Proteu

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Proteu

Humanista, diplomata, historiador, escritor, músico e compositor de seu estado, Damião de Góis (1502 – 1574), sem dúvida dos mais cultos portugueses do seu tempo e, com certeza, leitor assíduo dos clássicos gregos e latinos, teve a ideia de utilizar o nome de uma divindade grega, Proteu, para designar um homem que muda frequentemente de opinião e de maneiras, que é um impudico vira-casaca, que altera o humor conforme sopra o vento e que assume despudoradamente, como se fora sempre o seu, qualquer partido, desde que tal lhe renda fama e proveito. O mundo da política ou dos negócios tem os seus proteus, áulicos de múltiplas faces, mas as tentações proteicas do mundo moderno são, decerto, e pese embora o muito mal que provocam à sociedade, menos temíveis que as fabulosas aparições da antiga lenda. Proteu era filho do grande rei dos mares, Posídon (ou Neptuno para os romanos), que o encarregara de pastar os seus rebanhos de focas. Tão meticuloso e consciencioso era no exercício das suas tarefas que o pai, para o recompensar, atribuiu-lhe os dons da predicação e da transfiguração. Mas Proteu, alcunhado “Velho do Mar”, habituado à solidão das profundezas marinhas, não gostava de ser incomodado e, avaro das suas profecias, metamorfoseava-se numa série de horrendos monstros com a finalidade de desencorajar os eventuais consultantes, apenas aceitando revelar o seu oráculo ao inquiridor que se mostrasse suficientemente temerário para não debandar à vista de tão medonhas aparições.

Também aos marinheiros surpreendidos por tempestades, só indicava o rumo se lograssem capturá-lo.

Conta Homero, na Odisseia, que tal aconteceu a Menelau e seus companheiros no regresso vitorioso da guerra de Troia. Retidos na ilha egípcia de Faros por ventos adversos, tendo conquistado as boas graças de uma das filhas da divindade, a ninfa Eidoteia, que detinha os segredos do pai, esta revelou ao rei espartano que bastava surpreender Proteu, durante a sesta que todas as tardes fazia na companhia de Harpócrates, o deus do Silêncio, amarrando-o para que não escapasse e, então, questioná-lo. Assim procedeu Menelau, auxiliado por três companheiros. Logo que lhe ouviram o ressonar, tão forte que o próprio Silêncio abandonou a caverna onde se repousavam, saltaram-lhe para cima, manietaram-no com grossas cordas arrancadas de suas embarcações e agarraram-se ainda com todas as forças aos seus braços e pernas. Acordando, furibundo, o deus deu-se conta da desafortunada situação em que se encontrava e, não conseguindo desenvencilhar-se, recorreu aos truques de transfiguração em que era exímio executante. Tendo, porém, esgotado todas as suas astúcias sem conseguir libertar-se da embaraçosa armadilha, deu-se por vencido. Voltando à sua forma primitiva, logo prestou todos os esclarecimentos que permitiram aos navegantes viajar sem mais perigos até à sua pátria. Também Virgílio, no quarto livro das Geórgicas, conta que Aristeu, um apicultor que perdera todas as suas abelhas, foi, a conselho da sua mãe, a bela Cirene, pedir ajuda a Proteu para recuperar os seus enxames e, para lhe falar, recorreu ao mesmo estratagema. Na medicina o deus mitológico deu nome ao Síndrome de Proteus, uma doença congénita extremamente rara que se caracteriza pelo crescimento excessivo da pele, ossos, músculos, tecido adiposo e vasos sanguíneos e linfáticos1. Por volta de 1800, os zoólogos também se apropriaram, com evidente malícia, do nome do divino adivinhador para baptizar um género de batráquio encontrado em águas subterrâneas, cujo corpo esbranquiçado na escuridão se cobre de manchas pretas ou castanhas quando exposto à luz, espectáculo fascinante, mas decerto irrisório comparativamente às terríficas metamorfoses do filho de Posídon.
Citações:
1. “… não é lícito aos adversários tergiversar por muito tempo, eles que já se transformaram em tanta espécie de coisas, que Proteu, em face de tais indivíduos, não teria sido proteu.”; Damião de Góis in “Correspondência Latina”; Portugallae Monumenta Latina, Vol. IX, página 163.
2. “Da branca escuma os mares se mostravam
Cobertos, onde as proas vão cortando
As marítimas águas consagradas,
Que do gado de Proteu são cortadas…”
Luís de Camões, in “Os Lusíadas”, I, 19
3. “O homem é o animal proteu por excelência…”; Aquilino Ribeiro in “O Arcanjo Negro”, página 117.
4. “Era como se eu dançasse cheek-to-cheek com o vento e o vento é um inefável proteu, que ora tem o rosto do Anjo, o incorpóreo príncipe da bela adormecida…”; Natália Correia in “A Madona”, 4, página 88; 3ªedição; Publicações D. Quixote.
Notas:
1 O caso mais conhecido desta terrível enfermidade é o de Joseph Merrick (1862 – 1890), cidadão britânico em cuja vida se inspirou o realizador David Lynch para produzir o filme “O Homem-Elefante”, de 1980.

(Texto escrito ao abrigo do antigo Acordo Ortográfico)

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