O Homo Sapiens chegou à China muito mais cedo do que à Europa

Fósseis encontrados numa gruta chinesa indicam que os humanos modernos terão chegado à Ásia muito antes de entrarem na Europa e numa época em que se pensava que ainda não teriam saído de África.

Uma equipa internacional de cientistas anunciou a descoberta de 47 dentes humanos fósseis, provenientes de uma gruta de Fuyan, no condado de Dao da província chinesa de Hunan, no Sul da China, com idades compreendidas entre os 80.000 e os 120.000 anos. Os seus resultados foram publicados na revista Nature (http://www.nature.com/nature/journal/vaop/ncurrent/full/nature15696.html).

Esta descoberta constitui a prova mais antiga da presença de humanos modernos fora de África, e poderá obrigar os especialistas a rescrever a história das primeiras migrações da nossa espécie aquando da sua saída de África. Isto porque sugere que o Homo sapiens não só entrou na Ásia muito mais cedo do que se pensava, como lá entrou – também ao contrário do que se pensava – muito mais cedo do que na Europa. A datação das camadas onde os fósseis foram encontrados indicam que os nossos antepassados modernos já teriam chegado ao Sul da China 30.000 a 70.000 anos antes do seu aparecimento no Leste do Mediterrâneo ou na Europa.

“Até agora, a maioria da comunidade científica pensava que o Homo sapiens só passara a estar presente na Ásia há 50.000 anos”, disse Wu Liu, autor principal do estudo do Instituto de Paleontologia dos Vertebrados e de Paleoantropologia da Academia das Ciências chinesa. “Mas os dentes agora descobertos”, acrescentou, “são cerca de duas vezes mais antigos do que os primeiros vestígios da presença de humanos modernos na Europa”.

“Estes resultados sugerem que o Homo sapiens esteve presente na Ásia desde muito antes do que os 50.000 anos apontados pela hipótese designada por “Out of Africa” (que diz que a nossa espécie surgiu pela primeira vez, em África, há cerca de 200.000 anos, espalhando-se a seguir para outras regiões do mundo), explicou por seu lado María Martinón-Torres, do University College de Londres (Reino Unido) e co-autora do trabalho.

Para esta cientista “é lógico pensar que as dispersões migratórias para leste tenham sido mais fáceis, do ponto de vista ambiental, do que as deslocações para norte, dada a rudeza dos invernos na Europa”. E adianta: “também é possível que a nossa espécie tenha chegado ao Sul da China dezenas de milhares de anos antes de conquistar a Europa simplesmente por não ter conseguido entretanto entrar no continente europeu devido à presença, já enraizada, dos nossos robustos primos neandertais. “Poderá ter sido difícil conquistar territórios que os neandertais já ocupavam há centenas de milhares de anos”, disse María Martinón-Torres.

Para esta investigadora, algumas das migrações para fora de África têm vindo a ser rotuladas de “falsas dispersões”. E, por exemplo, certos fósseis provenientes de grutas em Israel indicam que, de facto, há cerca de 90.000 anos, os humanos modernos terão chegado “às portas da Europa sem conseguir lá entrar”.

Esta e outras descobertas recentes mostram o quão incerta está ainda a história da espécie humana. Em cada novo fóssil ainda por descobrir encontra-se o futuro da compreensão das nossas origens.

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