O realmente real

“sinto os mortos no frio das violetas
só a morte é realmente real”

Adélia Lopes,
in Meditação sobre Meditação

Sabes, Antoninho? Tu ainda não és capaz de fazer uma “meditação sobre meditação”. Mas o real é que o conseguiste fazer como se fosses um monge do deserto! Ó Antoninho, o que tu nos ensinaste, com os teus 6 anos de idade e a “velhice” da tua realidade!

Reparaste como conseguiste transfigurar cada palavra do teu “discurso” numa lágrima? E olha que isso não é trabalho fácil de conseguir!!!

E sentir “o frio das violetas” como só tu (com a tua pouca idade/ muita sensibilidade) conseguiste fazer, é uma proeza que te vai ficar marcada para sempre…

Meu querido menino, quero-te confidenciar uma coisa: tu não podes imaginar (ou…quem sabe?) o quanto me custou a impossibilidade de não ter conseguido estar aí em Monchique contigo e com a tua família!

É que se tratava de uma homenagem promovida como ato de muita saudade, de consideração, de muito respeito e admiração pelo teu Avô, e pelo seu temperamento respeitável e de respeito pelos outros.

Pela sua integridade. Mas também pelos seus não muito frequentes, mas de muito peso, “disparos” de bom-humor.

Conheci este teu Avô, que agora homenageio, mas que mereceu desde sempre a minha “homenagem” interior de respeito e de admiração.

Calcula tu: foi precisamente a meio do século passado, em 14 de maio de 1955, tinha eu 25 anos e o teu Avô, no mesmo mês, completou 35. Podia ter vindo destes 10 anos de diferença a minha admiração – mas não: o doutor Ventura foi sempre “admirável” por qualquer pessoa que tivesse o privilégio de o conhecer. E foi isso que me encantou. O mais novo funcionário da Câmara era eu, mas havia outros e bastante mais velhos que o teu Avô.

Era um homem cativante, pela sua serenidade, a sua postura, o seu ar sério que não conseguia deixar de esboçar um sorriso. Todos os seus companheiros de Monchique já cá não estão para testemunhar, mas muitos dos seus alunos do Colégio de Sta. Catarina podem confirmá-lo e dizer que nunca o esquecerão. Isto é uma homenagem.

Foi um professor dedicado aos alunos, de qualquer idade, que o admiravam e lhe queriam como a um “velho” mestre que os abraçava com o seu carinho, com a sua dedicação ao ensino.

Tinha vários episódios da sua vida cheios de humor, que ele contava, sorrindo, mas sem qualquer estridência de riso. O teu Avô, Antoninho, era um homem assim, de quem provaste agora ter muita honra e que lembrarás sempre como um padrão de amor e saudade levantado na raiz do teu coração.

Durante a pronunciação pública dos discursos que as diferentes pessoas quiseram fazer, a tua mãe custou a agarrar-te para não fugires para o microfone: mãe, insistias tu, eu também quero dizer alguma coisa do Avô, eu preciso de lhe dizer o que tenho cá dentro… Por fim, a mãe já não conseguiu mais prender-te e soltou-te com o fio de seda da infância com que te prendia. E tu correste para o microfone e agarraste-o. “Eu preciso de dizer, eu preciso de contar quanto amei o meu Avô António. Ele continuará a ser tudo para mim. E nunca o esquecerei. Amo-te muito Avô: é isto que eu quero que tu saibas”.

Foi isto que aproximadamente os amigos presentes ouviram pela voz deste menino. E não houve um só que não banhasse o rosto de lágrimas…

O poeta Ruy Cinatti contaria assim este momento:
“Fresca e limpa como a chuva, ouço a tua voz cantada/ descer do céu ao silêncio/ que vem da terra molhada”.

Este teu Avô Pires Ventura (que também era António como tu) teve uma fantástica história de vida pessoal. Ou melhor: viveu extraordinários episódios da sua vida que, depois, o mostraram tal como sempre ele foi.

A RAÍZ DA MEMÓRIA vem do fundo do tempo que não existe e surge na concha das mãos de quem existe. Mas também pode brotar numa só mão daquele ou daquela que traz em ambas as mãos a Vida.

Hoje, este discorrer é muito complicado para ti e até para os que já amadureceram com a idade. Mas se, na pujança do desenvolvimento da raiz que em ti existe e que em ti é fulgurante, se te acontecer (até mesmo sem saberes porquê) ficar preso à “meditação desta meditação”, então avaliarás com perspicácia, a raiz das coisas. A história que eu sei, muito resumida, é esta:

Viveu e exerceu o seu magistério até ao limite de idade, uma senhora que eu ainda vi a ensinar os seus alunos, algumas vezes, no Casino das Caldas. Era casada com um funcionário do Estabelecimento Termal, Senhor António Ventura, progenitores da dinastia dos Ventura cujo primeiro nome foi (e é) António.

Ora essa senhora (professora Dona Clementina) foi mestra sábia e mãe exemplar. Até que, em certo passo da sua juventude mas já mãe, resolveu agarrar a mãozinha do António e dizer-lhe: vamos meu filho, fazer uma coisa muito importante. Já vais ver. Agarrou num punhado de terra que tinha a seus pés e onde vira despontar uma haste pequenina do que mais tarde seria uma árvore. Com muito cuidado agarrou no torrão, colocou-o na concha de uma das mãos e, com a outra, pegou com emoção na pequenina mão do filho. E agora mãe? perguntou o menino. Subiram a rua, atravessaram a pontezinha por cima da cascata alegre e contente, de água cristalina e fios de prata líquida que parecia trinar um “adágio” de Mozart. Apesar da criança estar encantada com o que via e ouvia, a mãe disse-lhe num extremo de carinho: agora filho, vamos escavar com as tuas mãozinhas e, com a ajuda das minhas, uma cova onde possamos plantar a nossa árvore. E depois mãe?

– Depois, meu filho, vai acontecer que com as nossas mãos e o nosso coração, iremos construir uma pátria!

E repara António: tu vais crescer por entre este cenário “realmente real” de beleza, entre muitas plantas que multiplicam os verdes e as cores, que vão crescer contigo, dentro desta tua pátria que hoje plantaste. De mãos sujas pelo trabalho, de olhos faiscantes de brilho por veres e sentires em ti a vida a acontecer, a crescer e a abraçar-te. E essa vai ser a tua oração, pois “rezar é abraçar a vida tal como ela é”.

E como se chama esta árvore mãe? A mãe abraçou-o inclinando-se para o pequenino, como quem se inclina e abraça o Mundo. E para que serve? insistiu a criança. Para muito, que tu agora, com a tua bênção, tornaste pátria, porque tudo é criado pelo Amor. Segue o curso da ribeira e verás a pureza benfazeja da água saltar de contente até ao Paraíso. Depois de ter passado pela Fonte dos Amores…

Obrigado, Antoninho. Só tu farias sentir assim com esta intensidade o perfume, o frio, o silêncio e o azul das lágrimas das violetas…r

Nota: É esta a minha profunda e sentida homenagem ao meu querido amigo doutor António Pires Ventura.

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