Palavrões – a crónica da indignação

Gostava de começar o texto de hoje com a frase “gosto muito de palavrões”, mas, como não quero fazer minhas as palavras de outro que tanto admiro e respeito, começo por escrever que em Portugal se escreve mal, sem vergonha, sem modos, sem pedir licença, sem esforços.

Escreve-se gratuitamente mal. Não há consequências, não há repercussões, não dá prisão, não indigna, não revolta, não causa doenças, não dá febre. Escreve-se mal, fala-se pior. E num mundo cheio de atrocidades, violência e choque, o falar mal passa ao lado da maioria. Que cala. Que não corrige. Que não sabe corrigir.

No meio de verbos mal conjugados, de frases mal construídas, de criações catastróficas de palavras que não podem jamais existir, ofendem-se os púdicos com os palavrões. Associam-se os palavrões à má educação, à brejeirice, ao baixo, e até à falta de vocabulário melhor. Pelo contrário. Os palavrões surgiram da necessidade de exprimir sentimentos que nos vão dentro, que de tão rudes, de tão primários, de tão fortes, necessitaram de léxico próprio. Chocam-se as gentes com o “falar mal”, “de boca cheia”. Dizer palavrões – que falta de educação!

Partilho a minha humilde opinião: má educação é perpetuar a ideia de que “há”, “à” e “á” são exatamente a mesma coisa. De que não faz mal dizer/escrever: “quando quereres”, “se estares”, “quando ires”. “Há-des”. “A gente vamos”. “Já chegas-te?”. “Amote”. “Voçê”.

Qual foi o momento em que decidimos que seria sensato dar indiferença ao mau uso do nosso património linguístico? Facadas e mais facadas na língua de Camões, um desrespeito insultuoso, uma tolerância e pacifismo revoltantes.

E a arrogância patética de quem não quer aprender. “Se ires lá, liga-me”. A correção: “se fores”. A resposta: “É tudo a mesma coisa. Não percebeste o que eu quis dizer?”. Não. Não é tudo a mesma coisa. Não, não percebi o que se quis dizer. Não foi o que se disse. Foi um palavrão. Um palavrão de boca cheia, sem atenção, um palavrão imundo, feio. É feio dizer-se um palavrão.

Miguel Esteves Cardoso escreveu: “é pior falar mau português do que falar mal em bom português”. Entre Pessoa, Florbela Espanca, Camilo Castelo Branco, e tantas, tantas outras referências do que é escrever-se bem em Portugal, onde foi que nos perdemos? Onde foi que perdemos o interesse de ler bem, de praticar o cultivo da alma, para nos espatifarmos em redes sociais famintas de aprovação, onde nada se aprova, porque nada há de bonito para aprovar? Aprovam-se calúnias, julgam-se todos uns aos outros, pelos pensamentos expostos, pelas falsas felicidades. E deixa-se passar uma série de assassinatos às claras do que de melhor temos, porque… Porque ao menos não são palavrões.

Esta é a crónica da indignação e do pedido de desculpas. Por todos os “geitos” sem “j”, todos os hífens colocados à toa, todas as cedilhas que se perderam pelo caminho, todos os acentos que não chegaram a existir. Um pedido de desculpa a todos os que nos querem ler e ficam a meio caminho, porque desistiram de perceber a diferença entre “querer” e “crer”, ou “adeus” e “a Deus”. Os meus mais sinceros pêsames a todas as palavras que morrem, todos os dias, a toda a hora, nas mãos e nas bocas de quem não as sabe. O meu pedido de desculpa aos palavrões, essa classe sem classe, que classifica, no final das contas, o que de tão mal vai no nosso português, sem nunca receber qualquer agradecimento em troca.

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