«Queremos fazer com que a arte tenha uma intervenção na construção do dia a dia da população de Monchique»

madalena-siteMadalena Victorino e Giacomo Scalisi são os responsáveis pelo projeto «Lavrar o Mar» iniciado com «Peep and Eat» – (Espreitar e Comer) e terá um dos seus pontos de destaque em «Maintenant ou Jamais», um espetáculo de novo circo que pretende levar os espetadores numa viagem de recomeço e de alegria até ao novo ano de 2017. Até maio, «Lavrar o Mar» vai semear arte e cultura em Monchique e Aljezur, envolvendo as pessoas na sua individualidade e no seu valor de uma forma inovadora, para dentro de cada iniciativa, tornando cada individuo num ator da sua própria realidade.

 

Jornal de Monchique – O que é o projeto «Lavrar o Mar»?
Madalena Victorino – «Lavrar o Mar» é um projeto que já está na nossa cabeça há vários anos quando surgiu o desejo de criar para este território, que nós primeiro conhecemos como destino de férias e onde depois comprámos uma casa. Também somos pessoas da cultura, eu sou coreógrafa, o Giacomo é encenador e ator, somos professores e somos programadores culturais.
Temos um trabalho muito extenso, feito em muitos pontos do nosso país e no estrangeiro e pensamos que poderíamos fazer um projeto aqui, só que essa oportunidade não surgia. Íamos com as nossas ideias a quem de direito, mas o eco das nossas palavras não reverberava.

JM – O que os fez avançar agora?
MV – Aconteceu, talvez, por uma confluência de circunstâncias positivas. Nós estávamos muito bem preparados, e quando foi preciso apresentar um projeto rapidamente ao programa «365 Algarve» que une o Turismo de Portugal e do Algarve, à Secretaria de Estado da Cultura do Algarve, nós sentimos que tinha chegado o nosso momento.
O trabalho não é fácil, porque é preciso entrarmos rapidamente em contacto com as populações, com o território, começar a conhecê-lo para podermos oferece-lhe aquilo que ele poderá, eventualmente, gostar de receber. O nosso projeto não é uma repetição de modelos culturais que já estão em vigência, mas pode ser uma mais-valia para uma nova dinâmica cultural na região.
Não queremos fazer algo que seja artificialmente colocado no terreno, queremos qualquer coisa de que as pessoas consigam rapidamente apropriar-se, sentir que é para elas, que é delas e que faz sentido na sua terra.
O projeto desenvolve-se em Aljezur e Monchique: é por isso que ele se chama «Lavrar o Mar – no arado da serra». Pretendemos que seja as artes do espetáculo no alto da serra e na costa vicentina.

Giacomo Scalisi – Foi uma confluência de momentos o iniciar do projeto. No entanto, como a Madalena referiu, havia já um trabalho de preparação muito profundo com as câmaras de Aljezur e Monchique e no último ano estivemos a preparar as candidaturas aos fundos europeus da CCDR. Na verdade, tínhamos já tudo bastante avançado quando chegou o «365 Algarve».

JM – Há quanto tempo começaram esse trabalho?
GS – A ideia do projeto nasceu há 3-5 anos. Tivemos uma primeira concretização há três anos com uma primeira reunião com a autarquia de Aljezur, mas depois caiu um pouco no esquecimento.
No último ano os fundos europeus ficaram disponíveis e preparámos as candidaturas. Depois, o «365 Algarve» chegou, que é uma iniciativa bastante interessante e também uma das primeiras vezes que em Portugal se consegue unir dois ministérios, o da Cultura e o do Turismo, de forma a imaginar um projeto cultural numa região. Para além disso, do ponto de vista de financiamentos tudo é muito simples. Tudo é desburocratizado. E o «Lavrar o mar» não aconteceria tão rapidamente se o «365 Algarve» não existisse.

MV – O «365 Algarve» tem originalidade por pensar a região do Algarve como um todo, num programa que é vasto e onde estão incluídas muitas organizações, entidades e estruturas. Tem uma programação coerente para uma região. Trata-se de uma visão global que une e abraça o Algarve através de projetos culturais e artísticos muito diversificados, mas que através dessa visão permite ao público se interessar e tirar partido dele.

JM – Porquê a escolha dos concelhos de Monchique e de Aljezur para a realização do projeto «Lavrar o Mar»?
MV – Havia a ideia original, que ainda não perdemos completamente, da criação de um triângulo com este projeto do «Lavrar o Mar», que unisse a serra e a costa atlântica, juntando os concelhos de Aljezur, Monchique e Odemira. Seria um projeto interregional e intermunicipal com uma ideia de identidade comum. No nosso projeto, ao juntar-se o Algarve e o Alentejo cria-se a região do «Lavrar o mar».
No entanto, como Odemira pertence ao Alentejo, não conseguimos incluir no programa «365 Algarve» e concentramo-nos em Monchique e Aljezur. O objetivo principal é fomentar uma dinâmica cultural imparável, num tempo deprimido do ano, que foi uma coincidência com o programa «365 Algarve». Queremos aquecer o território com atividade, movimento e pontos de atração quando as pessoas estão mais recolhidas em casa, mais no seu quotidiano de trabalho e de escola e, portanto, a ideia do divertimento ou da festividade está mais esquecida.

GS – Foi uma feliz coincidência, no fundo, porque o «Lavrar o Mar», tinha as mesmas intenções e pontos de convergência com o «365 Algarve».

JM – Quase que os dois projetos se misturam…
GS – Sim, exatamente. Só que o «365 Algarve» tem uma escala regional, e nós neste projeto estamos em Monchique e Aljezur. Queremos lançar desafios, romper com burocracias que existem e que impedem de pensar um território enquanto espaço cultural ou natural, sem ter barreiras de jurisdição regional, daí a ideia original de ter duas regiões, três câmaras e encontrar uma maneira de trabalhar em conjunto.

JM – No fundo o que interessa é trabalhar para as pessoas?
GS – Sim, sem obstáculos políticos e administrativos.

MV – A nós interessa-nos trabalhar com as pessoas, com a natureza e com a paisagem estrondosa desta região, que nos faz suster a respiração, perder a cabeça e pensar que não estamos aqui. E, ao mesmo tempo, trazer para estes lugares a arte contemporânea, os novos movimentos de uma criação artística. Queremos que as pessoas percebam que arte pode contribuir para o pensamento e construção da sociedade, porque é uma arma, uma ferramenta, um saber tão importante como a ciência ou as línguas. A arte é uma fonte de pensamento, de criação de visões sobre o mundo que pode abrir horizontes a uma inteligência mais divergente, com espírito de abertura e de tolerância, onde o errado e o certo não são tão vincados.
São fórmulas que podem entrar dentro do tecido social de Monchique e que podem pôr as pessoas, de todas as faixas etárias, a conversar sobre isso.
O «Lavrar o Mar» destina-se a todos, sem exceção. Queremos fazer com que a arte tenha uma intervenção na construção do dia a dia da população de Monchique, para que esta comece a compreender que a arte é entretenimento, mas é também uma fonte de crescimento e de observação do mundo na qual todos podem contribuir e participar.

JM – O que significa «Lavrar o mar»?
MV – «Lavrar o Mar» tem a ver com uma expressão que vem da pesca, da apanha da sardinha e é uma rede que abraça o mar e arrebanha tudo o que ele tem. Essa é uma metáfora deste projeto que pretende ser capaz de apanhar todas as pessoas.

GS – O «Lavrar o Mar» apresenta-se também como um desafio. Estamos num território onde a natureza é o elemento principal de tudo. Não temos teatros, nem salas, mas temos o desafio de imaginar no território um projeto que faça dialogar a arte com a natureza. Há projetos em que os teatros são o ponto de partida, aqui não temos esses espaços físicos, mas temos dois concelhos e um território magnífico. Quase que estamos a subtrair o essencial e vamos para um território onde as pessoas têm pouca ligação com a arte, imaginar uma programação de que o território necessite, com os estímulos que nos são dados.

JM – Então o «Lavrar o Mar» pretende transformar o território em arte…
MV – São objetos artísticos que têm performatividade, como teatro, música, imagem, dança. São elementos que se cruzam e onde as pessoas participam.
Em cada projeto as pessoas interagem de maneiras diferentes, porque cada um vai ser uma surpresa, um caminho novo à volta da mesma ideia, que é perceber como é que o pensamento artístico e a criação artística podem contribuir para a criação de um mundo, de um imaginário, de uma situação em que as pessoas entram, se encantam e sentem. Muitas vezes é um teatro dos sentidos, como foi o caso do «Peep and Eat» [Espreitar e Comer], onde entraram o paladar, o cheiro, o olhar, a música, o som da cozinha. Foram pequenos teatrinhos que foram passando entre o comer, o espreitar da cozinha, o cozinhar. São espetáculos que nós queremos criar, cada um diferente do outro, para que este público que se fideliza ao «Lavrar o Mar» saiba que quando vem, vai viver uma experiência memorável, de forma a fazê-lo ligar-se a Monchique de uma maneira que não vai esquecer.

JM – Foi o que se passou com o «Peep and Eat»?
GS – Foi uma surpresa também para nós, porque aprendemos andando pelo território. Visitámos vários produtores que cultivavam batata doce, em Aljezur, fomos a destilarias de medronho, aos fumeiros, a uma produção de mel, passeámos pela serra para conhecermos os cogumelos. Fomos conhecendo a terra, que inspirou a ementa que foi pensada para este território. Esta ligação é o que nos interessa, onde os objetos e as ideias dos artistas se misturam com o que o território é, e transformam-se numa coisa que é nova. É uma união de maravilhas que se produzem e que fazem o «Lavrar o Mar». Aquilo que veem aqui não vão ver em mais nenhum lado. É criar qualquer coisa que tem a identidade do território e que só aqui pode existir.
Depois há a população estrangeira que vive aqui e que tem uma outra ligação com a cultura. Nós tivemos no «Peep and Eat» pessoas que vieram a Aljezur e a Monchique e repetiram o espetáculo duas vezes, porque ficaram entusiasmados, porque finalmente tiveram em Monchique alguma coisa que fizesse lembrar o seu país, onde tinham uma vida cultural muito mais ativa. Para nós, é como criar uma ponte entre esta comunidade que tem exigências muito particulares e as comunidades de Aljezur e de Monchique, através da arte. Como se a arte fosse um ponto de encontro entre tudo isto.

JM – Até ao final do ano o projeto «Lavrar o Mar» vai trazer até Monchique outro espetáculo intitulado «Maintenant ou Jamais – Agora ou nunca»…
GS – Tanto o «Peep and Eat» como este espetáculo de final de ano foram escolhidos de propósito logo no início do «Lavrar o Mar». Tínhamos de oferecer objetos muito particulares e muito fortes do ponto de vista artístico que pudessem dar uma primeira sensação às pessoas. Temos de conquistar o público e sinto que com o «Peep and Eat» já o fizemos.
O espetáculo «Maintenant ou Jamais» foi escolhido, porque estamos no final do ano. Simboliza algo que acaba e que começa. É esta relação que é muito importante. E daí ser uma festa.
Este espetáculo tem características de novo circo, que mistura várias artes como a música, o teatro, a dança, as artes plásticas, o vídeo e a imagem que dialogam com as disciplinas clássicas do circo como o trapézio, o malabarismo, as acrobacias, o trampolim, entre outras. É uma dramaturgia artística, musical, circense e teatral.
A companhia que vem fazer o «Maintenaint ou Jamais» tem uma história interessante. É um grupo de pessoas que, depois de terminarem a sua formação, se instalaram numa pequena aldeia que estava a morrer e lhe deram vida.
Para o espetáculo, que se realiza nos dias 29, 30 e 31 de dezembro, vai ser montada uma tenda de circo tradicional no heliporto municipal, com capacidade para cerca de 450 pessoas, onde a ideia é o prazer, é passar o final do ano celebrando com pessoas, com música, acrobacias e, no fundo, celebrando uma festa.

MV – Este espetáculo é mais um mundo que se abre aos olhos do público, que se vai desenrolando com grande fluidez e preenchendo uma atmosfera que se começa a lançar e que vai subindo de intensidade ao longo do espetáculo. Uma atmosfera que, por vezes, fica mais exuberante e outras, mais concentrada sobre determinado aspeto do trabalho, depois começa-se a distribuir sorrisos por todo o lado, porque há outro tom que vai nascendo.

JM – Que outras ações integram o projeto «Lavrar o Mar»?
MV -Temos as residências artísticas que vamos começar a partir de janeiro. Uma delas chama-se «O homem e o fruto» e atravessa a cultura do medronho, da sua produção ao líquido alquímico que tem em Monchique uma tradição enorme e antiquíssima. Nesta ação as famílias são uma entidade protagonista. O trabalho desenvolve-se a partir desse contacto com os mais velhos, portadores do saber, que vão passando de geração em geração.
Aqui, o trabalho que vai ser realizado pelo Giacomo e pelos artistas convidados consiste na transformação das destilarias em pequenos teatros, para que se crie uma nova Rota do Medronho, artística e ficcional, que é assente no conhecimento ancestral.
Entre outras ações, em maio vai realizar-se o Festival Internacional de Artes Performativas que encerra o projeto.

JM – O que pretendem que as pessoas retenham com o «Lavrar o Mar»?
MV – Em primeiro lugar nós queremos que o «Lavrar o Mar» seja uma dinâmica cultural que começa e fica imparável, porque o território e as pessoas precisam da arte. Mesmo que nós nos afastemos, que esta dinâmica seja tomada por gerações seguintes e que a continuem. Essa é também uma realidade que nos tem acontecido noutros projetos, porque eles ganham vida e ficam maiores do que nós e têm consequências para além de nós.
É importante que as pessoas compreendam que precisam das artes na sua vida, porque se sentem e vivem melhor. Queremos que ganhem o pensamento, a sensibilidade, a alegria, a discussão, a descoberta de soluções para coisas como, por exemplo, a abertura ao diferente, ao novo, ao desconhecido. As artes propõem o contacto com o mundo desconhecido que ao mesmo tempo se desdobra aos nossos olhos e nos faz ficar mais inteligentes, sabedores, abertos, contentes e próximos.
GS – Esta questão da arte é mesmo muito importante. Se calhar em Monchique ou numa terra mais pequena não é tão evidente, mas mesmo aqui sinto que as pessoas estão muito fechadas. E a arte dá a possibilidade às pessoas de saírem, de se encontrarem a elas próprias e de viverem um momento além daquele que vivem normalmente.
É importante não ficarmos no nosso pequeno apartamento a olhar a televisão. Somos pessoas com tanta coisa para desenvolver e a arte é um acelerador de reação. É uma comida para dentro, para a alma que nos faz estar bem.
Às vezes, os nossos mundos não nos deixam ver outros mundos, nem a beleza do ser humano e das relações entre as pessoas. Para nós, a arte é uma coisa muito concreta, não é só programar um espetáculo, é ter uma intervenção forte no âmbito social e transformar a própria sociedade.

JM – Como se consegue operar essa transformação?
MV – A arte age socialmente. É contagiando as pessoas com coisas bonitas.

GS – Sinto-me um revolucionário no sentido em que quero agir, quero pôr a sociedade em movimento. Não posso ficar parado, mas são as pessoas que podem reagir ou não.

JM – A arte faz despertar a sociedade?
MV – O nosso trabalho estabelece a relação entre arte e a sociedade. Às vezes podemos estar a trabalhar sobre a festa, que é o caso aqui, outras vezes estamos a trabalhar sobre a desconstrução do conceito de comida, sobre a memória, a morte, a solidão. O que nós fazemos é remexer nas áreas de fragilidade que a sociedade apresenta, de uma forma muito positiva e acutilante para criar aberturas de pensamento e de ação. E nós estamos interessados, de facto, em todas as pessoas, porque acreditamos na sua beleza, no seu valor.

JM – Têm trabalhado em vários pontos de Portugal e do estrangeiro. Há diferenças na interação das pessoas com a arte?
MV – Há um caminho que também nós já trilhámos. Temos métodos para trazer as pessoas para dentro dos projetos. Gosto imenso das pessoas no sentido de as descobrir. Sinto que cada pessoa é um talismã. É uma força misteriosa com a qual eu interajo. Interesso-me muito por trabalhar, nomeadamente em Lisboa, com pessoas sem abrigo, e que, de repente, ao fim de um projeto, saltam para outro projeto e deixam de ter o estigma da rua e eu até já me esqueço, porque elas já me dão sugestões e trazem coisas e propõem atividades e resolvem problemas. É esta troca quase democrática que as artes proporcionam, porque não há uma estratificação, não há a preocupação de manter as distâncias, mas do foco sobre o qual nós todos vamos trabalhar e, de repente, há uma energia que se cria onde tudo é possível.
Temos, por exemplo, o Festival «Todos» da Câmara Municipal de Lisboa que já vai na sua nona edição. É um festival intercultural, muito grande, mas quando começa a operar o mecanismo da construção, da criação, da partilha, de uma ideia artística, as pessoas, em geral, têm o mesmo comportamento.
Em relação ao público, nas grandes cidades ele está habituado a ver muitas coisas. Aqui há uma frescura. Há uma predisposição e a alegria que já não se encontra nas grandes cidades.

GS – Sinto que o nosso desafio é chegar ao essencial. Tive a prova com o «Peep and Eat» onde as pessoas receberam o nosso trabalho como uma joia, uma alegria, um presente. E, às vezes, em Lisboa ou noutros sítios isto não acontece, porque a oferta cultural é maior, as pessoas estão habituadas a ver outras coisas, ou estão interessadas noutras. Aqui, as pessoas ficaram deslumbradas. O «Peep and Eat» foi um espetáculo de uma complexidade e beleza que andou pela Europa toda e agora esteve em Monchique e Aljezur. Foi um prazer para nós e para os artistas, porque adoraram estar aqui. Sentem que existe uma energia diferente.

JM – Sentem que nos últimos anos o público aceita melhor o vosso trabalho?
MV – Acho que agora, como estou mais madura, e com uma capacidade de realização mais eficaz, as coisas, em geral, me correm bem. Há uma preparação, uma exigência e um rigor muito grande da minha parte em oferecer às pessoas aquilo de que elas poderão gostar. Numa relação com o passado poderá haver a minha inexperiência e a minha juventude, que posso não ter conseguido chegar à qualidade que eu gostaria por ser jovem. Às vezes são projetos que não fui eu que os criei, mas sou eu que proporciono a situação do encontro, como é o caso do «Peep and Eat» e do «Maintenant ou Jamais» onde nós fazemos a preparação da chegada deste espetáculo, para que esteja tudo pronto e a coisa aconteça de uma forma feliz.

GS – Não é por acaso que o nosso espetáculo custa muito pouco. Foi uma escolha. O «Maintenant ou Jamais» custa ao público 5€, mas é um espetáculo caríssimo, porque são 25 pessoas que viajam de França para aqui. Pretendemos que o dinheiro não seja um problema para quem queira assistir, já que se trata de dinheiros públicos e as pessoas merecem.
O ser humano tem uma natureza de curiosidade muito grande, mas, às vezes, tem tendência a desaparecer porque o contexto social faz com que isso seja caro. As pessoas deixam de ser curiosas, porque tudo está preparado para não despertar a curiosidade, a inteligência e o pensamento das pessoas. Custa-me muito dizer isto, mas é verdade.

JM – A arte é, assim, o motor para o pensamento…
MV – A arte é uma ferramenta contra a pobreza de espírito.
Em Monchique temos uma situação privilegiada, porque o presidente da câmara é um homem bastante sensível para as artes, e nesse sentido sentimo-nos muito bem aqui.

GS – Eu acho que os políticos também despertaram um pouco para isso. Começaram a perceber que a cultura é a mais-valia e não o problema. É sempre a irmã pobre de todos os orçamentos que temos no mundo, mas a verdade é que a comunidade europeia e os governos estão a começar a perceber que, no fundo, os grandes problemas que temos, como a imigração, a solidão, o envelhecimento, com uma grande aposta na cultura podem ser dissolvidos.

JM – Em 2015 foi distinguida como «Mulher Criadora de Cultura». O que isso significou para si?
MV – É uma alegria. O que aconteceu nessa distinção foi o reconhecimento pela minha obstinação por este trabalho. Estou sempre com projetos em mão e vários ao mesmo tempo. Sou uma mulher da dança, tenho muita energia, sou muito física e gosto de me movimentar de um sítio para o outro e, portanto, aquilo que me parece é que o objeto desta distinção é a quantidade de projetos e trabalho que tenho realizado ao longo da minha vida. Ir ao encontro das pessoas e com elas produzir experiências artísticas que possam ficar na sua memória e que ajudem na construção da vida que também é próxima das artes. Sou muito ambiciosa na qualidade e na profundidade do trabalho que faço. De resto, acho que esse prémio também é de todos aqueles com quem eu faço as coisas, porque é no embate e na reverberação do que eu faço nos outros que os objetos brilham.r

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