Qualquer coisa que ajude a existir

O solitário não tinha nome. Ou tinha, mas era como se não tivesse, porque ninguém o dizia, porque ninguém o ouvia, e porque sem ouvir nada se diz. É como a solidão em si mesma, nós a chamarmos por alguém e nenhuma resposta, nós na pele de extraterrestres da empatia, estranhos aos impulsos da afeição, nós borrifados dessa espécie de água fria contra a cola que apega as pessoas umas nas outras.

O solitário não tinha nome, porque, sendo um entrave ao outro, um deserto convivente, ninguém o conhecia a não ser pela singularidade melancólica de estar sempre desamparado de companhia.

Era habitado por um espírito sensível, complicado, sujeito a crises. O seu estado moral e intelectual sofria sem cessar de manifestações violentas de toda a sorte. Distraía-se observando, observando-se, numa contemplação isolada do mundo e de si mesmo. Acontecia muito quando parava algum tempo, enquanto esperava o autocarro, ou nos intervalos do trabalho na galeria de arte, ou na fila para meter o Euromilhões. Entretinha-se. Olhava em volta e via gente desprezível e mal vestida, casas terrivelmente desastrosas, automóveis horrorosos, equipados pela morte.

– Até o mau-gosto é um estímulo à imaginação – pensava.

Quando completava a roda e caía de novo em si, fumava cigarros com a atenção detalhada de quem se olha filosoficamente ao espelho para verificar a posição do queixo, o alastramento das olheiras, o alinhamento do nariz, o arco das sobrancelhas, o avolumar das sementeiras de borbulhas, a inclinação do cabelo… Fazia-o para ver se permanecia inteiro por dentro. Mas ao contrário do reflexo superficial do vidro, o fumo profundo do tabaco dava-lhe uma imagem demasiado negra de si próprio. Sofria como um animal. Sentia-se um homem no meio de uma família desconhecida, um insecto rodeado de parasitas.

Da mesma forma que o vento é um acaso que dá no destino de uma folha no outono, aconteceu um dia ao solitário esquecer-se da caixa de fósforos em casa. Sempre que sucedia, via-se a pedir lume emprestado, timidamente, à colega de pele lisa como areia molhada, olhos amendoados, cabelo reluzente a escorrer nos ombros a limpidez fulgurosa das cascatas.

Tentava ver-se livre do peso das palavras e, só depois de pigarrear duas ou três vezes, a tentar conhecer a voz, muito a medo, formulava a solicitação:

– Perdão, olha, peço desculpa, com licença, por favor, tens lume?

Sentia a coração acelerar quanto mais conversava com ela, batia cada vez mais desenfreado como um texto sem pontuação. Não percebia muito bem o que se passava.

Uma vez, a tarde estava limpa, o cheiro a flores a meter o nariz em cada canto, a relva do jardim da galeria a cobrir o chão de uma inacreditável esperança germinativa, o solitário ficou muito vermelho e com falta de ar, sem conseguir dizer coisas acertadas. Atrapalhava-se, inventava desculpas como se tivesse acabado de partir uma peça de cristal no meio de um museu.

– Passa-se alguma coisa? Estás esquisito – perguntou a colega bonita depois de lhe passar o isqueiro e deixar um rasto de alma nos dedos do solitário. Tinha uma pose de leveza lírica, flutuava, como os amantes dos quadros do Chagall.

O solitário espremeu as mãos nos bolsos, tentou agarrar-se a alguma coisa de concreto, um poema, uma metáfora, as notas de uma canção, um molho de chaves que lhe permitisse abrir o coração. Nada.

– Nada. Não se passa nada, está tudo aqui no íntimo e não sei bem o que fazer a isto – respondeu, sentindo a torrente de vergonha a galgar pelo corpo acima até inundar os vasos capilares da cara, até as maçãs do rosto refulgirem de maduras, apesar das pragas de tristeza passada. O coração era uma hipérbole explicada por uma equação com potências, incógnitas e curvas exponenciais, uma fórmula para a paixão que provoca uma ansiedade igual à de não se perceber nada de matemática. Dentro dele, as sensações, andavam em desconcerto: os intestinos, o pâncreas, os rins, o baço, todos os órgãos misturados, suspensos no ar, transparentes, esparramados para fora dos limites do sensível.

Ela sorriu. Deixou à mostra um indício de ruga futura, uma pequena inclinação para onde confluem as emoções mais líquidas. Agarrou-o muito delicadamente pelas orelhas, à maneira de quem pega numa estátua do Giacometti e, para livrá-lo de aflições, beijou-o com demora. Depois, disse:

– Os beijos são lábios fogosos que se acendem uns nos outros. Um vício que não se tira nas máquinas, que não precisa que o empregado de balcão carregue no botão para vir à luz do dia. Há, no entanto, pessoas que consomem vários maços de beijos por dia e ficam com a língua a saber a perfume francês – disse, dando a entender que tinha travado aquelas palavras nos pulmões e na garganta durante muito tempo.

O solitário sentiu-se aceso, um produto emotivo da natureza a ver a solidão ir embora, a subir e a desfazer-se como uma nuvem feia de inverno, a ver essa mesma solidão cair no chão, o pé a rodar sobre ela como num twist, a solidão a apagar-se, espalmada entre a sola e o alcatrão. Inspirou fundo e expirou. Esperança. Tossiu um pouco, naquele soluçar envergonhado de quem acaba de ser salvo com um poema, que é uma espécie de respiração boca-a-boca. Deixou que o sol fizesse férias nos músculos da cara, permitiu que ganhasse proporções geométricas e subisse à temperatura de uma gargalhada, como num dia de praia. Iria recordar a doçura daquele beijo com a insistência de uma língua contra os restos de um caramelo peganhento.

Nos dias seguintes continuou a esquecer-se dos fósforos em casa e a resgatar o lume à colega bonita. Nessa altura, já era proprietário de um nome: Amadeu. Era-lhe suficiente olhar pelos olhos da colega adentro para se espantar com o seu próprio rosto. A realidade à sua volta parecia-lhe menos turva e desfocada, afigurava-se-lhe mais verdadeira com o hálito da fantasia. Aguentava-a melhor colocando uma manga de imaginação sobre os espinhos da mentira. Aguardava serenamente o futuro, sem medo da velhice. Sabia que viriam as rugas nos cantos da boca, restos que ficam dos beijos que damos. Tinha desintoxicado a vida. Já não fumava.

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