O Medo

O que é relativo à Média chama-se medo. Não, claro está, à média que resulta da divisão do total de várias quantidades pelo número delas, mas à Média, antigo país do Médio Oriente cujo território se localizava para as bandas dos atuais Iraque, Azerbeijão e Curdistão. As populações deste país da antiguidade, os Medos, invadindo outras regiões, chegaram a constituir o império medo, até ser absorvido pela Pérsia.
Passados vários milénios, já não havendo Medos, vemos hoje radicais de religião nascida por aqueles lados pretenderem estender o império do medo à Europa. Os repugnantes atentados perpetrados em Paris e em Bruxelas arrastaram a morte e o sofrimento de inocentes. Mas as pessoas dominam o medo e enfrentam as suas rotinas, embora vigilantes. É que quem tem cu tem medo. Talvez venha desta asserção popular a conhecida expressão “tafe-tafe” acompanhada do movimento de abrir e fechar dos dedos da mão em confluência, a sugerir o pulsar da chamada parte terminal das costas em situação de medo, há semelhança do que acontece com o dito cujo da galinha depois de pôr o ovo. Há, porém, quem diga que esta expressão onomatopaica se refere ao pulsar do coração.
Não sei o que dirá o “Glossário Monchiqueiro” da autoria de Mário Duarte, e que “O Monchiqueiro”-GDC acaba de publicar.
Grande parte das crianças tem medo do escuro, pelo caráter misterioso que encerra. Da mesma forma que antigamente tinham medo dos mendigos, andrajosamente vestidos. Agora já não, que é moda andar de calças rotas e esfarrapadas. Está visto que o hábito faz, para além do monge, perder o medo. Tal como figuras feias e desproporcionadas antes metiam medo, e agora são dos brinquedos preferidos das crianças e jovens.
Mas sempre há alguns que não se habituam ao medo, mas fazem-se fortes. Os valentes que morrem de cagufa costumam encher o peito de ar e dizer que não têm medo: o que têm é receio. Seja como for, têm é miúfa e borram-se pelas pernas abaixo quando a coisa se complica. E às vezes ficam heróis quando, em reação ao medo, assumem irrefletidamente atitudes destemidas. Quantas vezes os heróis são servidos mortos…
Contudo, há outros que morrem refletidamente, parece que sem medo, não como heróis, mas como mártires. Mas esses têm não sei quantas virgens à espera.r

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