climatéricas. Na Carta Corográfica do Algarve (1842) verifica-se a menção à existência de um monumento religioso na “Cruz da Picota” que, provavelmente, se relaciona com este eremitério. Recentemente foi possível relocalizar as ruínas deste monumento religioso situado nas proximidades do cume da Picota, num local bastante isolado e desnivelado com amplo domínio visual para sul. Embora as ruínas estejam repletas de vegetação, foi possível verificar alguns dos muros que compõem a estrutura – que se desenvolve em plataformas artificiais relativamente niveladas – e constatou-se a presença de pequenos compartimentos, bem como de diversos fragmentos cerâmicos (sobretudo telhas).

No que concerne à emblemática Igreja Matriz de Monchique, embora existam várias publicações sobre este monumento, as dúvidas sobre a sua origem permanecem – devido à falta de um estudo aprofundado que englobe escavações arqueológicas e uma equipa multidisciplinar. É provável que, à semelhança da ermida de São Sebastião, este monumento possua dois corpos cronologicamente distintos, na medida em que a parte oeste terá sido construída muito provavelmente na primeira metade do século XVI – contém três portais manuelinos – e a parte leste (onde se situa a capela-mor) deverá ter uma origem mais antiga. Através da análise da planta da igreja matriz verifica-se que as capelas das Almas e do Senhor Crucificado apresentam-se ligeiramente inclinadas para sudeste – falta de conformidade na cabeceira relativamente à esquadria da restante parte do edifício –, possuem paredes bastante espessas, plantas quadrangulares e, no exterior, existem uns curiosos elementos arredondados (prováveis contrafortes). Este facto é bastante percetível no caso da capela das Almas: a parede norte sobressai em relação ao corpo do edifício e possui dois “contrafortes” circulares nos ângulos, verificando-se também um desnivelamento entre o pavimento desta capela e o da igreja. No estado atual dos conhecimentos não é descabido avançar a possibilidade de que a parte nascente do monumento tenha uma origem islâmica – por exemplo como acontece na Igreja Matriz de Alvôr onde terá sido incorporado um morábito muçulmano, facto que poderá também ter ocorrido na Igreja Matriz de Marmelete. Mas a capela das Almas apresenta outra peculiaridade: no fecho da abóboda possui um elemento arquitetónico que consiste num bocete circular com uma aparente primitiva cruz da Ordem de Cristo gravada. Com efeito, esta cruz é diferente das representações utilizadas nos navios portugueses dos séculos XV e XVI, uma vez que se assemelha mais à cruz dos Templários. Não obstante a possível reutilização de um elemento arquitetónico mais antigo num edifício mais recente, é possível que esta cruz remonte ao século XIV – é interessante notar que a primeira sede da Ordem de Cristo (herdeira dos Templários) foi em Castro Marim, entre 1319 e 1356. Conquanto este monumento tenha sofrido várias alterações denunciadas por elementos construtivos de diferentes épocas, especialmente após o impiedoso terramoto de 1755, facto é que na parte oriental existem indícios de uma construção anterior ao século XVI. Em relação ao pórtico manuelino principal deste monumento religioso evidencia-se o facto de existirem alguns paralelos que apresentam semelhanças, por exemplo na Igreja Matriz de Redinha (Pombal), bem como em Cochim (Índia), território que foi português entre os séculos XVI e XVII. De facto, o pórtico da Igreja de Nossa Senhora da Vida em Mattancherry (arredores de Cochim) parece corresponder a uma imitação simplificada do pórtico manuelino oeste da Igreja Matriz de Monchique, embora sem o contorno ogival e o cordame em espiral.

Bibliografia:
FERNANDES, J. M. (1994) – Vestígios do Manuelino na Arquitectura Religiosa de Influência Portuguesa na Índia – Malabar, Coromandel, Goa. Oceanos, n.º 19/20 (Indo-Portuguesmente), Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, Lisboa, pp. 136-154;
GASCON, J. A. G. (1993) – Subsídios para a monografia de Monchique. 2.ª Edição (fac-similada), Câmara Municipal de Monchique, Algarve em Foco Editora, Faro;
SILVA, J. G. N. D. da (2012) – A Igreja Matriz de Monchique. Dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve, Faro.

Suporte informático:
http://www.cm-monchique.pt/pt/menu/137/patrimonio-religioso.aspx
http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/74932
http://purl.pt/3973/2/
http://www.patrimoniocultural.gov.pt/pt/patrimonio/patrimonio-imovel/pesquisa-do-patrimonio/classificado-ou-em-vias-de-classificacao/geral/view/72958/
http://www.monumentos.gov.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=33673

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