Quer ir na próxima expedição à Antártida?

Deveria ter uns cinco ou seis anos. A minha primeira ideia da Antártida foi de um sítio longe, muito longe. Um lugar muito frio onde apenas alguns animais como os pinguins eram capazes de sobreviver. Como? Não fazia ideia nenhuma. As primeiras imagens que me vieram à cabeça foram de icebergues gigantes no meio do mar, com os pinguins todos juntinhos a tentar escapar de uma grande tempestade, sem se ver vivalma por perto. Realmente, se é tão frio, por que razão alguém haveria de lá ir? Nunca me passou pela cabeça, aos doze ou treze anos, que, uma década depois, estaria a caminho da Antártida pela primeira vez, e que iria gostar tanto dos verões antárticos, com temperaturas de cerca de zero graus Celsius, como dos meus verões da infância e adolescência, bem mais quentes, passados em Portugal à beira do mar.

A minha ida para a Universidade de Cambridge, no Reino Unido, abriu-me os olhos para esta região. Naquela altura, todos os cientistas polares com quem me cruzava pareciam-me loucos (no bom sentido da palavra, se é que me entendem). “É mesmo necessário ir mais de duas semanas para a Antártida? Depois de um dia ou dois não estará já tudo visto?”, dei comigo a pensar. Ao cabo de algumas semanas, o entusiasmo dos cientistas à minha volta tinha-me contagiado. Sem hierarquias, respirava-se o fascínio pela Antártida e pela ciência polar nos corredores do Instituto a todas as horas do dia. Os cientistas eram profissionais, muito dedicados ao seu trabalho e excelentes em tudo o que faziam. Um ano após eu estar em Cambridge, perguntaram-me se eu gostaria de ir à Antárctida e por quanto tempo eu desejava ir. E eu respondi às duas perguntas sem hesitação: “Sim! O máximo de tempo possível!”

A minha primeira impressão da Antárctida, que recolhi em 1999, foi surpreendente. Percebi quão diferente era a Antárctida relativamente à ideia que eu tinha em criança. Quando lá cheguei pela primeira vez, apercebi-me de que aquela região transbordava de vida, ao contrário do que eu supunha. Nas costas da Géorgia do Sul (que ficam em águas do Oceano Antártico, a mais de 1500 km a sudeste do continente americano), vi-me sempre rodeado de um sem-número de pinguins e focas na água, sobrevoado por albatrozes que circulavam elegantemente no ar, possuindo todos esses animais muitas cores (havia muito mais verde do que eu pensara!).

Estou agora prestes a ir para a minha oitava expedição Antártida, que se inicia nesta próxima semana. Esta expedição insere-se no projeto PELAGIC que tem como objetivo avaliar a presença de metais pesados no Oceano Antártico. Porque é que isso é importante? Porque nesta região estima-se que haja pouca poluição mas um estudo da nossa equipa mostrou que os albatrozes viajeiros, que vivem na Antártida, são os vertebrados com mais mercúrio no mundo (para quem não sabe, o mercúrio em excesso é prejudicial à saúde). Então, de onde vem este mercúrio? E que outros metais se encontram nos animais que lá vivem? É mesmo isso que estaremos a estudar: a recolher amostras ao longo de toda a cadeia alimentar, desde algas, passando pelos crustáceos, peixe, lulas e predadores de topo (como as otárias do Antártico e pinguins) para avaliar a quantidade de metais pesados na cadeia alimentar marinha do Oceano Antártico. Iremos a uma região particularmente interessante da Antártida, as Ilhas Orcadas do Sul. Lá, existe muito interesse ao nível das pescas, no estabelecimento de áreas protegidas marinhas e no conhecimento da biologia de espécies pouco conhecidas. Quer partilhar a experiência connosco? Está a um passo de um click (http://cientistapolarjxavier.blogspot.pt/)….

José Xavier

© 2016 – Ciência na Imprensa Regional / Ciência Viva

Foto: José Xavier

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