Pela nossa saúde e meio ambiente: meios de luta, alternativos à utilização dos pesticidas

A utilização de pesticidas na agricultura tem como objetivo principal obter uma maior produção de alimentos. No entanto, para além do custo que tem, existe outro custo, porventura ainda mais elevado, que resulta dos efeitos destes produtos sobre a natureza, o meio ambiente e a saúde humana.

Na natureza, os resíduos podem perdurar durante vários anos. Podem ser encontrados no solo e nos cursos de água até centenas ou milhares de quilómetros como seja no Polo Norte, no Polo Sul ou no Monte Evereste.

No meio ambiente, a aplicação dos pesticidas atinge os cursos de água e os solos, toda a cadeia animal, incluindo animais que possam ser úteis no combate a pragas e infestantes.
Sobre a saúde humana, o impacto poderá ainda ser mais dramático, na medida em que pode atingir cada um de nós. Quer através da sua preparação e aplicação descuidada e sem proteção individual. Quer pelos danos a breve, médio ou longo prazo, sobre a saúde dos consumidores. Os resíduos podem causar desde náuseas, vómitos e mal-estar, passando pela infertilidade e pelo cancro.

Estes problemas têm sido objeto de preocupação da Organização Mundial de Saúde e da Agência Europeia de Segurança Alimentar. Daí que legislação mais recente obrigue os aplicadores a tomar cuidados e recomende meios alternativos de combate. Na União Europeia, a Diretiva 2009/123/CE de 21 de outubro refere que é essencial que as pessoas estejam conscientes dos riscos potenciais e das medidas apropriadas para a sua redução. Esta diretiva consubstancia-se na Lei 26/2013 de 11 de abril que regula a distribuição, venda e aplicação dos pesticidas e seus adjuvantes, promovendo o recurso à proteção integrada e a abordagens técnicas alternativas não químicas. Vejamos uma breve síntese destas técnicas 1:

LUTA GENÉTICA
O seu objetivo é a utilização de plantas que possam ser resistentes a determinadas pragas ou doenças ou até infestantes. O melhoramento de plantas selecionou já cereais resistentes às ferrugens ou variedades de meloeiro resistentes ao oídeo. Numa escala de grande produção utilizam-se técnicas do domínio da biologia molecular como sejam a micropropagação ou a multiplicação vegetativa em laboratório. Contudo, os antigos métodos de escolher as plantas resistentes, a enxertia ou o cruzamento de plantas são ainda utilizados em reduzida escala nas pequenas hortas familiares.

LUTA CULTURAL
Trata-se de controlar os inimigos das culturas através de práticas que são benéficas para a saúde das plantas assim como a higiene e alimentação são úteis para a saúde humana. A escolha das espécies a cultivar, as rotações do solo, as consociações de culturas, a preparação e fertilização do solo, antes de efetuar a sementeira, o uso de sementes certificadas, as densidades das plantações, compassos e épocas de plantação, as podas, a rega e colheita, estão entre outras técnicas que podemos adotar.

LUTA FÍSICA
Envolve meios mecânicos, térmicos, eletromagnéticos e até sonoros, com o objetivo de afastar os inimigos das culturas. É o caso da mobilização do solo, das mondas manuais das infestantes e de frutos, da destruição dos restos de culturas, da apanha de insetos à mão, do alagamento do solo e lavagem das árvores ou colocação de armadilhas contra roedores. Os meios térmicos referem-se ao controlo da temperatura visando a destruição dos vírus e incluindo a solarização (exposição solar) do solo contra fungos e nemátodos, à queima de certos organismos ou à utilização de coberturas no solo com vista ao controlo de pragas. Os meios eletromagnéticos, mais sofisticados, envolvem a utilização de radiações e de luz ultravioleta. Os meios sonoros incluem os ruídos e os ultra-sons para afugentar aves ou outros animais.

LUTA BIOLÓGICA
Envolve a utilização de organismos vivos para controlar organismos nocivos. Baseia-se nos predadores naturais, nos parasitóides ou parasitas. Identificamos animais que capturam presas necessárias ao desenvolvimento das pragas. O caso mais conhecido é o da joaninha. Identificamos também animais que se desenvolvem total ou parcialmente à custa de animais de outra espécie. Considera-se ainda a utilização, controlada, de fungos, bactérias e vírus, responsáveis por provocar doenças em certas pragas. No caso de uma pequena horta convém que estejamos atentos ao papel que desempenham as aves e sapos que capturam insetos ou aos répteis, como as cobras, por se alimentarem dos ratos. São organismos a proteger e que não deverão ser visados pela utilização de pesticidas.

LUTA BIOTÉCNICA
É um meio de luta direto. Procura-se neste domínio alterar as funções vitais do organismo nocivo, quer do meio em que vive. É possível interferir no crescimento dos insetos não os deixando atingir a fase de desenvolvimento mais nociva, através da utilização de hormonas, de inseticidas específicos, ou de aceleradores de crescimento, provocando-lhes a morte. Consideram-se também as substâncias, que emitidas por uma espécie interferem no desenvolvimento de outra. É o caso das feromonas, substâncias próprias de vários insetos, que podem ter efeitos de agregação, de afastamento, de pista, alarme, de marcação ou sexuais, na medida em que permite atrair e capturar insetos ou afastá-los. Considera-se também a luta designada por autocida, que consiste na utilização de machos esterilizados dando origem a ovos não férteis.

LUTA NÃO QUÍMICA
Respeita à utilização de substâncias de origem vegetal provenientes de plantas como, por exemplo, o pampilho ou a nicotina (tabaco) que são utilizados em pulverizações por forma a reduzir os efeitos de uma praga. É também o caso de antibióticos produzidos por fungos e utilizados contra as bactérias.

PROTEÇÃO INTEGRADA
Estes meios alternativos podem fazer parte de estratégias de controlo e combate a pragas e infestantes que podem fazer parte de um regime de proteção integrada ou de uma prática agrícola designada como biológica.
Na proteção integrada aconselha-se que a mesma seja acompanhada por técnicos habilitados ou que se adquira formação específica para o efeito, existindo apoios para quem adote este regime. Esta prática requer “a avaliação ponderada de todos os métodos disponíveis de proteção das culturas e subsequente integração de medidas adequadas para diminuir o desenvolvimento de populações de organismos vivos e manter a utilização de produtos fitofarmacêuticos e outras formas de intervenção a níveis económica e ecologicamente justificáveis, reduzindo e minimizando os riscos para a saúde humana e o ambiente”, conforme o artigo 3.º da Lei 26/2013. Incentiva-se a utilização dos meios naturais de luta contra os inimigos das culturas e procura-se reduzir ao mínimo a utilização dos pesticidas

AGRICULTURA ou PRODUÇÃO BIOLÓGICA
Define-se 2 como sendo um sistema de gestão das explorações que combinará as melhores práticas ambientais como um elevado nível de diversidade biológica, com a conservação dos recursos naturais. Procura realizar a rotação anual das culturas, a reciclagem das matérias orgânicas e das técnicas de cultivo. É uma prática exigente em conhecimentos, observação e experiência. Pode ter custos elevados, por vezes, embora com ganhos ambientais e na saúde humana. É mais exigente na necessidade de maiores áreas de terreno, de menos animais por superfície, de menor densidade em plantas, logo certamente mais dispendiosa. É mais exigente na utilização de produtos químicos naturais, de luta cultural ou biotécnica, de rotação e fertilização dos solos à base de plantas naturais, logo requerendo mais atenção e tempo consumido na sua prática.
No essencial, a agricultura ou produção biológica dependerá do equilíbrio ecológico entre o solo, as plantas e as animais e não apenas da substituição de fertilizantes e pesticidas de síntese por produtos orgânicos.

FORMAÇÃO PROFISSIONAL
Quer no domínio da aplicação dos pesticidas, quer em alternativas à utilização dos pesticidas já foi proporcionado o acesso a formação por parte de 600 agricultores de Monchique, desde 2010, através do Centro de Formação Profissional da Cooperativa Agrícola de Monchique. Informamos que nesta data, encontram-se abertas inscrições para formação nestas e noutras áreas como sejam a fitossanidade, a poda e enxertia em horticultura e fruticultura, bem como no domínio das máquinas agrícolas e florestais.r

*(Gabinete Técnico de Apoio à Economia Rural da Cooperativa Agrícola de Monchique), com o apoio das formadoras em aplicação de produtos fitofarmacêuticos, Carla Fernandes e Marta Neves.

Fontes:
1 Simões, João Santos (2005) – Utilização de produtos fitofarmacêuticos na agricultura, edição da SPI-Sociedade Portuguesa de Inovação, Lisboa.
2 Mourão, Isabel de Maria (editor), (2007) – Manual de Horticultura no Modo de Produção Biológico, com financiamento do PO AGRO, Escola Superior Agrária de Ponte de Lima.
– Diretiva Comunitária 2009/123/CE de 21 de outubro e Lei 26/2013 de 11 de abril.

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