O novo James Bond: cerebral e hercúleo

Lee Child é o criador de um James Bond com muitos miolos com uma dedução que faria inveja a Hercule Poirot e uma capacidade de combate que ultrapassa Sylvester Stallone e Chuck Norris, dá pelo nome de Jack Reacher, vende aos muitos milhões e até já anda no cinema.

“Uma Questão Pessoal”, por Lee Child, Bertrand Editora, 2016, inicia a saga desta figura mítica em Portugal. Tudo se passa no universo da espionagem, o nosso herói andava descontraído a gozar a sua reforma quando foi atraído por uma notícia de jornal, era um chamamento para ele contactar um dirigente dos serviços secretos. O major Reacher pôs-se a caminho, levaram-no de avião para um ponto exótico, seguiu-se uma entrevista ao mais alto nível. A CIA pretendia que ele desse opinião sobre uma tentativa de atentado ao presidente francês, fora alvejado a bastante mais de um quilómetro, era certamente um atirador extraordinário. Por exclusão de partes, Reacher sugeriu o nome de John Kott. O general O’Day dá-lhe a missão, deverá ir a Paris obter informações mais concretas e iniciar a caçada ao atirador furtivo, descobrir quem lhe encomendou a missão, fica claro que ele dera um sinal de vida depois de 15 anos de prisão, muito provavelmente pretende abater um importante dirigente político na reunião do G8 que se realizará em breve em Londres. E ele pôs-se ao caminho na companhia da jovem agente Casey Nice. O lema do nosso herói assenta numa frase lapidar: “Esperar pelo melhor e prepararmo-nos para o pior”. Vários agentes de serviços secretos convergem para Paris, durante a inspeção ao possível local onde decorreu a tentativa de assassinato, o agente russo é alvejado e morto com um tiro a grande distância. A trama vai-se enrolando, pelo caminho vão aparecer mafiosos implacáveis e criminosos sérios. Ir-se-á falar muito de balística e até da composição espantosa daquele material à prova da bala mais assassina, seremos informados dessa preparação mágica: “O oxinitrato de alumínio começava com um pó, que era mexido cuidadosamente, como a farinha num bolo, e depois compactado numa coisa chamada prensa isostática a frio e, por fim, moído e refinado, até ficar mais parecido com o vidro do que o próprio vidro. Era perfeito em termos visuais. E era resistente. O objetivo do modelo era sobreviver a um cartucho de calibre .50, capaz de penetrar material blindado, e os procedimentos de teste foram meticulosos e pormenorizados. Os painéis de teste tinham apresentado uma classificação de 100% contra pistolas de 9 mm, Magnums 357 e Magnums 44”. Os cientistas duplicaram a aposta, o resultado foi um sucesso, o material tinha tal resistência que as munições capazes de penetrar material blindado não o perfuravam. O nosso herói começa a aperceber-se que por detrás desta operação há uma outra, bastante torpe por sinal, perto do termo do romance tudo será revelado.

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Durante a operação em Londres o nosso herói vai enfrentado as diferentes máfias, uma delas é capitaneada por um gigante de dois metros e vinte, Lee Child reserva para este combate o melhor da sua narrativa explosiva, a sua ajudante lá e vai aguentando com golpes de karaté e fogo à queima-roupa.

O que é que há por detrás deste produto de entretenimento? Primeiro, a originalidade desta fantasia masculina, Child adapta-se à cogitação, tem raciocínio veloz e punhos de aço. Segundo, Child é um autor que manipula magistralmente as descargas do sistema nervoso, sendo evidente que este tipo de heróis fazem série, a trama é suficientemente enredada para tornar plausível os recontros e o modo como o herói vai despachando os mafiosos, os leitores estão suficientemente arrebatados para não largar o livro até à execução final e esta vai passar-se entre ele e uma figura lendária da CIA. Como nas grandes novelas de cavalaria, o herói é impoluto, trava qualquer relação sexual oportunista antes de desaparecer no anonimato. Desvendada a terrível trama desta operação em que desapareceram alguns dos mais temíveis atiradores furtivos, a jovem Casey Nice leva-o no seu calhambeque até um cruzamento onde ele irá apanhar um autocarro noturno. Não falaram, ele saiu, ficou a vê-la dizer adeus e a arrancar, ele sentou-se e pôs-se a olhar as estrelas até que o autocarro se aproximou e o levou para parte incerta. “Uma Questão Pessoal” tem todo o picante da intriga, uma narrativa em espiral de violência e uma dedução arrasadora que deixa o leitor satisfeito pelo tempo despendido numa leitura amena e descomprometida. Preparem-se, a série com Jack Reacher ainda nos irá pregar mais surpresas.

 

 

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